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  "user_comment": "I support your decision, I believe in change and hope you find just what it is that you are looking for. If your heart is free, the ground you stand on is liberated territory. Defend it. This feed allows you to read the posts from this site in any feed reader that supports the JSON Feed format. To add this feed to your reader, copy the following URL — https://crimethinc.com/feed.json — and add it your reader. For more info on this format: https://jsonfeed.org",
  "title": "CrimethInc.",
  "description": "CrimethInc. ex-Workers’ Collective: Your ticket to a world free of charge",
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  "author": {
    "name": "CrimethInc. Ex-Workers Collective",
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      "title": "Governo dos EUA Classifica a Plataforma NoBlogs.org Como “Terrorista Global” ",
      "summary": "The US government has classified the Italian collective Autistici/Inventati as a \"Specially Designated Global Terrorist,\" citing the collective's \"far-left\" politics. ",
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      "date_published": "2026-08-29T19:06:45Z",
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        "Censorship",
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      "content_html": "<p>Em 26 de agosto de 2026, o governo dos Estados Unidos <a href=\"https://www.state.gov/releases/office-of-the-spokesperson/2026/08/designation-of-autistici-inventati-as-a-specially-designated-global-terrorist/\">classificou</a> o coletivo italiano Autistici/Inventati como organização “<a href=\"https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/05/28/eua-classificam-pcc-e-comando-vermelho-como-organizacoes-terroristas-estrangeiras-e-terroristas-globais-entenda-a-diferenca.ghtml#:~:text=Terroristas%20Globais%20Especialmente%20Designados%20%28Specially%20Designated%20Global%20Terrorists%2C%20ou%20SDGT\">Terrorista Global Especialmente Designada</a>”, citando a política de “extrema-esquerda” do coletivo para justificar a designação. Eles anunciaram designações semelhantes do grupo britânico <a href=\"https://global.palestineaction.org/\">Palestine Action</a> e do movimento palestino transnacional Masar Badil na mesma declaração.</p>\n\n<p>Fundada em 2001, a Autistici/Inventati é um provedor voluntário de e-mail, sites, listas de discussão, blogs e ferramentas de comunicação voltados para a privacidade de usuárias que preferem não confiar em plataformas corporativas. De acordo com o Departamento de Estado dos EUA, a Autistici/Inventati hospeda “cerca de 16.000 caixas de correio, 1.500 sites, 5.500 listas de discussão e 10.000 ‘blogs’ em sua plataforma personalizada”.</p>\n\n<p>Autistici/Inventati explicam seus valores e objetivos em seu <a href=\"https://www.autistici.org/who/manifesto\">manifesto</a>:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>Acreditamos que a comunicação deve ser livre – e gratuita – e, portanto, universalmente acessível.</p>\n\n  <p>Tentamos realizar tudo isso oferecendo serviços de internet (web sites, e-mail, listas de discussão, chats, blogs, boletins informativos e muito mais) usando nossas melhores habilidades e conhecimentos para defender indivíduos ou grupos que compartilham nossos mesmos objetivos ou ideais. […]</p>\n\n  <p>Acreditamos que a mídia e a comunicação não devem ser o domínio exclusivo dos profissionais da informação. Acreditamos no valor da autogestão: é por isso que não temos patrocinadores ou financiamento de qualquer tipo, além de doações voluntárias daqueles que acreditam que nosso projeto é importante e deve sobreviver. Nenhum de nós ganha um centavo com este projeto (na verdade, muito pelo contrário).</p>\n</blockquote>\n\n<p>Muitas <a href=\"https://bsky.app/profile/seabookfair.bsky.social/post/3mtytx2i43225\">feiras de livros</a>, programas de rádio e outros projetos culturais contam com a plataforma <a href=\"https://noblogs.org/\">noblogs.org</a> do coletivo Autistici/Inventati para hospedagem de sites. De acordo com um <a href=\"https://bsky.app/profile/latenightafa.bsky.social/post/3mtytkyp7ws2d\">grupo de pesquisa antifascista</a>, “alguns dos locais mais conhecidos do NoBlogs pertencem a pesquisadores que apenas relatam ódio e radicalização de extrema-direita, nunca fazendo nada além de mostrar o que existe”. Tais pesquisadores ajudaram a identificar os fascistas que participaram do comício <em>“Unite the Right”</em> em 2017, durante o qual um neonazista <a href=\"https://crimethinc.com/2017/08/12/one-dead-in-charlottesville-why-the-right-can-kill-us-now\">assassinou</a> Heather Heyer em um ato verdadeiramente terrorista.</p>\n\n<p>O Departamento de Estado dos EUA está justificando essa classificação alegando que Autistici/Inventati “fornece ferramentas e serviços criptografados a numerosos grupos extremistas violentos de extrema esquerda”, incluindo a Rose City Antifa, com sede em Portland. Porém, sua afirmação sobre Rose City Antifa parece ser <a href=\"https://bsky.app/profile/torchantifa.bsky.social/post/3mtz3ki5i6s2l\">falsa</a>, porque estão <a href=\"https://bsky.app/profile/torchantifa.bsky.social/post/3mtz3kk5kxs2l\">confundindo</a> Rose City Antifa com outro projeto chamado Rose City Counterinfo.</p>\n\n<p>Com base nesse erro, o Departamento de Estado se apressou em <a href=\"https://www.foxnews.com/politics/exclusive-state-dept-reveals-portland-antifa-connection-hamas-irans-irgc-sweeping-terror-action\">proclamar</a> uma suposta “conexão Portland Antifa com o Hamas” e o “IRGC do Irã” [Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica], com a única justificativa sendo a alegação de que um “grupo de mídia extremista” não identificado – que eles não alegam ter qualquer relação com Rose City Antifa – republicou declarações do Hamas e do IRGC em um site hospedado por noblogs.org. Isso é representativo da desonestidade e da ignorância do comunicado de imprensa do Departamento de Estado como um todo.</p>\n\n<p>Quando uma força militar realiza um ataque a uma cidade, a primeira coisa que eles fazem é tentar cortar as linhas de comunicação que a conectam ao mundo exterior. Temos que entender o ataque a Autistici/Inventati da mesma forma. Agora que as corporações de tecnologia como <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2020/08/19/facebook-derruba-paginas-que-apoiam-crimethinccom-e-a-censura-ddigital-que-vira\">Meta</a> e a plataforma <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2022/11/25/elon-musk-derruba-crimethinc-no-twitter-atendendo-a-troll-das-extrema-direita\">anteriormente conhecida como Twitter</a> mostraram que estão dispostas a banir quem o governo dos EUA os instruir, o governo Trump está indo atrás de grupos que fornecem serviços da web em uma base não comercial.</p>\n\n<p>Como não há designação de “organização terrorista doméstica” nos Estados Unidos, o governo Trump começou sua <a href=\"https://crimethinc.com/2025/09/18/make-ready-safeguarding-our-movements-against-repression-how-to-respond-to-donald-trumps-threats\">criminalização</a> de antifascistas <a href=\"https://www.state.gov/releases/office-of-the-spokesperson/2025/11/terrorist-designations-of-antifa-ost-and-three-other-violent-antifa-groups\">classificando</a> grupos antifascistas europeus como “terroristas”. Eles estão visando um projeto de tecnologia italiano pelo mesmo motivo: eles pretendem colocar as peças no lugar para criminalizar os manifestantes domésticos, associando-os a grupos “terroristas globais” designados.</p>\n\n<p>De acordo com o <a href=\"https://ofac.treasury.gov/media/936791/download?inline\">Departamento do Tesouro</a> dos Estados Unidos, a partir de 25 de setembro de 2026, quaisquer transações com Autistici/Inventati serão “proibidas pelo Regulamento de Sanções ao Terrorismo Global”<sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">1</a></sup>. O <a href=\"https://home.treasury.gov/news/press-releases/sb0616/\">comunicado de imprensa</a> do Tesouro afirma:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>Violações de sanções dos EUA podem resultar na imposição de penalidades civis ou criminais a pessoas americanas e estrangeiras.</p>\n</blockquote>\n\n<p>Autistici/Inventati divulgou uma <a href=\"https://cavallette.noblogs.org/2026/08/10076\">breve declaração</a> sobre a designação:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>Negamos todas as alegações incluídas nas declarações, enquanto afirmamos fortemente nossa dedicação em fornecer uma plataforma de ferramentas para autodefesa digital, abordando a necessidade de comunicação gratuita para ativistas e outros indivíduos, grupos e associações.</p>\n\n  <p>Não vamos recuar, vamos continuar a fazer o que temos feito todos estes anos e vamos fazer o que quer que esteja na nossa possibilidade de contrariar as falsas alegações feitas por uma administração politicamente desesperada com a única intenção de afastar as pessoas e a atenção da mídia longe da sua própria violência e belicismo.</p>\n\n  <p>O antifascismo e o anticapitalismo não são terrorismo. Protestar não é terrorismo. E todos têm o direito de falar e lutar pela humanidade.</p>\n</blockquote>\n\n<p>Com base nas proibições de <a href=\"https://crimethinc.com/2022/12/09/canary-in-the-coal-mine-twitter-and-the-end-of-social-media\">mídias sociais</a> dos anos anteriores, a designação terrorista de Autistici/Inventati é um esforço para suprimir a mídia dissidente e um passo significativo para a repressão estatal apenas com base na ideologia. Isso não vai parar nos projetos anarquistas, mas acabará por se estender através do espectro político para todos que não se alinham com a administração – a menos que essa administração seja removida do poder. O perigo para todos aumentará até que isso aconteça.</p>\n\n<p>É claro que os sucessores de Donald Trump poderiam manter políticas repressivas como essa em vigor, assim como Joe Biden fez. Além de nos mobilizarmos contra o governo Trump, devemos garantir que haja pressão política suficiente sobre qualquer formação política que possa suceder à presidência de Trump para obrigá-los a reverter as medidas repressivas que o governo de Trump introduziu.</p>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"leia-mais\"><a href=\"#leia-mais\"></a>Leia mais:</h1>\n\n<p>Para uma análise legal desta designação, você pode começar <a href=\"https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:7498405566512406528/\">aqui</a>.</p>\n\n<ul>\n  <li><a href=\"https://www.fanpage.it/politica/per-gli-usa-terroristi-diamo-voce-al-dissenso-online-parla-il-collettivo-italiano-nel-mirino-di-trump/\">Uma entrevista com Autistici/Inventati</a></li>\n  <li><a href=\"https://sabot.media/post/the-server-called-paranoia\">The Server Called Paranoia</a></li>\n  <li><a href=\"https://exportprac.com/detail.html?sub_id=90a44ac53b\">US Sanctions Three European Activist Networks, Including Italian Privacy Collective</a></li>\n  <li><a href=\"https://crimethinc.com/2025/09/18/make-ready-safeguarding-our-movements-against-repression-how-to-respond-to-donald-trumps-threats\">Make Ready: Safeguarding Our Movements against Repression</a></li>\n</ul>\n\n<hr />\n\n<div class=\"footnotes\" role=\"doc-endnotes\">\n  <ol>\n    <li id=\"fn:1\">\n      <p>A ameaça específica do Departamento do Tesouro diz o seguinte: “Como resultado da ação de hoje, todas as propriedades e interesses em propriedade da pessoa designada ou bloqueada descrita acima que estão nos Estados Unidos ou na posse ou controle de pessoas dos EUA são bloqueados e devem ser relatados ao OFAC [o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros]. Além disso, quaisquer entidades que sejam de propriedade, direta ou indiretamente, individualmente ou no agregado, 50 por cento ou mais por uma ou mais pessoas bloqueadas também são bloqueadas. A menos que autorizado pelo OFAC, ou isento, os regulamentos da OFAC geralmente proíbem todas as transações por pessoas dos EUA ou dentro (ou transitam) dos Estados Unidos que envolvam qualquer propriedade ou interesses em propriedade de pessoas bloqueadas. <a href=\"#fnref:1\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n  </ol>\n</div>\n"
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      "title": "O Som e a Fúria de Uma Ordem de Colapso  :  À medida que o poder de Trump diminui, uma janela se abre para a mudança ",
      "summary": "As Donald Trump’s power wanes, opportunities will open up for social change. We explore the nature of the difficulties besetting his administration and propose how do to more than simply remove him.",
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      "content_html": "<p>Na decadente fase do reinado de Donald Trump, as oportunidades se abrirão para uma mudança social profunda. Nesse texto, exploramos a natureza das dificuldades que afetam sua administração e propomos alguns pontos iniciais para aqueles que pretendem fazer mais do que simplesmente substituí-lo por outro político.</p>\n\n<hr />\n<p>Em menos de um ano e meio, Trump gastou completamente as vantagens com que começou seu segundo mandato. Ele foi da imagem de imparável ao fracasso patético. Obcecado em apresentar uma imagem de força, Trump é de fato – como Shakespeare colocou – um pobre ator cuja hora após o palco logo chegará ao seu fim. O fluxo de falsidades e ameaças emitidas por seu governo pode ser visto pelo que é: <em>um conto contado por um idiota, cheio de som e fúria, que não significa nada</em>.</p>\n\n<p>O fiasco no Irã já é o segundo atoleiro de Trump este ano. Ele começou 2026 com uma acrobacia mais ou menos bem sucedida na <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2026/01/07/um-mundo-governado-pela-forca-o-ataque-a-venezuela-e-os-conflitos-que-virao\">Venezuela</a> – mas apenas quatro dias depois, o assassinato de <a href=\"https://crimethinc.com/2026/01/08/minneapolis-responds-to-ice-committing-murder-an-account-from-the-streets\">Renee Good</a> tomou seu lugar nas manchetes. Por quase três semanas, enquanto mercenários da Imigração e da Alfândega brutalizavam e <a href=\"https://crimethinc.com/2026/01/25/minneapolis-responds-to-the-murder-of-alex-pretti-an-eyewitness-account\">assassinavam</a> pessoas nas Cidades Gêmeas, todo o governo Trump descaradamente mentiu em contradição com evidências de vídeo amplamente divulgadas. Tendo criado uma situação em que eles não podiam correr o risco de parecer fracos, os comparsas de Trump tentaram ditar a realidade por decreto, já que mais moradores das Cidades Gêmeas se juntaram à <a href=\"https://crimethinc.com/responserevolution\">resistência</a> à ocupação do ICE. Finalmente, enfrentando números de pesquisa e a perspectiva de greves gerais recorrentes, o governo Trump foi forçado a mudar de rumo, demitindo o “Comandante em Geral” da Patrulha de Fronteira Greg Bovino e tentando tirar a política de assinatura de Trump (“a maior operação de deportação da história americana”) <a href=\"https://bsky.app/profile/crimethinc.com/post/3mhegk7yxas2e\">das manchetes de jornais</a>.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<a href=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/04/08/assassinos-1-original.png\"> <img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/04/08/assassinos-1.png\" /> </a>   <figcaption>\n    <p>Os mercenários que servem o regime de Trump destruíram qualquer reivindicação de autoridade moral.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>A saída de <a href=\"https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/28/adeus-bovino-manifestantes-se-reunem-em-minneapolis-para-celebrar-saida-de-chefe-de-operacao-anti-imigracao-na-cidade.ghtml\">Bovino</a> preparou o terreno para as saídas da secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, e da procuradora-geral, Pam Bondi. O fato de Trump ter começado seu segundo mandato determinado a evitar a rotatividade contínua de pessoal que caracterizou o primeiro revela que isso é uma derrota para ele. À medida que seus capangas caem em desgraça, não só isso prejudica a lealdade de seus subordinados remanescentes – que podem ver seu próprio futuro nos destinos infames de seus colegas – também prejudica as narrativas com as quais os lacaios que partiram procuravam justificar os feitos do governo. Demitir Greg Bovino e Kristi Noem é equivalente a admitir que as operações do ICE em Los Angeles, Chicago e Minnesota foram simplesmente tentativas desastradas de aterrorizar a população dos Estados Unidos para impor submissão.</p>\n\n<p>Ao <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2026/03/02/o-ataque-ao-ira-e-um-ataque-a-todos-nos-1\">invadir o Irã</a> um mês depois de demitir Bovino, Trump procurou reparar sua imagem repetindo seu aparente sucesso na Venezuela. Em vez disso, como em Minnesota, ele tropeçou em um desastre do qual ele ainda não se livrou.</p>\n\n<figure class=\"video-container \">\n  <iframe src=\"https://player.vimeo.com/video/1181090204?title=0&amp;byline=0&amp;portrait=0\" frameborder=\"0\" webkitallowfullscreen=\"\" mozallowfullscreen=\"\" allowfullscreen=\"\"></iframe>\n  <figcaption class=\"caption video-caption video-caption-vimeo\">\n    <p>“ASSASSINOS”: Todas as pessoas ligadas ao regime Trump são conhecidas por mentir sistemática e patologicamente.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Depois de <a href=\"https://www.tiktok.com/@classickev87/video/7625474183551536414\">mudar</a> continuamente seus pontos de discussão sobre o objetivo da ofensiva ao longo de março, Trump procurou levar o conflito a uma conclusão no início de abril, ameaçando ataques maciços contra infraestrutura civil – tecnicamente, um crime de guerra. Em 6 de abril, Trump ainda estava <a href=\"https://www.nytimes.com/2026/04/06/world/middleeast/iran-10-point-proposal.html\">insistindo</a> que a proposta de dez pontos do Irã para um cessar-fogo “não era boa o suficiente”. Na manhã seguinte, ele declarou “Toda uma civilização vai morrer esta noite”, aterrorizando muitas pessoas a acreditar que ele estaria ameaçando usar bombas nucleares – e talvez involuntariamente repetindo a <a href=\"https://mused.com/stories/973/the-fatal-prophecy-the-oracle-and-the-fall-of-lydia/\">profecia</a> do Oráculo de Delfos, que disse a Croesus que se ele fosse para a guerra, “um grande império cairia”, não especificando que era o império de Croesus.</p>\n\n<p>Uma hora e meia antes de seu próprio prazo autoimposto, Trump anunciou que, em diálogo com o primeiro-ministro do Paquistão – não com qualquer representante do governo iraniano – ele havia chegado a um cessar-fogo, chamando a proposta de dez pontos que ele havia rejeitado anteriormente de “base viável” para as negociações.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<a href=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/04/08/assassinos-2-original.png\"> <img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/04/08/assassinos-2.png\" /> </a>   <figcaption>\n    <p>De Minnesota ao Irã, Líbano e Palestina, eles não têm nada a oferecer além de morte e destruição pelo enriquecimento de alguns magnatas.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>O primeiro-ministro do Paquistão <a href=\"https://www.pakistantoday.com.pk/2026/04/08/trump-pauses-iran-strikes-after-outreach-from-pm-shehbaz-iran-signals-two-week-ceasefire\">afirmou</a> que os Estados Unidos, o Irã e todos os seus respectivos aliados “concordaram com um cessar-fogo imediato em todos os lugares, incluindo o Líbano”. No entanto, no dia seguinte, os militares israelenses ainda estavam atacando o Líbano e, em resposta, o Irã continuou a fechar o Estreito de Ormuz.</p>\n\n<p>É difícil imaginar um resultado pior para Trump. Ele não alcançou nenhum de seus objetivos expressos no Irã, nem mudança de regime nem supressão do programa nuclear do Irã. Ele já não parece ser um parceiro de negociação credível. Tanto sua ameaça de atacar a infraestrutura civil quanto sua reivindicação de ter negociado um cessar-fogo foram reveladas como vazias. Nem os governos iraniano nem israelense estão aderindo aos acordos que ele afirma ter arranjado. Ele é forçado a entrar em tensão com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, enquanto a pressão sobre a economia global continua inabalável.</p>\n\n<p>Ainda não está claro se Trump estava considerando seriamente um ataque maciço à infraestrutura civil – ou mesmo a um ataque nuclear – ou se ele estava simplesmente fazendo ameaças vazias por si só. Independentemente disso, ter que passar um dia se perguntando se ele iria jogar armas nucleares contra as casas de milhões de pessoas já mostra como é perigoso viver sob um autocrata senil – e, ao mesmo tempo, não fez Trump mais assustador para seus inimigos. Ele aparece ao mesmo tempo volátil e fraco.</p>\n\n<p>O que quer que aconteça em seguida no Irã, as derrotas consecutivas em Minnesota e no Oriente Médio marcam outro <a href=\"https://crimethinc.com/2025/12/16/at-the-turning-of-the-tide-how-fight-our-way-out-of-the-trump-era\">ponto de virada</a> para o regime de Trump.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<a href=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/04/08/assassinos-3-original.png\"><img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/04/08/assassinos-3.png\" /></a>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"estupidez-armada\"><a href=\"#estupidez-armada\"></a>Estupidez Armada</h1>\n\n<p>Quando Trump venceu a eleição de 2024, muitos dos debates sobre como responder dependiam da questão de saber se ele e seus colegas eram gênios do mal ou sortudos aleatórios beneficiados pelos eventos históricos. Grande parte da paralisia gerada por seu retorno ao poder centrou-se em torno dessa questão. Os progressistas alertaram que qualquer tipo de resistência seria “<a href=\"https://crimethinc.com/2025/12/16/at-the-turning-of-the-tide-how-fight-our-way-out-of-the-trump-era#the-curtain-rises\">fazer o jogo</a>” de Trump, permitindo-lhe declarar uma lei de exceção; centristas cinicamente se aproveitaram da situação para argumentar que o Partido Democrata deveria adotar posições de extrema-direita sobre a <a href=\"https://bsky.app/profile/crimethinc.com/post/3lu52rkhrcc2d\">imigração</a>. Pouco menos dezessete meses depois, é quase impossível lembrar, muito menos compreender, até que ponto seus adversários se convenceram a desistir sem lutar.</p>\n\n<p>Desde então, a pergunta foi respondida de forma conclusiva. Trump tem um truque: ceder ao que é mais baixo nos elementos mais covardes e odiosos da sociedade – o que ele repete com consistência sobre-humana. Em uma ordem social que é em si degradada, recompensar interesses egoístas enquanto pune a generosidade e a consideração é uma estratégia o levou longe. Mas agora ele está batendo em uma parede após a outra.</p>\n\n<p>Montar um governo com base nessa estratégia produziu <a href=\"https://nypost.com/2025/11/30/opinion/damning-report-labels-fbi-rudderless-ship-under-kash-patel-with-he-and-dan-bongino-more-concerned-with-building-personal-resumes/\">agências</a> cheias de bufões incompetentes focados principalmente em cultivar uma imagem pública e competir em favor de Trump. A condução da política de Estado nesta direção voltou a <a href=\"https://www.thedailybeast.com/trumps-ice-brag-immediately-blown-up-by-scathing-poll/\">maioria da população</a> contra o ICE e até levou as pessoas de volta aos braços do Partido Democrata, uma das únicas instituições tão impopulares quanto Trump.</p>\n\n<p>Um dos gestos mais característicos da era Trump é a desonestidade assumida como uma forma de transgressão intencional para demonstrar força. Quando Donald Trump proclama falsidades facilmente desmascaradas, seus seguidores interpretam isso como uma expressão de ousadia; eles podem demonstrar a intensidade de sua lealdade proclamando sua crença nessas falsidades, assim como os capangas de Stalin fizeram. Mas não se pode tomar decisões militares com base em falsidades – mais cedo ou mais tarde, haverá consequências.</p>\n\n<p>A maior parte da força de Trump é composta pelo medo que ele inspirou nas pessoas. Seus sucessos rápidos iniciais, como os ataques de Hitler de 1939-1941, foram devidos à fraqueza de seus adversários – políticos, executivos e administradores que, como o próprio Trump, são movidos apenas pela avareza e um senso de merecimento. Somente depois que ele e os mercenários ao seu dispor se depararam com resistência real é que foi possível avaliar sua verdadeira força. Como Mikhail Bakunin colocou em uma carta a Maria Reichel, “é apenas em combate que vemos o que uma pessoa pode fazer”.</p>\n\n<p>Ou não pode fazer.</p>\n\n<p>O principal imperativo que impulsiona as decisões do governo Trump é a necessidade de projetar força. Eles apostaram tudo na construção de uma força bruta (<em>hard power</em>) em vez de <em>soft power</em>, na intimidação em vez de persuasão. Agora que eles consumiram a maior parte de seu capital político, o campo está se abrindo para outros.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/04/08/2.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Manifestante aguenta agentes químicos em Minneapolis para defender o que há de melhor na humanidade.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"agora-e-o-momento\"><a href=\"#agora-e-o-momento\"></a>Agora é o momento</h1>\n\n<p>Depois de viver a <a href=\"https://libcom.org/article/reform-and-counterreform-bureaucratic-bloc-czechoslovakia-1968\">Primavera de Praga</a>, Milan Kundera escreveu algo para expressar que a forma ideal de governo é uma ditadura em ruínas.</p>\n\n<p><a href=\"https://pt.crimethinc.com/2020/02/06/nao-existe-governo-revolucionario-porque-nao-podemos-usar-o-estado-para-abolir-as-classes\">Todas as formas de governo</a> são baseadas na hierarquia e na violência. A desigualdade política e econômica se reforçam mutuamente: quanto mais a riqueza se concentra em poucas mãos, mais verticais se tornam as estruturas políticas e vice-versa. No entanto, isso permanece em grande parte invisível, desde que as pessoas percebam os governos que os comandam como legítimos, ou pelo menos inevitáveis. Sofrer sozinha não faz as pessoas desejarem mudança; as pessoas desejam com base no que são capazes de imaginar. Somente quando um regime desacreditado começa a entrar em colapso – criando uma tensão entre o que as pessoas veem ao seu redor e o que são capazes de imaginar – um grande número de pessoas começa a fazer perguntas sobre como elas podem querer mudar a estrutura da sociedade.</p>\n\n<p>Hoje, essas questões são mais urgentes do que nunca, já que o abismo entre os que têm e os não-produtores se amplia e os políticos cortam as redes de segurança e concessões que uma vez compensam o impacto do capitalismo jogando seus efeitos sobre as comunidades e ecossistemas.</p>\n\n<p>Neste momento, Trump é <a href=\"](https://www.newsweek.com/donald-trump-impeachment-backed-by-most-americans-poll-11800093)\">historicamente impopular</a>, com pouca perspectiva de sua posição com o público melhorando. No entanto, ele ainda tem quase três anos de mandato pela frente. Para milhões de pessoas, a ascensão de Trump ao poder e a inutilidade das instituições que deveriam controlá-lo estão colocando em questão todo o sistema político. Podemos ver essa raiva e radicalização emergindo, ainda que confusamente, entre os participantes de base nas <a href=\"https://crimethinc.com/2026/03/31/anarchists-at-the-2026-no-kings-rallies-reports-from-around-the-country\">manifestações massivas</a> que ocorreram ao longo do ano passado.</p>\n\n<p>Esta é uma oportunidade sem precedentes para anarquistas, abolicionistas e outros que têm propostas concretas para provocar mudanças sociais estruturais. Neste momento, quando nenhuma força institucional é capaz de propor uma solução para o problema, deveríamos estar unificando causas comuns através de linhas de diferença, demonstrando o poder da solidariedade e a eficácia da ação direta, compartilhando o que aprendemos no curso de nossos esforços para resistir à administração e explicitando nossa visão de um mundo melhor.</p>\n\n<p>Esta janela de oportunidade não vai durar muito. Quanto mais nos aproximamos das eleições de meio de mandato de 2026, mais pessoas estarão focadas na política eleitoral, incluindo muitas das que estão atualmente participando de iniciativas de base. Podemos estar em uma posição mais forte para nos dirigirmos às pessoas neste momento do que nunca estaremos novamente no curso da era Trump.</p>\n\n<p>Muitas vezes, o momento de maior perigo – por exemplo, quando fascistas ou agentes do ICE estão assassinando pessoas em <a href=\"https://crimethinc.com/2024/08/11/charlottesville-revisited-2017-to-2024-what-can-a-moment-of-peril-tell-us-about-our-own-dangerous-times\">Charlottesville</a> ou <a href=\"https://crimethinc.com/2026/01/25/minneapolis-responds-to-the-murder-of-alex-pretti-an-eyewitness-account\">Minneapolis</a> – acaba por ter sido, em retrospecto, o momento de maior possibilidade. Quando o terror diminui e reconhecemos o potencial da situação, o momento já está passando.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/04/08/3.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Federal mercenaries gratuitously assaulting people in Portland. Mercenários federais agredindo gratuitamente pessoas em Portland. Nenhuma quantidade de força bruta será suficiente para subjugar uma população cada vez mais desesperada.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Devemos lembrar disso, porque à medida que a posição de Trump enfraquece, ele e seus partidários tentarão mais e mais esquemas aterrorizantes e não convencionais para manter seu controle sobre o poder. Ele e seus adeptos ainda têm tempo suficiente para infligir uma enorme quantidade de sofrimento, tanto nos EUA quanto no exterior. Devemos nos <a href=\"https://crimethinc.com/2025/09/18/make-ready-safeguarding-our-movements-against-repression-how-to-respond-to-donald-trumps-threats\">preparar</a> para rodadas de repressão muito mais agressivas. Da mesma forma, já vimos](https://crimethinc.com/2022/01/06/january-6-first-as-farce-next-time-as-tragedy-what-if-we-knew-we-would-face-another-coup) que Trump não deixará o cargo de boa vontade.</p>\n\n<p>Provavelmente, o resultado das eleições de meio de mandato será determinado pelo que acontece nos próximos meses – não pelo sucesso das campanhas políticas , mas sim, pela medida em que a resistência de base torna impossível para a classe dominante imaginar que Trump poderia continuar a promover seus interesses e a extensão em que elementos da classe dominante são capazes de se reagrupar em torno de outras forças institucionais, como o Partido Democrata.</p>\n\n<p>Enquanto planejamos para o Primeiro de Maio e os meses seguinte, devemos ter uma visão mais longa. Como as táticas que demonstramos durante esses eventos ajudarão a familiarizar um grande número de pessoas com o tipo de tática que elas precisarão empregar ao nosso lado para frustrar a segunda tentativa de Trump de realizar um golpe? Como as narrativas que popularizamos nos posicionarão para continuar lutando contra todos os outros defensores do capitalismo e da opressão depois que Trump se for?</p>\n\n<p>Devemos nos apressar a desmascarar todas as conexões entre fascistas, bilionários, militaristas, sionistas e nacionalistas cristãos, operadores de criptomoedas, magnatas da tecnologia, plataformas corporativas e de mídia social, agências federais como o ICE e a polícia e xerifes que os incentivam, e os centristas e democratas que abriram o caminho para as tragédias da segunda era Trump, suprimindo a resistência de base na conclusão do primeiro. Devemos estabelecer linhas vermelhas dentro da oposição a Trump, tornando impensável promover ou desculpar qualquer uma dessas forças, mostrando o quão tóxicos os compromissos com eles provaram.</p>\n\n<p>Aqui estão alguns objetivos concretos que nossos movimentos poderiam adotar:</p>\n\n<ul>\n  <li>\n    <p>Descartar todas as propostas de reformas inúteis e superficiais para o ICE e o Departamento de Segurança Interna. Em vez disso, defender a resistência total com o objetivo de longo prazo de abolir essas instituições. Aqueles que se juntaram ou permaneceram nessas agências sob Trump mostraram seu ódio pelo resto da população, deixando claro que essas instituições existem com o propósito expresso de servir a autocratas. Aqueles que foram presos ou deportados devem se juntar a seus entes queridos.</p>\n  </li>\n  <li>\n    <p>Conectar a luta contra o ICE aos movimentos pela abolição da polícia e das prisões. Se os políticos democratas não tivessem se esforçado tanto para suprimir esses movimentos entre 2021 e 2024, os movimentos sociais teriam sido muito melhor preparados para a segunda era Trump e o regime teria menos armas à sua disposição para impor o controle.</p>\n  </li>\n  <li>\n    <p>Organizar para libertar pessoas presas e obrigar os promotores a retirar acusações contra réus em todos os casos de resistência ao ICE e ao regime de Trump em geral. Podemos buscar precedentes em júris populares que se negaram a indiciar e condenar os acusados de resistir ao ICE. À medida que se torna evidente para mais pessoas que a lei é um instrumento político que serve aqueles que detêm o poder em vez de uma instituição neutra, muitas pessoas vão procurar maneiras de abordar a injustiça que não concentram o poder nas mãos de uma Suprema Corte composta de reacionários de extrema-direita.</p>\n  </li>\n  <li>\n    <p>Conecta a luta contra Donald Trump à luta contra câmeras de vigilância e data centers do Flock e, mais amplamente, à resistência a tecnofascistas como Elon Musk e Mark Zuckerberg.</p>\n  </li>\n  <li>\n    <p>Canalizar as lutas antiguerra para <a href=\"https://crimethinc.com/2023/11/15/shutting-down-raytheon-report-from-a\">atacar empresas de armas</a> responsáveis pelo genocídio em <a href=\"https://crimethinc.com/2024/10/03/ya-ghazze-habibti-gaza-my-love-understanding-the-genocide-in-palestine\">Gaza</a> e pela limpeza étnica na Palestina.</p>\n  </li>\n  <li>\n    <p>Mostrar que o racismo, a misoginia, a transfobia e outras formas de intolerância facilitam a competição desigual através das quais os bilionários estão empobrecendo nossas comunidades.</p>\n  </li>\n  <li>\n    <p>Construir projetos de apoio mútuo, projetos de educação de base e outras formas de infraestrutura social fora do estado que não podem ser destruídas por medidas de austeridade do governo ou ameaçadas por repressões a instituições acadêmicas e organizações sem fins lucrativos.</p>\n  </li>\n</ul>\n\n<p>O colapso de movimentos sociais radicais no final de 2020 é uma história que nos serve de lição. Devemos sair da segunda era Trump mais fortes do que entramos. Isso é especialmente importante porque as verdadeiras batalhas estão apenas começando. Uma onda de vitórias políticas fascistas está se aproximando na Europa, apesar de que se Trump for derrotado verdadeiramente, isso pode diminuir seu impulso. A Inteligência Artificial está apenas começando a levar um grande número de pessoas ao desemprego, enquanto intensifica a vigilância estatal e o militarismo.</p>\n\n<p>Como já argumentamos <a href=\"https://crimethinc.com/2014/03/17/feature-the-ukrainian-revolution-the-future-of-social-movements\">antes</a>, no século XXI, quando o Estado pouco pode fazer para mitigar o impacto do capitalismo, o poder do Estado é uma batata quente que queima quem a detém. As mesmas condições que estão elevando os partidos de extrema-direita ao poder em todo o mundo também são dificultando o controle. Mas isso vale para quem quiser suceder Trump também: se Trump for expulso do cargo, sua base se dividirá em facções sionistas e neonazistas, cada uma mais virulenta do que a última geração de republicanos, enquanto qualquer governo que o suceda também provocará raiva e desilusão – provavelmente mobilizando uma nova onda de impulso para a extrema direita. Se o que aconteceu sob a administração Biden se repetir, a reação da próxima vez será mais horrível do que qualquer coisa que possamos imaginar. É por isso que devemos abordar os problemas que o capitalismo está criando na raiz, não simplesmente protestar contra suas figuras mais nocivas.</p>\n\n<p>Devemos garantir que seja fácil para todos distinguir nossos projetos de base de qualquer governo que detenha o poder e continuar a expandi-los e aprofundá-los, independentemente de haver um demagogo incompetente levando as pessoas a tomar as ruas. Como aprendemos repetidamente – às vezes através da coragem, às vezes através da covardia – <a href=\"https://crimethinc.com/2025/01/28/its-safer-in-the-front-taking-the-offensive-against-tyranny\">é mais seguro na frente</a>.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/04/08/1.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Um manifestante devolve uma bomba de gás lacrimogêneo aos assassinos que a atiraram durante as manifestações em Minneapolis, em maio de 2020, em resposta ao assassinato de George Floyd.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"apendice-sobre-a-estupidez\"><a href=\"#apendice-sobre-a-estupidez\"></a>Apêndice: Sobre a Estupidez</h1>\n\n<p>Neste texto, quando falamos de estupidez, não falamos da falta de aptidão natural, mas sim sobre quando uma pessoa escolhe fazer uso de suas aptidões ou ativamente suprimi-las. Até agora, deve ser evidente para todos as pessoas que abriram caminho para a ascensão de Trump – muitas das quais estão estranhamente obcecadas com a ideia de que elas possuem aptidões naturais que os outros não têm – têm sido voluntariamente, obstinadamente se recusando a ver o que está bem na frente de seus rostos. A estupidez, nesse sentido, não é uma condição intelectual, mas uma falha moral.</p>\n\n<p>Ninguém coloca isso mais claramente do que o pastor Dietrich Bonhoeffer, que testemunhou a ascensão dos nazistas:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>A estupidez talvez seja menos psicológica do que um problema sociológico. É uma forma particular do impacto das circunstâncias históricas sobre os seres humanos, uma coincidência psicológica de certas condições externas. Após uma observação mais detalhada, torna-se evidente que cada forte aumento de poder na esfera pública, seja de natureza política ou religiosa, infecta uma grande parte da humanidade com estupidez. Parece mesmo que esta é praticamente uma lei sociológico-psicológica. O poder de um precisa da estupidez do outro. O processo em ação aqui não é que as capacidades humanas particulares, por exemplo, o intelecto, de repente atrofiam ou falham. Em vez disso, parece que, sob o impacto esmagador de um poder em ascensão, os seres humanos são privados de sua independência interior e, mais ou menos conscientemente, desistem de estabelecer uma posição autônoma em relação às circunstâncias emergentes. O fato de que a pessoa estúpida é muitas vezes teimosa não deve nos cegar para o fato de que ele não é independente. Em conversa com ela, praticamente se sente que não se está lidando de forma alguma com ela como pessoa, mas com slogans, palavras-chave e afins que tomaram posse dele. Ele está sob um feitiço, cego, mal utilizado e abusado em seu próprio ser. Tendo assim se tornado uma ferramenta sem mente, a pessoa estúpida também será capaz de qualquer mal e ao mesmo tempo incapaz de ver que é o mal. É aqui que o perigo do uso indevido diabólico se esconde, pois é isso que pode de uma vez por todas destruir os seres humanos.</p>\n\n  <p>No entanto, neste exato ponto, torna-se bastante claro que apenas um ato de libertação, e não de instrução, pode superar a estupidez. Aqui devemos chegar a um acordo com o fato de que, na maioria dos casos, uma genuína libertação interna se torna possível apenas quando a libertação externa a precedeu. Até lá devemos abandonar todas as tentativas de convencer a pessoa estúpida. Este estado de coisas explica por que em tais circunstâncias nossas tentativas de saber o que “o povo” realmente pensa são em vão e por que, sob essas circunstâncias, essa questão é tão irrelevante para a pessoa que está pensando e agindo com responsabilidade.</p>\n\n  <p>-Dietrich Bonhoeffer, “<a href=\"https://www.google.com/books/edition/Letters_and_Papers_from_Prison/MZJQBfDLGU8C?gbpv=1\">On Stupidity</a>” em <em>Letters and Papers from Prison</em></p>\n</blockquote>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/04/08/4.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Aqueles que escolhem servir os tiranos podem ser capazes de suprimir tudo o que é sábio e belo em si mesmos, mas não conseguirão destruir a sabedoria e a beleza.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<p><em>A fotografia de cabeçalho foi tirada por <a href=\"https://www.instagram.com/p/DUSYkUwlJ5K/\">Mark Graves</a> no domingo, 1 de fevereiro de 2026, na instalação do ICE de Portland. Foi o segundo dia consecutivo que agentes federais atacaram manifestantes com produtos químicos.</em></p>\n\n"
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Como alguns deles <a href=\"https://crimethinc.com/2026/01/07/iran-an-uprising-besieged-from-within-and-without-three-perspectives\">escreveram</a> no mês passado,</p>\n\n<blockquote>\n  <p>“Nesta conjuntura, qualquer intervenção militar ou imperial só pode enfraquecer a luta de baixo e fortalecer a mão da República Islâmica para realizar a repressão.”</p>\n</blockquote>\n\n<p>Movimentos sociais no Irã têm resistido a um governo opressivo <a href=\"/2020/10/08/iran-there-is-an-infinite-amount-of-hope-but-not-for-us-an-interview-discussing-the-pandemic-economic-crisis-repression-and-resistance-in-iran\">por décadas</a>. Mas o estabelecimento de um regime fantoche que serve os EUA e Israel não vai ajudá-los. Ao atacar o Irã, Trump não necessariamente procura derrubar o governo, mas simplesmente subordiná-lo à sua vontade, derrubando as principais figuras para se colocar no lugar delas. Ele fez <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2026/01/07/um-mundo-governado-pela-forca-o-ataque-a-venezuela-e-os-conflitos-que-virao\">exatamente</a> isso na Venezuela em janeiro de 2026. O sequestro de Nicolás Maduro não fez nada para mudar a distribuição de poder na sociedade venezuelana; o principal resultado da intervenção de Trump tem sido que ele colocou as peças no lugar para saquear o país de seus recursos naturais em benefício de elementos da classe dominante dos Estados Unidos.</p>\n\n<p>Como outros autocratas em todo o mundo, Trump pretende marginalizar as pessoas comuns, reduzindo toda a política a uma questão de tiranos que disputam o poder em detrimento daqueles que governam. Ele sacrificará com prazer a vida de iranianos, israelenses e cidadãos dos EUA para se beneficiar.</p>\n\n<p>À medida que o lucro capitalista está se deparando com <a href=\"https://crimethinc.com/2025/12/16/at-the-turning-of-the-tide-how-fight-our-way-out-of-the-trump-era#a-rising-tide-that-sinks-all-boats\">limites inerentes</a> em todo o mundo, os déspotas voltaram a acumular riqueza à moda antiga: pela violência brutal do Estado. Uma das coisas que tem sustentado a economia global nos últimos anos é o boom da especulação de mercado em um punhado de empresas de tecnologia que tentam vender produtos de “inteligência artificial”. Na verdade, esta é uma corrida para investir na próxima geração de tecnologia militar, a fim de se preparar para uma era em que será ainda mais central para determinar como a riqueza e o poder são distribuídos. Podemos ver provas no conflito desta semana sobre se os militares dos EUA devem ser capazes de usar ferramentas de IA produzidas pela <a href=\"https://www.anthropic.com/news/statement-comments-secretary-war\">Anthropic</a> para perseguir a vigilância doméstica em massa de cidadãos dos EUA e para soltar armas totalmente autônomas sobre o mundo.</p>\n\n<p>Os militares israelenses fizeram <a href=\"https://www.nytimes.com/2025/04/25/technology/israel-gaza-ai.html\">uso extensivo da IA</a> para <a href=\"\">perpetrar genocídio</a> em Gaza. Isso é o principal motivo para uso da inteligência artificial – e não apenas ajudar os burocratas a escrever seus próprios e-mails.</p>\n\n<p>Para o governo israelense, todo o Oriente Médio é agora a Cisjordânia. O ataque ao Irã mostra que eles estão determinados a sujeitar centenas de milhões à violência que já têm infligido ao povo palestino, libanês e sírio.</p>\n\n<p>Nos EUA, a decisão de Trump de declarar guerra sem consultar o Congresso mostra que ele já se entende como um ditador. O ataque contra os iranianos destina-se a lançar o terror contra os inimigos de Trump em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos.</p>\n\n<p>Devemos entender esse ataque como uma ameaça para nós também. De <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2026/01/07/um-mundo-governado-pela-forca-o-ataque-a-venezuela-e-os-conflitos-que-virao\">Caracas</a> e <a href=\"https://crimethinc.com/2026/02/23/their-escalation-and-ours-how-the-fight-against-ice-in-the-twin-cities-gained-momentum\">Minneapolis</a> até Teerã, é fácil ver que tipo de mundo eles estão tentando criar. As mesmas armas que são usadas contra os iranianos hoje serão viradas contra qualquer um que resista a Trump e seus capangas amanhã, a menos que os façamos a resistência juntos antes que seja tarde demais.</p>\n\n<p>Temos de construir movimentos de base com a capacidade para interromper a máquina de guerra. As centenas de milhares de pessoas massacradas sem sentido em <a href=\"https://crimethinc.com/2024/10/03/ya-ghazze-habibti-gaza-my-love-understanding-the-genocide-in-palestine\">Gaza</a>, <a href=\"https://crimethinc.com/2026/02/09/the-rojava-revolution-in-peril-the-struggle-for-free-life-continues-a-statement-from-american-chinese-and-russian-internationalists\">Síria</a>, <a href=\"https://crimethinc.com/2019/06/14/sudan-behind-the-massacre-in-khartoum-the-perpetrators-and-the-backstory\">Sudão</a>, Iêmen, <a href=\"https://crimethinc.com/2006/09/11/mission-accomplished-why-bush-is-counting-on-the-islamic-resistance\">Iraque</a>, <a href=\"https://crimethinc.com/2026/02/10/five-years-of-coup-burmese-anarchists-within-and-without-the-revolution-an-interview\">Mianmar</a>, and <a href=\"https://crimethinc.com/2022/03/05/the-view-from-ukraine-the-view-from-russia-an-exile-from-donbas-and-a-protester-in-russia-tell-their-stories\">Ucrânia</a> mostram <a href=\"https://www.nytimes.com/2026/02/24/world/europe/ukraine-war-deaths.html\">o que nos espera</a> no fim desse caminho se não conseguirmos.</p>\n\n<p>A verdadeira libertação só pode acontecer através da solidariedade entre os movimentos de base. Devemos resistir ao belicismo de Trump por todos os meios.</p>\n\n<h1 id=\"leitura-adicional\"><a href=\"#leitura-adicional\"></a>Leitura Adicional</h1>\n\n<ul>\n  <li><a href=\"/2026/01/09/ira-uma-revolta-sitiada-por-dentro-e-por-fora-tres-perspectivas\">Irã: Uma Revolta Sitiada por Dentro e por Fora</a></li>\n  <li>“<a href=\"/2026/02/18/a-state-that-massacres-its-own-people-cannot-be-a-force-of-liberation-for-others-a-conversation-on-the-recent-uprising-in-iran\">Um Estado que Massacra Seu Próprio Povo Não Pode Ser Uma Força de Libertação para Outros</a>”:  Uma conversa sobre o recente levante no Irã</li>\n  <li><a href=\"/2025/07/20/entendendo-a-autodissolucao-do-pkk-o-que-isso-significa-para-o-oriente-medio\">Entendendo a Autodissolução do PKK</a>:  O Que Isso Significa Para o Oriente Médio?</li>\n  <li><a href=\"/2024/10/03/ya-ghazze-habibti-gaza-my-love-understanding-the-genocide-in-palestine\">Ya Ghazze Habibti—“GAZA, MEU AMOR”</a>: Understanding the Genocide in Palestine</li>\n  <li><a href=\"/2025/06/23/women-life-freedom-against-the-war-a-statement-against-genocidal-israel-and-the-repressive-islamic-republic\">“Women, Life, Freedom” against the War</a>: A Statement against Genocidal Israel and the Repressive Islamic Republic</li>\n  <li><a href=\"/2025/05/19/iran-precarious-work-means-precarious-life-how-the-rajaee-port-disaster-exemplifies-the-assault-on-baluch-ethnic-minorities\">Precarious Work Means Precarious Life</a>: How the Rajaee Port Disaster Exemplifies the Assault on Baluch Ethnic Minorities</li>\n  <li><a href=\"/2024/06/03/against-apartheid-and-tyranny-for-the-liberation-of-palestine-and-all-the-peoples-of-the-middle-east-a-statement-from-iranian-exiles\">Against Apartheid and Tyranny: For the Liberation of Palestine and All the Peoples of the Middle East</a>—A Statement from Iranian Exiles</li>\n  <li><a href=\"/2023/03/08/jin-jiyan-azadi-woman-life-freedom-the-genealogy-of-a-slogan\">Jin, Jiyan, Azadi (Woman, Life, Freedom)</a>: The Genealogy of a Slogan</li>\n  <li><a href=\"/2022/09/28/revolt-in-iran-the-feminist-resurrection-and-the-beginning-of-the-end-for-the-regime\">Revolt in Iran</a>: The Feminist Resurrection and the Beginning of the End for the Regime</li>\n  <li><a href=\"/2022/03/15/the-syrian-cantina-in-montreuil-organizing-in-exile-how-refugees-can-continue-their-struggle-in-foreign-lands\">The Syrian Cantina in Montreuil</a>: Organizing in Exile — How Refugees Can Continue Revolutionary Struggle in Foreign Lands</li>\n  <li>“<a href=\"/2020/10/08/iran-there-is-an-infinite-amount-of-hope-but-not-for-us-an-interview-discussing-the-pandemic-economic-crisis-repression-and-resistance-in-iran\">There Is an Infinite Amount of Hope… but Not for Us</a>” — An Interview Discussing the Pandemic, Economic Crisis, Repression, and Resistance in Iran</li>\n  <li><a href=\"/2020/02/24/lebanon-the-revolution-four-months-in-an-interview\">Lebanon: The Revolution Four Months in</a></li>\n  <li><a href=\"/2020/01/08/against-all-wars-against-all-governments-the-real-danger-of-the-conflict-with-iran\">Contra Todas as Guerras, Contra Todos os Governos</a>: Compreendendo a Guerra Entre Estados Unidos e Irã</li>\n</ul>\n\n<hr />\n\n<figure class=\"portrait-shadow\">\n<a href=\"https://crimethinc.com/posters/against-all-wars\"> <img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/posters/contra-todas-as-guerras/contra-todas-as-guerras_front_black_and_white.jpg\" /> </a>   <figcaption>\n    <p>Por favor <a href=\"https://pt.crimethinc.com/posters/contra-todas-as-guerras\">imprima e distribua</a> esses cartazes por toda parte.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<figure class=\"portrait-shadow\">\n<a href=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2020/01/08/satrapi-pt.pdf\"> <img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2020/01/08/satrapi-pt.jpg\" /> </a>   <figcaption>\n    <p>Por favor <a href=\"https://pt.crimethinc.com/posters/contra-todas-as-guerras\">imprima e distribua</a> esses cartazes por toda parte.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n"
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      "content_html": "<p>Com o apoio do governo turco e a bênção dos Estados Unidos e dos governos europeus, os militares sírios estão cercando as comunidades autônomas de Rojava, buscando integrá-los à força no Estado sírio. As Forças Democráticas Sírias (SDF) em Rojava assinaram um tratado de paz concordando com a integração, mas o resultado ainda está por vir.</p>\n\n<p>No fim de 2024, as <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2024/12/08/a-guerra-civil-siria-resurge-perspectivas-sobre-o-conflito-do-oeste-e-nordeste-da-siria-1\">forças insurgentes</a> apoiadas pela Turquia entraram em Damasco, <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2024/12/23/noticias-do-front-as-reflexoes-de-um-anarquista-russo-em-rojava-sobre-o-colapso-de-assad-o-futuro-da-russia-e-a-iminente-invasao-apoiada-pela-turquia\">derrubando o regime</a> de Bashar al-Assad. Seu líder, Ahmed al-Sharaa, conhecido pelo nome de guerra Abu Mohammad al-Julani, tornou-se presidente da Síria. No ano seguinte, o novo governo sírio se propôs a favorecer as potências imperiais em todo o mundo, incluindo o regime de Donald Trump, a fim de consolidar o poder sobre o país.</p>\n\n<p>Em 6 de janeiro de 2026, o governo de transição sírio lançou uma ofensiva <a href=\"https://english.anf-news.com/rojava-syria/lesson-from-aleppo-the-stark-reality-of-a-new-era-83153\">em coordenação com as forças paramilitares jihadistas</a> contra o bairro curdo Sheikh Maqsood, na cidade de Aleppo. As SDF retiraram-se a 10 de Janeiro, juntamente com um grande número de refugiados deslocados.</p>\n\n<p>Três dias depois, o governo sírio atacou Rojava como um todo. Em 18 de janeiro, o presidente sírio Ahmed al-Sharaa anunciou um acordo de cessar-fogo com as SDF, mas os combates foram retomados imediatamente. Rojava enfrentou a ameaça de uma guerra de extermínio em grande escala, incluindo a possibilidade de que os militares turcos invadiriam <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2019/10/12/a-relevancia-da-invasao-turca-abordando-as-duras-questoes-sobre-imperialismo-e-solidariedade\">mais uma vez</a>. Em 20 de janeiro, as SDF concordaram com um cessar-fogo estipulando que a região será subordinada ao governo sírio em Damasco e as SDF serão integradas aos militares sírios. Ontem, este cessar-fogo foi estendido; mas a partir de agora, partes de Rojava permanecem sob cerco.</p>\n\n<p>Embora os proponentes do Estado afirmem que um governo forte e centralizado seja necessário para evitar o “caos” e a violência étnica, podemos ver que na Síria, o oposto é verdadeiro: aqueles que visam centralizar o poder do Estado em suas mãos estão usando a violência étnica como um meio para fazê-lo. Esta não é a primeira vez na história que um esforço para unificar um país sob um governo centralizado coincidiu com uma campanha de limpeza étnica.</p>\n\n<p>Aqui, apresentamos uma declaração de anarquistas dos EUA, China e Rússia que lutaram para defender Rojava sobre o que esses últimos desenvolvimentos significam para o futuro. Para mais informações sobre a história deste conflito, você pode começar <a href=\"https://crimethinc.com/2019/10/12/why-the-turkish-invasion-matters-addressing-the-hard-questions-about-imperialism-and-solidarity\">aqui</a>. Você pode acompanhar atualizações de anarquistas em Rojava <a href=\"https://tekosinaanarsist.noblogs.org/category/war-updates/\">aqui</a>.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/02/09/4.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Um mapa da região em 26 de janeiro de 2026, após a pausa nas hostilidades.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<p>Em 2012, quando o regime de Bashar al-Assad começou a perder o controle do país no início da revolução síria, grupos curdos subterrâneos que se organizavam há décadas aproveitavam a oportunidade para preencher o vácuo de poder, expandindo suas estruturas autônomas para defender seu povo. Ao longo dos anos que se seguiram, a revolução Rojava tornou-se uma força multiétnica composta por comunidades árabes, curdas, sirías, assírias, armênias, yezedi e turcomanas, entre outras. Batalha após batalha, a força combinada dessas comunidades dentro das Forças Democráticas Sírias (SDF, na sigla em inglês) libertou uma grande faixa de terra do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS) e outras facções fundamentalistas, trazendo relativa segurança, estabilidade e autonomia sob os princípios do <a href=\"https://bibliotecaanarquista.org/library/abdullah-ocalan-confederalismo-democratico\">confederalismo democrático</a> proposto pelo movimento de liberdade curdo e seu líder preso Abdullah Öcalan.</p>\n\n<p>A administração autônoma de Rojava demonstrou que há uma alternativa ao domínio das dinastias autocráticas e das teocracias brutais no Oriente Médio. No entanto, a revolução tem muitos inimigos – mais proeminentemente, o <a href=\"https://crimethinc.com/2019/11/12/the-roots-of-turkish-fascism-and-the-threat-it-poses\">estado turco colonizador</a> sob a liderança do neo-otomanista Recep Tayyip Erdoğan. Para minar a autodeterminação curda, o Estado turco há muito tempo patrocina grupos fundamentalistas na Síria, abrigando a organização afiliada da Al-Qaeda conhecida como Hayat Tahrir al-Sham (HTS), cultivando uma força fantoche no Exército Nacional Sírio (SNA) e facilitando o fluxo de dinheiro, pessoal e armas para o Estado Islâmico (ISIS).</p>\n\n<p>No entanto, a Turquia não é a única força geopolítica que tem procurado estabelecer hegemonia no nordeste da Síria. A França colonizou a Síria no início do século XX; o Reino Unido desempenhou um papel fundamental na divisão do povo do Curdistão em quatro nações. Mais tarde, a partir da década de 1990, o governo dos Estados Unidos da América travou uma geração de guerras no vizinho Iraque, desestabilizando dramaticamente toda a região e contribuindo para a ascensão de grupos fundamentalistas sunitas como a Al-Qaeda. O Estado russo apoiou o regime de Assad militarmente, economicamente e politicamente; Vladimir Putin foi o principal garante de sua existência diante do levante popular que se tornou a revolução síria. Juntamente com seus colegas em Washington, DC, Putin está agora construindo laços militares e econômicos com o novo regime sírio, ajudando-o a solidificar sua compreensão sobre o poder. A família de Donald Trump tem amplos laços comerciais com o Qatar, e os interesses estratégicos de seu governo se sobrepõem amplamente aos do eixo geopolítico global Sunita envolvendo o governo turco e os Estados do Golfo, especialmente quando se trata do Irã.</p>\n\n<p>De muitas maneiras, movimentos fundamentalistas como a Al-Qaeda e o ISIS são uma consequência da instabilidade que várias potências estrangeiras infligiram a toda a região. Apesar de sua retórica sobre uma “guerra ao terror”, esses impérios introduziram guerra, terror e tremendo sofrimento a esta terra.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<a href=\"https://crimethinc.com/posters/rojava-is-a-grave-for-fascism-2026\"> <img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/posters/rojava-is-a-grave-for-fascism-2026/rojava-is-a-grave-for-fascism-front_color.jpg\" /> </a>   <figcaption>\n    <p>Clique na imagem para baixar uma versão em PDF do <a href=\"https://crimethinc.com/posters/rojava-is-a-grave-for-fascism-2026\">poster</a>.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Preso dentro da luta pelo domínio sobre a região por potências concorrentes americanas, russas, turcas, israelenses e iranianas, o projeto autônomo revolucionário de Rojava nunca teve um futuro nos planos de qualquer império ou Estado-nação.</p>\n\n<p>Em 2018 e 2019, o exército turco e os SNA, seus reprsentantes sírios, ocuparam os territórios de Afrin e Serekaniye, imediatamente expurgando a população indígena curda dessas áreas. Após o rápido colapso do regime de Assad em 2024, o Governo de Transição Sírio (STG) liderado pelo HTS agora busca impor a bandeira do nacionalismo sunita-árabe e do sectarismo em todos os territórios da Síria. O novo exército sírio avançou com a brutalidade, com o objetivo de destruir as conquistas mais importantes da revolução de Rojava – a libertação das mulheres e a coexistência e autogovernança comparativamente pacíficas de todos os grupos étnicos. Existem centenas de vídeos e fotos registrando os crimes cometidos por soldados do governo de transição à medida que avançavam em 2025 e 2026. Em janeiro de 2026, muitos <a href=\"https://www.memri.org/reports/place-every-braid-millions-will-grow-kurdish-womens-hair-braiding-protest-and-detentions\">se filmaram</a> mutilando os corpos de mulheres combatentes e cortando suas tranças como troféus.</p>\n\n<p>A maioria das terras que a revolução libertação do ISIS está agora de volta às mãos de fascistas teocráticos: Manbij, Tabqa, Raqqa, Deir ez-Zor, Shaddadi. Como internacionalistas, participamos da libertação de grande parte deste terreno, lutando ombro a ombro com nossos amigos árabes e curdos. Muitos de nossos <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2022/03/28/toda-tempestade-comeca-com-uma-gota-de-chuva-em-memoria-de-dois-camaradas-mortos-em-rojava\">camaradas</a> sacrificaram suas vidas pela revolução nesses lugares. É doloroso assistir a essas conquistas desfeitas.</p>\n\n<p>Os governos ocidentais deram a Damasco luz verde para submeter Rojava à ameaça de uma guerra de extermínio. Eles são tão responsáveis pela situação quanto a Turquia e o STG. Sim, a coalizão militar ocidental desempenhou um papel na luta contra o ISIS; seu apoio foi fundamental na defesa de Kobani em 2014 e na libertação de Raqqa em 2017. Isso só torna sua traição às SDF mais pedagógica: elas estão preparadas para usar o povo curdo como bucha de canhão, mas preferem ver a limpeza étnica em Rojava do que um experimento multiétnico e igualitário que excede o controle dos Estados-nação.</p>\n\n<p>As cabeças desses governos apressaram-se a apertar a mão de Abu Mohammad al-Julani depois que a chegada do HTS em Damasco o levou ao poder. Ao mesmo tempo em que esses governos declaram que estão ansiosos para trabalhar com o novo governo sírio para combater o ISIS, os leais e simpatizantes do ISIS estão nas fileiras do STG, <a href=\"https://t.me/KurdishFrontNews/23776\">exibindo </a> <a href=\"https://t.me/sdf_press/5293\">suas</a> <a href=\"https://t.me/KurdishFrontNews/21370\">bandeiras</a>.</p>\n\n<p>As promessas de Al-Julani para proteger grupos minoritários se mostraram revelados pura falsidade. Primeiro, as forças de al-Julani foram para o oeste para massacrar os alauitas. Em seguida, eles dirigiram para o sul para dizimar os drusos. Então, com a bênção dos governos da Turquia, Estados Unidos, França e Israel, eles empurraram para o leste para atacar os curdos e a diversidade de outras comunidades que se atrevem a defender o projeto compartilhado de uma sociedade multi-étnica e multi-religiosa.</p>\n\n<p>Para impedir que o governo sírio fabricasse a narrativa de que o povo curdo estava ocupando terras árabes e fazendo guerra ao povo árabe, os FDS se retiraram para áreas de maioria curda, onde conseguiram deter o avanço das forças do governo. Através de uma feroz resistência, eles conseguiram bloquear o plano original de aniquilar fisicamente Rojava, forçando Damasco de volta à mesa de negociações. Mas o atual cessar-fogo é frágil, os passos para integrar Rojava no Estado sírio são vagos e resta saber até que ponto o governo sírio honrará qualquer uma de suas promessas.</p>\n\n<p>Os militares sírios ainda não suspenderam o cerco de Kobane. Centenas de milhares de pessoas deslocadas ainda não podem voltar para suas casas.</p>\n\n<p>Como internacionalistas, condenamos os governos estadunidense, russo e europeus. Esta traição é apenas a mais recente de uma longa lista de seus crimes contra a humanidade. É claro para nós que todos os Estados-nação operam sem ética ou moralidade. A maquinaria do Estado não tem humanidade e as pessoas que dirigem este sistema também perderam a sua. A extração de petróleo e recursos, rotas comerciais, esferas de influência e hegemonia política e militar são a linguagem e os princípios do império. Segundo a lógica imperial, esta última traição do povo curdo pelo governo americano constitui uma mera mudança de política, independentemente de quanto derramamento de sangue ele traz.</p>\n\n<p>À medida que as forças inimigas sitiam Kobanê e colocam suas vistas em Heseke, Til Temir e Qamişlo mais uma vez, continuamos comprometidos em defender a revolução. Só o tempo dirá se o atual cessar-fogo se manterá. Toda vez que as SDF rejeitaram os termos inaceitáveis que Damasco procura impor, as forças do STG aproveitam a oportunidade para desencadear uma campanha terrorista contra a população enquanto culpam as SDF. Ainda mais representação simbólica para os curdos e outras comunidades no governo e na sociedade sírios não resolverá nada. Enquanto o Islã fundamentalista, a violência sectária e a política de centralização impulsionarem o regime de Al-Julani, não haverá paz duradoura na Síria.</p>\n\n<p>Esta crise colocou um foco nos principais objetivos do movimento em Rojava: defender as pessoas que vivem aqui, resolver conflitos através de meios políticos e não militares, permitir que as pessoas se organizem como bem entenderem. Todos esses valores permanecem intactos, embora as SDF e a administração autônoma de Rojava tenham sido obrigadas a concordar com um tratado de paz em termos desfavoráveis.</p>\n\n<p>Em resposta ao acordo, algumas pessoas fora de Rojava estão retratando a revolução como derrotada – enquanto, ao mesmo tempo, alguns de nós permanecem em posições defensivas em torno de Rojava com rifles em nossas mãos, ainda preparados para impedir que o inimigo avance. As revoluções não são derrotadas por decisões impostas de cima; elas são determinadas pelo que as pessoas comuns decidem fazer, mesmo nas condições mais adversas. Aconteça o que acontecer, continuaremos lutando, lado a lado com e de dentro desta revolução. Trata-se de um retrocesso, mas não é o fim da história.</p>\n\n<p>Enquanto formos capazes de organizar com as pessoas ao nosso redor, oferecer espaço para camaradas internacionalistas, buscar educação e treinamento coletivos, promover a causa de uma sociedade autônoma que coexista na diversidade e exercer a liberdade das mulheres, continuaremos a fazer todas essas coisas. O acordo com Damasco pode nos obrigar a nos engajar nessas atividades de forma diferente, mas não vai nos impedir. Não será fácil pôr fim ao que começou aqui.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/02/09/3.jpg\" />\n</figure>\n\n<p>Pedimos a todas as anarquistas, socialistas, antifascistas e internacionalistas que permaneçam comprometidos com a defesa da revolução de Rojava e das comunidades que fazem parte dela, o que quer que ocorra nas negociações entre funcionários das SDF e o governo sírio.</p>\n\n<p>A preservação do poder e da autonomia das pessoas em terras distantes começa em seu próprio front doméstico, especialmente em países que são atores poderosos na política internacional. Temos aprendido humildemente com a revolução em Rojava – de suas formas de organização, de seu espírito revolucionário, da prontidão dos participantes para o sacrifício e de sua coragem diante de inimigos poderosos. Entendemos que nossas armas e corpos sozinhos não são páreo para as máquinas de guerra do império e dos estados-nação modernos. Para combater tal inimigo, será necessária uma guerra popular revolucionária global.</p>\n\n<p>Sem mudanças fundamentais na ordem internacional, Rojava e todas as revoluções sociais e movimentos de libertação estarão sempre à mercê de grandes potências. Eles vão tirar proveito de nossos experimentos quando for conveniente, depois nos abandonar e esmagar quando não formos mais úteis para eles. A única maneira de neutralizar essa ameaça é se envolver em cooperação e organização internacionalista, unindo nossas lutas globalmente. Hoje, a defesa de Rojava é um ponto frontal e focal de tais esforços.</p>\n\n<p>Para oferecer suporte prático imediatamente, você pode doar para projetos como <a href=\"https://heyvasor.com/\">Heyva Sor</a>, <a href=\"https://riseup4rojava.org/en/\">Riseup4Rojava</a>, e <a href=\"https://tekosinaanarsist.noblogs.org/\">Tekoşîna Anarşîst</a> e aumentar a conscientização sobre a situação de Rojava através de mídias sociais, comunicados de imprensa, distribuição de zines e livros e exibição de filmes.</p>\n\n<p>Como uma estratégia de organização de longo prazo, podemos conectar a luta curda com outras frentes envolvidas em lutas paralelas. Nos Estados Unidos, a violência racista que o ICE está perpetrando para avançar na cleptocracia de Trump reflete a estratégia de al-Julani, que concedeu posições governamentais e militares aos jihadistas que estão cometendo massacres para integrar à força as comunidades minoritárias em uma “Síria unificada”. Além de espalhar informações e narrativas, também devemos conectar as necessidades concretas das pessoas com ideias políticas sobre como podemos encontrá-las, construindo redes e grupos de apoio mútuos que podem conectar pessoas de diversas origens. Finalmente, enquanto a política eleitoral nunca funcionará como um veículo para a mudança fundamental, em alguns lugares, pode ser possível pressionar os políticos a não serem cúmplices em permitir que a limpeza étnica ocorra em Rojava ou em outro lugar.</p>\n\n<p>Escrevemos como internacionalistas anarquistas vindos dos três impérios mais poderosos de nosso tempo: os Estados Unidos, a Rússia e a China. Em um planeta catapultando para uma catástrofe ecológica e uma terceira guerra mundial, procuramos transcender linhas de falha geopolíticas e dicotomias políticas repressivas, a fim de ficar lado a lado em luta contra nossos opressores. Se quisermos criar um novo sistema global baseado na autonomia, na justiça e na pluralidade social, o sistema atual de Estados-nação, exploração econômica e patriarcado deve ser desmantelado. Somos informados de guerras entre impérios, mas em todos os lugares que olhamos, só vemos guerras de todas as formas e formas contra o povo. A ruína dos impérios deve, portanto, vir de dentro, do povo, através de nossa própria iniciativa auto-organizada.</p>\n\n<p>Com saudações e respeito revolucionários.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/02/09/1.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>People in Rojava celebrated Newroz.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"para-ler-mais\"><a href=\"#para-ler-mais\"></a>Para ler mais:</h1>\n\n<ul>\n  <li><a href=\"https://blogdatsa.wordpress.com/2026/01/28/direto-do-front-entrevista-com-um-internacionalista-brasileiro-em-rojava/\">Direto do front: entrevista com um internacionalista brasileiro em Rojava</a></li>\n  <li><a href=\"https://crimethinc.com/2020/10/11/one-year-since-the-turkish-invasion-of-rojava-an-interview-with-tekosina-anarsist-on-anarchist-participation-in-the-revolutionary-experiment-in-northeast-syria\">Entrevista com Tekoşîna Anarşîst</a> on Anarchist Participation in the Revolutionary Experiment in Northeast Syria</li>\n  <li><a href=\"https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2020/09/23/entrevista-exclusiva-tekosina-anarsist-anarquismo-e-a-luta-pela-vida-no-norte-da-siria/\">Tekoşîna Anarşîst – Anarquismo e a Luta pela Vida no Norte da Síria</a>, entrevista por Facção Fictícia em 2020.</li>\n  <li><a href=\"https://pt.crimethinc.com/2018/12/28/a-ameaca-a-rojava-anarquista-na-siria-fala-sobre-o-real-significado-da-retirada-das-tropas-estadunidenses-da-siria-por-donald-trump\"> A ameaça a Rojava </a></li>\n  <li><a href=\"https://crimethinc.com/2019/11/12/the-roots-of-turkish-fascism-and-the-threat-it-poses\">The Roots of Turkish Fascism</a></li>\n  <li>\n    <p><a href=\"https://pt.crimethinc.com/2019/10/12/a-relevancia-da-invasao-turca-abordando-as-duras-questoes-sobre-imperialismo-e-solidariedade\"> A relevância da invasão turca </a></p>\n  </li>\n  <li>\n    <p><a href=\"https://tekosinaanarsist.noblogs.org/\">Têkoşîna Anarşîst</a>—The website of a revolutionary anarchist organization working in northeastern Syria</p>\n\n    <figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/02/09/2.jpg\" />\n    </figure>\n  </li>\n</ul>\n\n"
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      "content_html": "<p>Como o punk emergiu das contraculturas dos anos 1960 que dizia rejeitar? Por que o movimento desempenhou um papel tão central no ressurgimento do anarquismo em todo o mundo no final do século XX? Como ele prefigurou a mídia participativa da era digital? E o que seu legado pode nos ensinar hoje?</p>\n\n<p>O texto a seguir é o prefácio de “<em><a href=\"https://anarchismandpunk.noblogs.org/\">Smash The System! Punk Anarchism as a Culture of Resistance</a>,</em> um novo livro publicado pela Active Distribution. Você pode pré-encomendá-lo <a href=\"https://www.ebay.co.uk/itm/204180761323\">aqui</a>. Você também pode baixar gratuitamente quase todos os discos de punk e hardcore que a CrimethInc. lançou ao longo dos anos <a href=\"https://crimethinc.bandcamp.com/\">aqui</a>.</p>\n\n<hr />\n\n<blockquote class=\"darkred\">\n  <p><strong>“PUNK ROCK É IGUAL A ANARQUIA MAIS GUITARRAS E BATERIA. QUALQUER COISA MENOS QUE ISSO É MERA SUBMISSÃO.”</strong></p>\n\n  <p>-Italian Punk</p>\n</blockquote>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"punk-uma-utopia-perigosa\"><a href=\"#punk-uma-utopia-perigosa\"></a>Punk: Uma Utopia Perigosa</h1>\n\n<p>Vamos imaginar o meio cultural ideal para o anarquismo.</p>\n\n<p>Ele teria que ser desafiador, obviamente. Deve acomodar tanto uma alegre ironia quanto uma coragem escandalosa. Mas vamos fazer dele algo afirmativo também, mesmo que tenhamos que percorrer um longo caminho através do sofrimento e de uma catarse para chegar lá. Não queremos um niilismo que torna difícil sair da cama de manhã — queremos o tipo de niilismo que mantém as pessoas fora a noite toda causando problemas.</p>\n\n<p>Para começar, então, vamos definir o nosso ponto de partida nas artes criativas: música, moda, design, grafite, escrita, fotografia e pequenos crimes. Estas são práticas fundamentalmente afirmativas, mesmo quando expressam raiva e desespero — e os custos iniciais são bastante baixos. Coloque a música à frente e no centro de tudo isso, então a alfabetização não é uma barreira para alguém acessar a informação que circula nesse meio.</p>\n\n<p>Esteticamente, vamos querer que ela seja crua e disruptiva. Jogue fora todas a necessidade de especialistas; deixe de lado os clássicos. No máximo, podemos manter algumas das inovações que a indústria da música roubou de pessoas da classe trabalhadora. Afligir os confortáveis, confortar os aflitos.</p>\n\n<p>Economicamente, se não podemos romper unilateralmente com o modo de produção capitalista, vamos construir algumas normas para neutralizar seus efeitos: controles de preços (“não pagar mais do que cinco reais”), uma aversão ao lucro e todas as coisas corporativas, uma ética de fazer você mesmo. Coloque toda a ênfase em coisas que não podem ser compradas. Se isso significa um discurso sobre “autenticidade”, que assim seja.</p>\n\n<p>Essa subcultura teria que ser inclusiva – e não apenas no sentido superficial associado à política liberal de representação. Em vez de apenas pregar para os convertidos, ela deve atrair pessoas de uma ampla gama de origens e política. Queremos alcançar os mesmos jovens que serão alvo de recrutadores militares, por isso queremos alcançá-los primeiro. Claro, isso significará disputar ombro a ombro com muitas pessoas que não são anarquistas – isso significará um grande caldeirão confuso de diferentes políticas e conflitos e contradições – mas o objetivo é espalhar o anarquismo, não se esconder nele. Reúna todos em um espaço baseado na horizontalidade, descentralização, autodeterminação, modelos reprodutíveis, sendo ingovernáveis e assim por diante, e deixe-os descobrir as vantagens por si mesmos.</p>\n\n<p>O mais importante é a participação das pessoas que são pobres, instáveis e com raiva. Não por uma noção bizarra de caridade, mas sim porque as chamadas classes perigosas são geralmente a força motora da mudança de baixo. Gente confortável e bem-comportada não têm a tolerância ao risco essencial para fazer história e reinventar a cultura.</p>\n\n<p>Imagine uma sociedade de auto-educação sem mentores, classificações ou planos de aula. Adolescentes vão aprender a tocar bateria assistindo outras adolescentes tocar bateria. Elas não aprenderão sobre política em tomos empoeirados nas bibliotecas, mas publicando zines sobre suas próprias experiências e correspondendo com pessoas do outro lado do planeta. Toda vez que artistas conhecidas se apresentam, bandas que estão apenas começando também se apresentam. A aprendizagem não será uma esfera distinta de atividade, mas um componente orgânico de todos os aspectos da comunidade.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2022/12/13/10.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Bad Brains se apresentando no Valley Green Housing Complex em Washington, DC, em 9 de setembro de 1979. Fotografia de Lucian Perkins.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>O dadaísmo e o surrealismo eram OK, mas “a poesia deve ser escrita por todos, não por um”, como disse o <a href=\"https://ia902209.us.archive.org/0/items/les-chants-de-maldoror-de-lautreamont-conte-maldoror-2015-new-directions-libgen.li/%5BLes%20Chants%20de%20Maldoror%20%5D%20de%20Lautreamont%2C%20Conte%20-%20Maldoror%20%282015%2C%20New%20Directions%29%20-%20libgen.li.pdf\">Conde de Lautréamont</a>. Nossa subcultura ideal não é uma série de artistas – é mais como uma rede de gangues das classes baixas em que <em>todo mundo</em> tem uma banda, um zine ou pelo menos uma ficha criminal. A arte não é apenas o que está acontecendo no palco – são os desenhos que as pessoas inscrevem em suas jaquetas e camisas e corpos, a dança e beijos e brigas e vandalismo, a atmosfera que elas criam juntos. O mito coletivo de um movimento mundial de base. Que esse mito seja território contestado – o conflito manterá as pessoas investidas.</p>\n\n<p>Nossa subcultura será dionisíaca – sensual, espontânea, selvagem – um gêiser incontrolável de sentimento cru. O apolínio (o racional, o intencional, o ordenado) seguirá a energia caótica que impulsiona esse movimento, não o precede. Propostas intelectuais podem se basear em adrenalina, luxúria, violência e prazer, mas não podem substituir experimentar tudo isso na prática.</p>\n\n<p>Portanto, nada santificador, nada triunfalista ou moralista. Melhor um romantismo corajoso que vê dignidade na derrota, bem como na vitória, uma atitude despretensiosa que diz que “nada humano é estranho para mim”.</p>\n\n<p>Esta subcultura deve ser um espaço onde as pessoas possam aprender sobre política de consentimento e afirmar seus limites contra figuras de autoridade invasivas, homens autocentrados e outras pragas. Ao mesmo tempo, deve espalhar uma socialidade rebelde que corrói os confins físicos e emocionais que individualizam o sujeito capitalista. “Nossa utopia não é um mundo em que ninguém esbarra em você – é um mundo em que todos se chocam e isso é alegre e bom, no qual <em>significa</em> algo diferente quando as pessoas se chocam contra você.”</p>\n\n<p>Saindo deste ponto de partida, podemos voltar a uma maneira alternativa de viver: espaços e infoshops auto-organizados, casas coletivas, ocupações, distribuição de comida grátis, grupos de estudo, grupos de afinidade, feminismo, veganismo, não-monogamia, eco-defesa, desemprego militante – o céu é o limite. Uma rede mundial de espaços e movimentos e estilos de vida contraculturais. Uma reação em cadeia de rebeliões disparando como uma série de fogos de artifício que circundam o globo.</p>\n\n<p>Só agora, com o benefício de poder olhar tudo em retrospectiva, podemos compreender quanta sorte temos por participar de um dos maiores movimentos de arte popular contracultural dos últimos centenas de anos.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2022/12/13/8.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Uma banda que se apresenta no <em>Espaço Cultural Semente Negra</em>, o Centro Cultural Black Seed, no Peruíbe, Brasil.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"sindicatos-hippies-punks-millennials\"><a href=\"#sindicatos-hippies-punks-millennials\"></a>Sindicatos, Hippies, Punks, Millennials</h1>\n\n<blockquote>\n  <p>“Se há alguma esperança para a América, ela está em uma revolução, e se há alguma esperança para uma revolução na América, está em fazer com que Elvis Presley se torne Che Guevara.”</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=an_1tpcnfgw\">Phil Ochs</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>“Punks são hippies.”</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=fOj6s2MciMw\">GISM</a></p>\n</blockquote>\n\n<p>Agora vamos situar o surgimento dessa contracultura historicamente, na segunda metade do século XX.</p>\n\n<p>Os poderosos e rebeldes movimentos trabalhistas do início do século XX foram comprados, abandonando as demandas por autodeterminação em troca de salários mais altos, bens de consumo mais baratos e mais segurança no trabalho — o chamado “Compromisso Fordista”, embora a mesma coisa tenha sido chamada “socialismo” no Bloco Oriental. Assim, integrada na autorregulação do mercado, a burocracia sindical estava lentamente sendo superada pela terceirização corporativa à medida que o Capitalismo transformou toda a terra em uma única cadeia de suprimentos integrada.</p>\n\n<p>O stalinismo, o fascismo, a Segunda Guerra Mundial, dois Red Scares (ameaça comunista criada pela mídia) e a Guerra Fria esmagaram os movimentos anarquistas do início do século XX, polarizando a maior parte da humanidade em uma dicotomia entre falsa liberdade e falsa igualdade, que se resumia a uma escolha entre a CIA e a KGB. Aqueles que nasceram após a Segunda Guerra Mundial cresceram sem horizonte para mudanças sociais além de tentar reformar um lado ou outro dessa dicotomia.</p>\n\n<p>Ao mesmo tempo, graças ao fordismo, os baby boomers (nascidos no pós Segunda Guerra) tiveram acesso a uma gama mais ampla de produtos do que qualquer geração anterior. O marketing corporativo incentivou os jovens a se entenderem como um grupo distinto, com seus próprios interesses e aspirações. A cultura jovem produzida em massa gerou inadvertidamente a possibilidade de uma rejeição em massa da cultura dominante, criando novos pontos de referência compartilhados que ultrapassavam as antigas divisões nacionais, culturais e sociais.</p>\n\n<p>Originalmente sendo uma forma de arte da classe trabalhadora emergente das comunidades negras nos Estados Unidos, o Rock foi uma das mercadorias que os capitalistas começaram a cultivar como uma cultura comercial para esse mercado de massa. Nesse contexto, o sucesso dos Beatles representava o sonho de mobilidade econômica de que qualquer um pode ter sucesso — mas também foi uma tentativa incompleta de se apropriar e domesticar a rebelião da juventude da classe trabalhadora. O fato de quatro proletários comuns de Liverpool, valendo-se de toda a tecnologia de gravação e atenção popular de toda uma civilização, terem passado de cantar “<a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=KPon7i1-T1U\">Love Me Do</a>” em 1962 a gravar o LP “<a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=VtXl8xAPAtA\">Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band</a>” em 1967 implicava uma possibilidade utópica que excedia tudo o que o mercado poderia oferecer: se todos tivéssemos essas oportunidades, não poderíamos todos ser artistas? Os rapazes de Liverpool, assim como a geração que cresceu ouvindo suas músicas, descobriram que não estavam satisfeitos com as opções à sua disposição, mesmo no topo da pirâmide — e os grupos sociais que se uniram por meio de atividades de consumo compartilhadas se rebelaram contra o conformismo e a alienação da sociedade de massa.</p>\n\n<p>Em seu livro, <em><a href=\"https://sabrinasoyer.files.wordpress.com/2016/05/jerry-rubin-do-it-scenarios-of-revolution.pdf\">Do It</a>!,</em> o líder yippie Jerry Rubin atribuiu a agitação dos anos 1960 a essa progressão: “A Nova Esquerda surgiu, uma criança predestinada e revoltada, do movimento pélvico de Elvis”. A geração que começou se rebelando contra a repressão sexual dos pais ouvindo rock and roll acabou ocupando universidades e protestando nas ruas. Na época do festival de Woodstock, em agosto de 1969, essa contracultura contava com milhões de adeptos.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2022/12/13/4.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Um panfleto proto-punk do coletivo <a href=\"https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2021/10/19/grupos-afinidade-gangues-de-rua/\">Up Against the Wall Motherfucker</a>.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Apesar do espírito antiautoritário dessas culturas juvenis, o ressurgimento do anarquismo propriamente dito foi limitado. Anarquistas estabeleceram presença na campanha pelo desarmamento nuclear na Grã-Bretanha e representavam uma minoria influente dentro do Students for a Democratic Society (Estudantes por uma Sociedade Democrática) nos Estados Unidos. <a href=\"https://ia800505.us.archive.org/6/items/UpAgainstTheWallMotherfuckerPostersRantsManifestosAndBlasts/UpAgainst.pdf\">Up Against the Wall Motherfucker</a>, a “gangue de rua com uma análise”, traduziu o conceito anarquista espanhol de <em>grupos de afinidad</em> para o modelo anglófono de <a href=\"https://theanarchistlibrary.org/library/up-against-the-wall-motherfuckers-the-brown-paper-bag-theory-of-affinity-groups\">grupos de afinidade</a>; assim equipados, eles invadiram o Pentágono, cortaram as cercas em Woodstock e levaram um mimeógrafo quando ocuparam a casa de shows de rock de Bill Graham para exigir uma noite de shows gratuita para o povo. No entanto, com o passar da década, os marxistas autoritários venceram as <a href=\"https://theanarchistlibrary.org/library/james-w-cain-students-for-a-stalinist-society\">lutas pelo poder</a> dentro da liderança de muitos dos movimentos da época. Assim como o golpe de Marx dentro da Associação Internacional dos Trabalhadores um século antes, essas vitórias pírricas contribuíram para o colapso dos próprios movimentos.</p>\n\n<p>Dentro da contracultura, o sistema de estrelas do rock introduziu suas próprias hierarquias. Em Woodstock, meio milhão de pessoas assistiram da lama enquanto uma série de celebridades subia ao palco.</p>\n\n<p>Enquanto isso, capitalistas começaram a incorporar as demandas hippies por individualidade e diversidade ao mercado. Isso coincidiu com a transição da produção em massa fordista para bens de consumo e identidades cada vez mais diversificados — a mudança das economias de escala para as economias de escopo. Se a Beatlemania exemplificou a cultura de massa, o surgimento do metal, do punk e do hip hop na década de 1970 exemplificou a proliferação “pós-fordista” das subculturas.</p>\n\n<p>No verão de 1976 — cem anos após a morte de Mikhail Bakunin, quatorze anos após a gravação de “Love Me Do” e sete anos após o festival de Woodstock — os Sex Pistols fizeram sua primeira aparição na televisão, tocando “Anarchy in the UK”, a música que se tornou seu single de estreia. “Bakunin teria amado isso”, brincou o apresentador de televisão quando eles terminaram.</p>\n\n<figure class=\"video-container \">\n  <iframe credentialless=\"\" allowfullscreen=\"\" referrerpolicy=\"no-referrer-when-downgrade\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin\" allow=\"accelerometer 'none'; ambient-light-sensor 'none'; autoplay 'none'; battery 'none'; bluetooth 'none'; browsing-topics 'none'; camera 'none'; ch-ua 'none'; display-capture 'none'; domain-agent 'none'; document-domain 'none'; encrypted-media 'none'; execution-while-not-rendered 'none'; execution-while-out-of-viewport 'none'; gamepad 'none'; geolocation 'none'; gyroscope 'none'; hid 'none'; identity-credentials-get 'none'; idle-detection 'none'; keyboard-map 'none'; local-fonts 'none'; magnetometer 'none'; microphone 'none'; midi 'none'; navigation-override 'none'; otp-credentials 'none'; payment 'none'; picture-in-picture 'none'; publickey-credentials-create 'none'; publickey-credentials-get 'none'; screen-wake-lock 'none'; serial 'none'; speaker-selection 'none'; sync-xhr 'none'; usb 'none'; web-share 'none'; window-management 'none'; xr-spatial-tracking 'none'\" csp=\"sandbox allow-scripts allow-same-origin;\" src=\"https://www.youtube-nocookie.com/embed/L5LpG12G_Hs\" frameborder=\"0\" loading=\"lazy\"></iframe>\n  <figcaption class=\"caption video-caption video-caption-youtube\">\n    <p>A primeira aparição dos Sex Pistols na televisão, interpretando “Anarchy in the UK”, no programa So It Goes, em 28 de agosto de 1976. “Bakunin teria amado isso”, brincou o apresentador Tony Wilson.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Aqui está, na estreia pública do punk propriamente dito: a prova das credenciais anarquistas do punk. Todas as tentativas de amenizá-lo vieram só depois.</p>\n\n<p>Então, sim, o punk foi uma reação às contraculturas da década de 1960. O vocalista dos Pistols, Johnny Rotten, abriu aquela apresentação na televisão com uma frase sarcástica sobre Woodstock, rejeitando tudo o que havia de presunçoso e ingênuo na era hippie — todas as maneiras pelas quais, ao parecerem ter sucesso, os hippies foram neutralizados e assimilados.</p>\n\n<p>Mas o punk também foi uma continuação dessas contraculturas. Ele recapitulou o mesmo processo de radicalização que a geração de Jerry Rubin havia experimentado — só que intensificado, como uma bactéria que se tornou imune aos antibióticos. Desde o início, os punks se esforçaram muito para se diferenciar dos hippies; em retrospecto, o punk era tudo o que os hippies não conseguiam domesticar e mercantilizar. Sem palcos de festivais, mas shows em porões; não tinham tie-dyes e símbolos da paz, mas jaquetas de couro e brigas de rua ao estilo Up Against the Wall Motherfucker. Afinal, o que é uma banda punk senão um grupo de afinidade com guitarras? Ao discutir os Sex Pistols, John Lennon <a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=WhM_ZGlTZRc\">observou</a> que os Pistols estavam fazendo intencionalmente todas as coisas que o empresário dos Beatles os proibiu de fazer no início de sua carreira comercial.</p>\n\n<p>Um ano após os Pistols lançarem “Anarchy in the UK”, a banda <a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=h5nFL76Qxws\">Crass</a> (uma das primeiras bandas punk identificadas com o termo redundante “anarcho-punk”) começou em um projeto de vida coletiva que os membros Penny Rimbaud e Gee Vaucher fundaram em 1967. Podemos traçar a origem do punk através da banda Crass diretamente até os hippies, incluindo o pacifismo que a próxima geração de punks rejeitou.</p>\n\n<p>Como parte da mudança pós-fordista, a tecnologia de publicação e a produção musical estavam finalmente se tornando amplamente acessíveis ao público em geral. Crass foi uma das novas bandas punk do tipo “faça você mesmo” que lançaram seus próprios discos. (Conta-se que eles tiveram que prensar 5.000 cópias de seu <a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=cuwT000iMWo\">LP de estreia</a> porque essa era a tiragem mínima que uma fábrica de prensagem produzia na época). Ao autogerirem o processo de produção, em vez de se venderem a uma gravadora, eles conseguiram sequestrar a mística que décadas de investimento e promoção capitalistas haviam conferido à indústria do rock, recuperando-a para o tipo de subculturas juvenis autônomas que haviam produzido o rock’n’roll em primeiro lugar.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2022/12/13/5.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Crass.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Ao mesmo tempo, os mercados globalizados e voláteis estavam minando a estabilidade dos empregos da metade do século XX. Em 1977, os filhos dos trabalhadores demitidos podiam ler os sinais, ecoados na letra do próximo <a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=02D2T3wGCYg\">hit de sucesso</a> dos Sex Pistols: “No future” (Sem futuro). O punk ganhou popularidade entre os pioneiros da força de trabalho descartável de hoje, numa época em que os sem futuro ainda eram uma minoria amarga e isolada. Era o canto do canário na mina de carvão.</p>\n\n<p>Mas levou décadas para que o fordismo entrasse em colapso total, desaparecendo junto com as massas complacentes que havia produzido. Foi somente em 2007 que o Comitê Invisível, em <em><a href=\"https://dazibao.cc/wp-content/uploads/2015/11/A-insurreic%CC%A7a%CC%83o-que-vem-CI.pdf\">A Insurreição que Vem</a></em>, pôde escrever:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>“O futuro já não tem futuro” constitui a sabedoria de uma época que atingiu, sob a sua aparência de extrema normalidade, o nível de consciência dos primeiros punks.</p>\n</blockquote>\n\n<p>Hoje, em uma época de crises econômicas e ambientais generalizadas, pandemias e guerras, quando praticamente ninguém mais antecipa um futuro brilhante, o punk tornou-se redundante, pelo menos como uma rejeição minoritária do otimismo e da estética capitalista. Se não colocarmos o punk em seu contexto histórico — como uma reinvenção de formas preexistentes de resistência em resposta a condições específicas —, não compreenderemos seus pontos fortes nem os limites que alcançou. Considerando as mudanças que estavam ocorrendo no mercado de trabalho e na identidade do consumidor, não é surpreendente que, a partir da década de 1980, mesmo os anarcossindicalistas mais doutrinários tenham sido inicialmente politizados pela música punk, e não pela organização no local de trabalho. Da mesma forma, para entender por que o punk estagnou no início do século XXI, temos que reconhecer as maneiras como ele antecipou e depois foi absorvido pelas redes online, modelos participativos e identidades voláteis da Era Digital.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2022/12/13/3.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Nausea se apresentando na Tompkins Square. Fotografia de Chris Boarts, da <em><a href=\"https://archive.org/details/slug_and_lettuce\">Slug &amp; Lettuce</a>.</em></p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Da década de 1970 até a virada do milênio, quase todas as pessoas com tendências ao confronto foram efetivamente isoladas em uma subcultura distinta. Mas, à medida que a mudança das <em>economias de escala</em> para as <em>economias de escopo</em> se acelerou, essas subculturas deixaram de ser afiliações discretas e de longo prazo. Hoje, as pessoas acumulam identidades de consumo como se fossem figurinhas colecionáveis, enquanto muitos identificadores subculturais não duram mais do que o tempo necessário para circular um meme. Dessa ambiente movediço, tornou-se tão difícil isolar a rebelião em grupos sociais específicos quanto constituir um sujeito revolucionário coerente.</p>\n\n<p>Da mesma forma, a economia subterrânea baseada em redes do tipo “faça você mesmo” prefiguram o hipercapitalismo contemporâneo, no qual a autogestão de nossa comercialização se estende a todos os aspectos de nossas vidas sociais e tempo de lazer. Crass e seus contemporâneos alcançaram inovaram ao usar formatos que antes eram inacessíveis à classe trabalhadora para espalhar mensagens subversivas, mas, nesse processo, eles inadvertidamente foram pioneiros e validaram uma nova forma de empreendedorismo, abrindo caminho para empreendedores menos politizados. Todas as deficiências identificadas pelos punks na mídia capitalista unidirecional do final do século XX (“Kill your television!”) informam a mídia capitalista participativa de nossos dias. Quem precisa ter uma banda e ir ensaiar quando você pode fazer um vídeo em seu smartphone e postá-lo no Tik Tok imediatamente? <em>Faça você mesmo!</em></p>\n\n<p>É claro que as plataformas de mídia social dificilmente domaram as novas gerações. Dando continuidade ao processo de assimilação e reinvenção, as revoltas atuais se inspiram em todos os aspectos do punk que não puderam ser domesticados, mercantilizados ou superados. Levantes sem shows punk; moletons pretos sem patches, para que a polícia não possa identificar você; desafio e rebelião sem hinos, sem estética, sem esperança.</p>\n\n<p>Em todo caso, corrigimos os vestígios da era hippie que perduraram durante a primeira fase do punk. Quando os Pistols surgiram, eles estavam reagindo contra uma subcultura que envolvia muita arte e pouca rebelião; muito entretenimento e pouca ruptura; muito otimismo e pouca realidade. À medida que avançamos neste século que já é caracterizado pela destruição e pelo desespero, precisamos de um pouco mais de arte, criatividade e otimismo.</p>\n\n<p>Essa é uma das muitas razões pelas quais o punk continua relevante no século 21.</p>\n\n<blockquote>\n  <p>“Hoje, no movimento anarquista, às vezes sentimos falta do espírito dionisíaco que caracterizou a cena hardcore punk underground no seu auge: o coletivo, experiência encarnada em uma liberdade perigosa. Isso é como o punk pode nos inspirar em nossos experimentos anarquistas do hoje e do amanhã: como uma saída transformadora para a raiva, a dor e a alegria, um modelo positivo de união e autodeterminação em nossas relações sociais, um exemplo de como o impulso destrutivo pode também ser criativo – e vice versa.”</p>\n\n  <p>-“<a href=\"https://pt.crimethinc.com/2021/01/09/musica-como-uma-arma-a-conflitante-simbiose-do-punk-rock-e-o-anarquismo\">Música Como Uma Arma: A Conflitante Simbiose do Punk Rock e o Anarquismo</a>”</p>\n</blockquote>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2022/12/13/2.jpg\" />\n</figure>\n\n<hr />\n\n<p>A história não está dividida em períodos bem definidos; é mais como uma série de camadas sedimentares que compõem o presente. Esta noite, enquanto você lê isto, uma orquestra sinfônica está se apresentando num bairro rico da cidade, uma banda de jazz está tocando no centro e uma banda punk está tocando na periferia.</p>\n\n<p class=\"darkred\"><em><a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=lUU5B1uE1Ps\">Punk’s not dead, I know—Punk’s not dead, I know it’s not</a> (O punk não morreu, eu sei — o punk não morreu, eu sei que não).</em></p>\n\n<p>Se entendermos o punk como herdeiro de tradições de resistência de longa data, isso explicará sua importância persistente para o anarquismo.  Enquanto uma geração mais velha de radicais orientados para o trabalho costumava ridicularizar os compromissos políticos dos punks como efêmeros, o punk é muito mais antigo — e estável — do que os modelos contemporâneos de organização política; ele remonta a uma época em que as subculturas ainda produziam identificações e compromissos duradouros. Não é de se admirar que muitos dos que ainda mantêm a infraestrutura da organização anarquista ano após ano sejam punks de longa data. O punk combina a <em>agitprop</em> (agitação e propaganda) envolvente e as redes globais dos movimentos culturais do século XXI com a longevidade das formações políticas pré-internet.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2022/12/13/9.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Anarquistas inspirados no punk na manifestação do Dia dos Trabalhadorys em Bandung, 2019. Fotografia deFrans Ari Prasetyo.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"coda-testemunho\"><a href=\"#coda-testemunho\"></a>Coda: Testemunho</h1>\n\n<p>A banda punk do meu amigo está tocando na pequena cidade do sul ao lado da minha. O local é um abrigo antiaéreo da Guerra Fria. Chama-se The Fallout Shelter.</p>\n\n<p>Um carro da polícia para em frente ao local e um policial sai. Enquanto o policial está incomodando os punks na calçada, meu amigo atravessa a rua. Ele se ajoelha, rasteja para trás do carro da polícia e fura o pneu com seu canivete.</p>\n\n<p>O policial precisa pedir reforços pelo rádio. Durante toda a noite, entre uma banda e outra, os punks bebem na calçada e aplaudem ironicamente enquanto a polícia se esforça para trocar o pneu.</p>\n\n<hr />\n\n<p>Na primeira semana do ensino médio, a banda Seven Seconds toca no único casa noturna da minha pequena cidade. O show termina como todos os grandes shows de hardcore terminam por lá: em uma enorme briga com skinheads que se espalha pela rua principal.</p>\n\n<p>Na manhã seguinte, vou para a aula com um hematoma no braço com o formato exato da marca de uma bota Doc Martens. Isso me marca: <em>eu não faço parte do seu mundo.</em></p>\n\n<hr />\n<p>Na década seguinte, entro para uma banda, começo a publicar uma revista independente, envolvo-me em debates intermináveis sobre dança, moda, comida e lutas. Faço amizade com as pessoas que trabalham no turno da noite na copiadora ao fundo da rua. Fico acordado a noite toda a fotocopiar revistas independentes, estritamente fora dos livros. Alguém na República Checa envia-me uma cópia do LP <a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=GCuKgbm1mhU\">Kritická Situace</a> em troca da minha revista independente. Levo o LP para a estação de audição da biblioteca pública porque não tenho um toca-discos. Dirijo doze horas para tocar em um show com a presença de valentões que prometeram me atacar assim que me vissem. Organizo shows para bandas. Lanço discos.</p>\n\n<p>Nossa banda sai em turnê. Noite após noite, as pessoas nos hospedam e, às vezes, até nos alimentam. Compramos uma van juntos. Viajamos pelo país, tocando em locais auto-organizados e ficando em casas coletivas. No exterior, vemos pela primeira vez prédios gigantes ocupados, com faixas penduradas nas paredes, arquivos do movimento e oficinas de conserto de bicicletas que atendem a vizinhança. Começamos a perceber que fazemos parte de algo muito maior do que imaginávamos.</p>\n\n<p>Só depois de três meses em turnê é que percebo que passei de pensar na primeira pessoa do singular para a primeira pessoa do plural. <em>Nós.</em></p>\n\n<hr />\n\n<p>Conhecemos os veteranos da geração Crass. Todos eles têm algumas décadas a mais do que nós; somos os mais jovens em todos os shows no Reino Unido. Um membro do <a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=Uhnv5fDMopc\">Doom</a> nos leva pelas Ilhas Britânicas em sua van, já que não estamos acostumados a dirigir do lado esquerdo da estrada.</p>\n\n<p>Uma noite, o cara do Doom fica acordado até tarde conversando com um membro do <a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=rCJuKbVA-sw\">Subhumans</a>. Eles acabam discutindo se o Clash arruinou o punk ao se vender para uma gravadora corporativa. Tenho a impressão de que eles vêm tendo a mesma discussão há vinte anos. Ainda assim, isso me ajuda a pensar nos meus próprios compromissos em um prazo mais longo.</p>\n\n<hr />\n\n<p>Reclaim the Streets — Millions for Mumia — a Conferência Nacional sobre Resistência Organizada — a cerimônia de <a href=\"https://crimethinc.com/2017/01/17/five-principles-of-direct-action-what-we-can-learn-from-the-2001-inauguration-protests\">Posse Presidencial</a>. Durante cada conferência, antes ou depois de cada protesto, há um show punk. Não apenas bandas, mas também espetáculos de marionetes, performances artísticas, equipes de torcidas radicais. Punks itinerantes montam mesas com livros, todas elas compostas exclusivamente por livros de Noam Chomsky roubados das livrarias Barnes &amp; Noble. Às vezes, o black bloc parte diretamente do mosh pit.</p>\n\n<hr />\n\n<p>Em São Paulo, participo de uma manifestação contra um monumento que celebra 500 anos de colonialismo. Todos estão mascarados. Os punks atrás de nós jogam bombas de tinta no monumento e pedras na polícia de choque à nossa frente. A polícia dispara tiros de balas letais sobre nossas cabeças. Depois, nos escondemos dentro de uma barraca de açaí para que os policiais não nos identifiquem pela tinta em nossas roupas.</p>\n\n<p>Dias antes, <a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=HRgxMsKPHuc\">Abuso Sonoro</a> tocou no Guarujá. O guitarrista se apresenta usando a mesma máscara que usou na manifestação. <em>Uma cultura mundial de resistência.</em></p>\n\n<hr />\n<p>A primeira vez que chegamos ao  <a href=\"https://crimethinc.com/2019/03/01/the-battle-for-ungdomshuset-the-defense-of-a-squatted-social-center-and-the-strategy-of-autonomy\">Ungdomshuset</a>, o espaço punk ocupado em Copenhague, todas as janelas da vizinhança estavam fechadas com tábuas. Houve alguns distúrbios aqui na noite anterior, explicam nossos anfitriões, porque a polícia quer deportar um homem para a Turquia. Após o show, enquanto dormimos no quarto de hóspedes, a polícia fica do lado de fora do prédio em um carro blindado, gritando ameaças por um alto-falante aos punks que montam guarda no telhado.</p>\n\n<p>Na quarta vez que visitamos o Ungdomshuset, somos muitos para dormir no quarto de hóspedes. Em vez disso, nossos anfitriões estendem tatames por todo o comprimento do grande salão. Desenrolamos nossos sacos de dormir e nos deitamos em fila, trinta ou mais de nós — as bandas, os organizadores e todos os viajantes aleatórios que não têm outro lugar para ficar, juntos sob o teto abobadado do prédio onde o Dia Internacional das Mulheres foi anunciado em 1910. Que a Terra seja um tesouro comum para todos. Antes de dormir, viro-me para a pessoa que está deitada à minha esquerda. “De onde você é?”</p>\n\n<p>“Eu? Sou da Austrália”, ela responde. “E você, de onde é?”</p>\n\n<p>Um ano depois, a polícia invade e demole o prédio na maior operação na Dinamarca desde a Segunda Guerra Mundial. A cidade entra em tumulto por uma semana; as manifestações continuam semanalmente por um ano. Planos estão em andamento para que milhares de pessoas ocupem à força a prefeitura quando o governo ceder e conceder aos invasores um novo prédio. Da próxima vez que eu for à Dinamarca com uma banda, tocaremos lá, no novo Ungdomshuset.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2022/12/13/1.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Ungdomshuset.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<p>Anos mais tarde, durante o movimento Occupy, uma nova geração entrou na comunidade anarquista da nossa pequena cidade do sul. São os primeiros a chegar sem ter o punk como referência.</p>\n\n<p>“Mas você tem que fazer um workshop sobre punk também”, diz-me Liz, após um treinamento de ação direta.</p>\n\n<p>“Um workshop? Por quê? O punk é apenas um estilo musical, não é essencial para essas coisas”, respondo. Décadas de discussões sobre a insularidade subcultural me tornaram um pouco sensível a esse assunto.</p>\n\n<p>“A workshop? Why? Punk is just a style of music, it’s not essential to this stuff,” I answer. Decades of arguments about subcultural insularity have made me a little touchy on this subject.</p>\n\n<p>“Talvez, mas para todos vocês que se conheciam antes disso, o punk é como uma irmandade da qual vocês faziam parte, ou uma sociedade secreta. Um monte de referências a bandas das quais nunca ouvimos falar, como um código secreto. Isso só surge quando vocês estão socializando entre si, mas… é assim que as pessoas formam intimidade, certo? Vocês têm que nos deixar participar disso.”</p>\n\n<hr />\n\n<p>Alguns anos depois, o grupo estudantil anarquista da universidade local convida os moradores mais velhos da cidade para fazer uma apresentação. Eu imagino que eles querem que falemos sobre cultura de segurança, processo de consenso ou a Guerra Civil Espanhola. Mas na verdade, eles querem que falemos sobre punk.</p>\n\n<p>Roxy e eu pegamos um espelho de corpo inteiro da fábrica de vidros abandonada ao lado da minha casa e o levamos para a sala de aula. Nós o colocamos de frente para o público. Começo a recitar uma palestra enfadonha, vestindo uma camisa social, como um professor. Enquanto os olhos deles estão voltados para mim, Roxy acerta o espelho com um taco de beisebol, espalhando cacos por toda parte e uma batida d-beat começa.</p>\n\n<p>“Pronto, por que faríamos isso?”, ela pergunta a eles depois, e as respostas deles dizem tudo o que precisam saber sobre o que é o punk. Seja qual for a concepção que você tem de si mesmo e do mundo em que se vê, destrua-a — seja o que for que você considere azar, faça agora mesmo — e comece a partir daí, recriando a si mesmo e ao mundo.</p>\n\n<hr />\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2022/12/13/7.jpg\" />\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"para-ler-e-ver-mais\"><a href=\"#para-ler-e-ver-mais\"></a>Para ler e ver mais:</h1>\n\n<ul>\n  <li><a href=\"https://pt.crimethinc.com/2021/02/25/do-punk-a-solidariedade-indigena-quatro-decadas-de-anarquismo-no-brasil-uma-entrevista\">Do Punk à Solidariedade Indígena: Quatro Décadas de Anarquismo no Brasil</a></li>\n  <li><a href=\"https://pt.crimethinc.com/2021/01/09/musica-como-uma-arma-a-conflitante-simbiose-do-punk-rock-e-o-anarquismo\">Música Como Uma Arma: A Conflitante Simbiose do Punk Rock e o Anarquismo</a></li>\n  <li><a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=nMRd4nh3tm0\">VIVER PARA LUTAR: Punk, Anarquismo e Feminismo - As minas dos anos 90</a></li>\n  <li><a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=fanQHFAxXH0\">Afropunk: The Movie</a></li>\n  <li><a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=iYph2q44MQU\">Beyond The Screams/Mas Alla de Los Gritos</a>—A documentary about Latin@ hardcore punk in the US</li>\n  <li><a href=\"https://theanarchistlibrary.org/library/penny-rimbaud-the-last-of-the-hippies-an-hysterical-romance\">The Last Of The Hippies—An Hysterical Romance</a>, Penny Rimbaud</li>\n  <li>\n    <p><a href=\"https://crimethinc.com/2006/08/11/the-shape-of-punk-to-come\">The Shape of Punk to Come</a></p>\n\n    <figure class=\"\">\n<a href=\"https://anarchismandpunk.noblogs.org/\"><img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2022/12/13/6.jpg\" /></a>\n    </figure>\n  </li>\n</ul>\n\n"
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      "content_html": "<p>A partir de 28 de dezembro de 2025, uma nova onda de protestos eclodiu em todo o Irã, desencadeada por dificuldades econômicas e escalando para exigir a queda do governo. Este é pelo menos o quinto movimento desse tipo em uma década, inspirado por ondas anteriores de <a href=\"https://crimethinc.com/2020/10/08/iran-there-is-an-infinite-amount-of-hope-but-not-for-us-an-interview-discussing-the-pandemic-economic-crisis-repression-and-resistance-in-iran\">agitação trabalhista</a> e <a href=\"https://crimethinc.com/2023/03/08/jin-jiyan-azadi-woman-life-freedom-the-genealogy-of-a-slogan\">resistência feminista</a>. No entanto, dentro dessa revolta, o movimento popular enfrenta monarquistas reacionários, em sua maioria baseados fora do Irã, que buscam o apoio dos Estados Unidos e de Israel para tomar o poder.</p>\n\n<p>Isso vem no meio de uma situação geopolítica tumultuada. O governo israelense intensificou o bombardeio de Gaza e do Líbano e a tomada de terras em Gaza, Líbano e Síria; está se preparando para construir um assentamento que cortará a Cisjordânia ao meio para tornar um Estado palestino impossível. Os Estados Unidos acabam de sequestrar o presidente da Venezuela e sua esposa para tomar petróleo venezuelano, sinalizando uma disposição para fazer um grande esforço para <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2026/01/07/um-mundo-governado-pela-forca-o-ataque-a-venezuela-e-os-conflitos-que-virao\">dominar as populações</a> dentro e fora de suas fronteiras.</p>\n\n<p>No outono de 2025, manifestantes no <a href=\"https://crimethinc.com/2025/09/22/nepali-anarchists-on-the-toppling-of-the-government-an-interview-with-black-book-distro\">Nepal</a> e em outros lugares demonstraram que ainda é possível que os movimentos sociais derrubem os governos. Uma revolução bem-sucedida no Irã poderia desencadear uma onda de mudanças em todo o mundo. Mas se tal revolução fosse sequestrada por forças reacionárias, poderia colocar os movimentos para a libertação de volta outra geração ou mais.</p>\n\n<p>As apostas são altas. Devemos aos movimentos de base no Irã aprender sobre eles e apoiá-los, tanto porque eles estão enfrentando uma situação desesperada quanto para garantir que um regime fantoche que sirva a Israel e aos Estados Unidos não possa chegar ao poder. <strong>Aqui, apresentamos três perspectivas sobre o levante da última semana e meia.</strong></p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/07/3.jpg\" />\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"relatos-sobre-a-atual-onda-de-protestos-no-ira\"><a href=\"#relatos-sobre-a-atual-onda-de-protestos-no-ira\"></a>Relatos Sobre a Atual Onda de Protestos no Irã</h1>\n\n<p class=\"darkred\"><em>Este texto é contribuição de uma pessoa anarquista do Irã que está ativamente documentando e relatando a situação atual. Devido a sérias preocupações de segurança, ela prefere permanecer anônima.</em></p>\n\n<p>Por quase uma década, a sociedade iraniana tem testemunhado repetidamente ondas de protestos de rua dirigidos contra o sistema político dominante, a República Islâmica. Embora esses protestos tenham surgido como a consequência de diferentes gatilhos imediatos, todos eles estão enraizados em crises estruturais profundas e não resolvidas – econômicas, políticas e sociais – que continuam a moldar a vida cotidiana no Irã.</p>\n\n<p>Ao longo desses anos, a resposta primária do Estado à dissidência pública tem sido a repressão sistemática. Movimentos de protesto têm sido consistentemente respondidos com força letal, prisões em massa, prisão e intimidação generalizada. Longe de resolver as questões subjacentes, essa abordagem contribuiu para o acúmulo de raiva pública e um crescente sentimento de injustiça em toda a sociedade.</p>\n\n<p>Os protestos mais recentes foram inicialmente desencadeados pelo colapso dramático da moeda nacional do Irã e pela grave deterioração das condições de vida. A rápida desvalorização do Rial, combinada com o aumento da inflação e da pobreza generalizada, levou grandes segmentos da população para além da sobrevivência econômica. Essas condições levaram muitos a concluir que a crise não é temporária ou reformável, mas estrutural e inseparável do sistema de poder existente.</p>\n\n<p>Ao contrário dos episódios anteriores, os protestos atuais refletem um nível mais amplo de consciência coletiva. As manifestações não estão mais limitadas a cidades ou grupos sociais específicos; em vez disso, elas se espalharam simultaneamente por várias regiões, envolvendo diversos segmentos da sociedade. As queixas econômicas rapidamente se transformaram em demandas explicitamente políticas, com manifestantes pedindo abertamente o fim do governo autoritário e o desmantelamento da República Islâmica.</p>\n\n<p>Ao mesmo tempo, partes da oposição – principalmente, grupos monárquicos – estão tentando capitalizar o movimento de protesto. Através da mídia via satélite e plataformas sociais, esses atores procuram se apresentar como alternativas políticas viáveis, baseando-se em narrativas nostálgicas da era pré-revolucionária, enquanto tentam redirecionar a raiva popular em direção a seus próprios projetos de poder.</p>\n\n<p>Enquanto isso, a repressão estatal se intensificou significativamente. Relatórios indicam que mais de dez manifestantes foram mortos e centenas de presos nos últimos dias, embora os números reais sejam provavelmente maiores. As forças de segurança expandiram seu uso de violência, vigilância e detenção arbitrária, colocando imensa pressão sobre os manifestantes e a população em geral.</p>\n\n<p>No geral, a situação atual no Irã representa muito mais do que um surto espontâneo de agitação. Sinaliza uma profunda crise de legitimidade, o colapso da confiança pública nas instituições governantes e uma fase crítica no confronto entre a sociedade e a ordem dominante. A trajetória deste momento dependerá do equilíbrio entre resistência social, repressão estatal e capacidade das pessoas de se organizarem de forma independente, tanto fora do poder estatal quanto das forças de oposição de elite.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/07/1.jpg\" />\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"ira-protesta-em-meio-a-um-cerco-por-inimigos-internos-e-externos-um-relato-sobre-a-recente-revolta-em-massa\"><a href=\"#ira-protesta-em-meio-a-um-cerco-por-inimigos-internos-e-externos-um-relato-sobre-a-recente-revolta-em-massa\"></a>Irã protesta em meio a um cerco por inimigos internos e externos: um relato sobre a recente revolta em massa</h1>\n\n<p class=\"darkred\"><em>A análise a seguir é feita por <a href=\"https://www.instagram.com/roja.paris/\">Roja</a>, um coletivo feminista independente de esquerda, organizado em Paris. Roja nasceu após o feminicídio de Jina (Mahsa) Amini, ao lado do início da revolta de “<a href=\"https://crimethinc.com/2023/03/08/jin-jiyan-azadi-woman-life-freedom-the-genealogy-of-a-slogan\">Jin, Jiyan, Azadi</a>” em setembro de 2022. O coletivo é composto por militantes de uma variedade de nacionalidades e geografias políticas dentro do Irã, incluindo curda, hazara, persa e muito mais. As atividades de Roja não estão apenas ligadas a movimentos sociais no Irã e no Oriente Médio, mas também às lutas locais em Paris, em passo com as lutas internacionalistas, inclusive em apoio à Palestina. O nome “Roja” é inspirado na ressonância de várias palavras em diferentes línguas: em espanhol, roja significa “vermelho”; no curdo, roj significa “luz” e “dia”; em Mazandarani, roja significa a “estrela da manhã” ou “Vênus”, considerado o corpo celeste mais brilhante à noite.</em></p>\n\n<h2 id=\"i-a-quinta-revolta-desde-2017\"><a href=\"#i-a-quinta-revolta-desde-2017\"></a>I. A Quinta Revolta desde 2017</h2>\n\n<p>Desde 28 de dezembro de 2025, o Irã está mais uma vez queimando na febre de protestos generalizados. Cânticos de “Morte ao ditador” e “Morte a Khamenei” ecoaram pelas ruas em pelo menos <a href=\"https://www.hra-news.org/2026/hranews/a-6898ac56/\">222 locais em 78 cidades em 26 províncias</a>. Os protestos não são apenas contra a pobreza, o aumento dos preços, a inflação e a desapropriação, mas contra todo um sistema político podre até o osso. A vida tornou-se insustentável para a maioria – especialmente para a classe trabalhadora, mulheres, pessoas queer e minorias étnicas não-persas. Isso se deve não apenas à queda livre da moeda iraniana após <a href=\"https://crimethinc.com/2025/06/23/women-life-freedom-against-the-war-a-statement-against-genocidal-israel-and-the-repressive-islamic-republic\">a guerra de doze dias</a>, mas também à quebra de serviços sociais básicos, incluindo repetidos cortes de energia; uma crise ambiental em aprofundamento (poluição do ar, seca, desmatamento e má gestão dos recursos hídricos); e execuções em massa (pelo menos <a href=\"https://www.hra-news.org/periodical/a-205/\">2.063 pessoas em 2025</a>) – todas as quais se combinaram para piorar as condições de vida.</p>\n\n<p>A crise da reprodução social é o ponto focal dos protestos atuais, e seu horizonte final é a recuperação da vida.</p>\n\n<p>Esta revolta é a quinta onda em uma cadeia de protestos que começou em dezembro de 2017 com o levante conhecido como a “Revolta do Pão”. Isso continuou com a revolta sangrenta de novembro de 2019, uma explosão de raiva pública contra o aumento do preço do combustível e a injustiça. A revolta de 2021 foi conhecida como a “levante dos sedentos”, iniciada e liderada por minorias étnicas árabes. Esta onda atingiu o pico com a revolta da “Mulher, Vida, Liberdade” em 2022, que trouxe as lutas de libertação das mulheres e as lutas anticoloniais de nações oprimidas, como curdos e Baluchis, à tona, abrindo novos horizontes. O levante de hoje centra a crise da reprodução social mais uma vez – desta vez, em um terreno mais radical do pós-guerra. Protestos que começam com demandas de subsistência, mas com velocidade marcante, visam as estruturas de poder e a oligarquia governante corrupta.</p>\n\n<h2 id=\"ii-uma-revolta-sitiada-por-ameacas-externas-e-internas\"><a href=\"#ii-uma-revolta-sitiada-por-ameacas-externas-e-internas\"></a>II. Uma revolta sitiada por ameaças externas e internas</h2>\n\n<p>Os protestos em curso no Irã são sitiados por todos os lados por ameaças externas e internas. Apenas um dia antes do ataque imperialista dos EUA à Venezuela, Donald Trump, envolto na linguagem do “apoio aos manifestantes”, emitiu um aviso: se o governo iraniano “matar manifestantes pacíficos, que é o costume deles, os Estados Unidos da América virão em seu socorro. Estamos prontos e carregados para agir.” Este é o roteiro mais antigo do imperialismo, usando a retórica de “salvar vidas” para legitimar a guerra – seja no Iraque ou na Líbia. Os EUA ainda estão seguindo esse roteiro hoje: apenas em 2025, lançaram ataques militares diretos contra <a href=\"https://www.aljazeera.com/news/2025/12/31/how-many-countries-has-trump-bombed-in-2025\">sete países</a>.</p>\n\n<p>O governo genocida israelense, tendo anteriormente realizado seu ataque de doze dias contra o Irã sob o slogan de “Mulher, Vida, Liberdade” agora escreve em persa nas redes sociais: “Estamos com vocês, manifestantes”. Os monarquistas, como o braço local do sionismo, <a href=\"https://crimethinc.com/2025/06/23/women-life-freedom-against-the-war-a-statement-against-genocidal-israel-and-the-repressive-islamic-republic\">que assumiu manchar sua imagem e a vergonha de apoiar Israel durante a Guerra dos Doze Dias</a>, estão agora tentando se apresentar para seus mestres ocidentais como a única alternativa. Eles fizeram isso através da representação seletiva e manipulação da realidade, lançando uma campanha cibernética para apropriar-se dos protestos, para fabricar, distorcer e alterar o som de slogans de rua em favor do monarquismo. Isso revela sua enganação, suas ambições monopolistas, seu poder de mídia e, crucialmente, sua fraqueza dentro do país, pois não têm poder material no Irã. Com o slogan “Make Iran Great Again”, este grupo saudou a operação imperial de Trump na Venezuela e agora está esperando o sequestro dos líderes da República Islâmica por assassinos americanos e israelenses.</p>\n\n<p>E, é claro, há os pseudo-campistas de esquerda – os autodenominados “anti-imperialistas” – que branqueiam a ditadura da República Islâmica projetando uma máscara anti-imperialista em sua fachada. Eles colocam em dúvida a legitimidade dos protestos atuais repetindo a acusação cansada de que “um levante nessas condições não é nada além de jogar no campo do imperialismo”, porque eles só podem ler o Irã através das lentes do conflito geopolítico – como se cada revolta fosse apenas um projeto EUA-Israel disfarçado. Ao fazer isso, eles negam a subjetividade política do povo do Irã e concedem à República Islâmica imunidade discursiva e política à medida que massacra e reprime sua própria população.</p>\n\n<p>“Irritado com o imperialismo”, mas “com medo da revolução” – para recordar a <a href=\"https://www.siahkal-shirgah.com/file/download/2330.pdf\">frase seminal de Amir Parviz Puyan</a> – sua postura é uma forma de anti-reação reacionária. Dizem-nos até mesmo para não escrever sobre os recentes protestos, assassinatos e repressão do Irã em qualquer língua que não seja o persa em arenas internacionais, para que não demos aos imperialistas um “pretexto” – como se, além do persa, não houvesse pessoas na região ou no mundo capazes de destinos compartilhados, experiência compartilhada, conexão e solidariedade na luta. Para os campistas, não há outro assunto além dos governos ocidentais e nenhuma realidade social além da geopolítica.</p>\n\n<p>Em oposição a esses inimigos, insistimos na legitimidade desses protestos – na interseção de opressões e no destino compartilhado das lutas. A corrente monárquica reacionária está se expandindo dentro da oposição iraniana de extrema-direita, e a ameaça imperialista contra as pessoas no Irã – incluindo o perigo da intervenção estrangeira – é real. Mas assim é a fúria do povo, forjada em quatro décadas de brutal repressão, exploração e o “colonialismo interno” do estado visando comunidades não-persas.</p>\n\n<p>Não temos escolha a não ser enfrentar essas contradições como elas são. O que estamos vendo hoje é uma força insurgente que se eleva das profundezas do inferno social do Irã: pessoas apostando suas vidas para sobreviver, enfrentando a máquina da repressão de frente.</p>\n\n<p>Não temos o direito de usar o pretexto de uma ameaça externa para negar a violência infligida a milhões no Irã – ou negar o direito de se levantar contra ela.</p>\n\n<p>Quem sai às ruas está cansado de análises abstratas, simplistas e paternalistas. Eles lutam de dentro das contradições: vivem sob sanções enquanto simultaneamente experimentam a pilhagem de uma oligarquia nacional. Temem a guerra e temem a ditadura interna. Mas eles não paralisam com medo. Eles insistem em ser sujeitos ativos de seu próprio destino – e seu horizonte, pelo menos desde dezembro de 2017, não é mais reforma, mas a queda da República Islâmica.</p>\n\n<h2 id=\"iii-a-propagacao-da-revolta\"><a href=\"#iii-a-propagacao-da-revolta\"></a>III. A propagação da revolta</h2>\n\n<p>Os protestos foram provocados pela queda livre do Rial – em primeiro lugar entre os lojistas na capital, especialmente nos mercados de telefonia móvel e informática – mas eles rapidamente se expandiram para uma revolta ampla e heterogênea que atraiu trabalhadores assalariados, vendedores ambulantes, carregadores e trabalhadores de serviços em toda a economia mercante de Teerã. A revolta então se moveu rapidamente das ruas de Teerã para universidades e outras cidades, notavelmente as menores, que se tornaram o epicentro dessa onda de protesto.</p>\n\n<p>Desde o início, os slogans visavam a República Islâmica como um todo. Hoje, a revolta está sendo levada adiante acima de tudo pelos pobres e despossuídos: juventude, desempregados, populações excedentes, trabalhadores precários e estudantes.</p>\n\n<p>Alguns descartaram os protestos porque começaram no Bazar (a economia mercante de Teerã), que é muitas vezes percebido como um aliado do regime e um símbolo do capitalismo comercial. Eles classificaram os protestos como “pequeninos-burgueses” ou “ligados ao regime”. Este reflexo lembra as primeiras reações ao movimento dos <a href=\"https://crimethinc.com/2018/11/27/the-yellow-vest-movement-in-france-between-ecological-neoliberalism-and-apolitical-movements\">Coletes Amarelos</a> da França de 2018: porque a revolta surgiu fora da classe trabalhadora “tradicional” e reconheceu as redes de esquerda, e porque carregava slogans contraditórios, muitos se apressaram em declará-lo condenado à reação.</p>\n\n<p>Mas onde uma revolta começa não determina para onde vai. Seu ponto de partida não predetermina sua trajetória. Os protestos atuais no Irã poderiam ter sido reacendidos por qualquer faísca, não apenas pelo Bazar. Aqui também, o que começou no Bazar rapidamente se espalhou para os bairros dos pobres urbanos em todo o país.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/07/2.jpg\" />\n</figure>\n\n<h2 id=\"iv-a-geografia-da-revolta\"><a href=\"#iv-a-geografia-da-revolta\"></a>IV. A Geografia da Revolta</h2>\n\n<p>Se o coração pulsante de “Jin, Jiyan, Azadi” em 2022 pulsava de regiões marginalizadas – Curdistão e Baluchestão – hoje, cidades menores no oeste e sudoeste se tornaram nós centrais de agitação: Hamedan, Lorestan, Kohgiluyeh e Boyer-Ahmad, Kermanshah e Ilam. As minorias Lor, Bakhtiari e Lak nessas regiões estão sendo duplamente esmagadas sob as crises sobrepostas da República Islâmica: a pressão das sanções e a sombra da guerra, da repressão étnica e da exploração, e a destruição ecológica que ameaça suas vidas – especialmente em todos os Zagros. Esta é a mesma região onde Mojahid Korkor (um manifestante de Lor durante a revolta de Jina / Mahsa Amini) foi executado pela República Islâmica um dia antes do ataque de Israel, e onde Kian Pirfalak, uma criança de nove anos, foi morto por munição real disparada pelas forças de segurança durante o levante de 2022.</p>\n\n<p>No entanto, ao contrário do levante de Jina – que desde o início se expandiu conscientemente ao longo de linhas de falha de gênero / sexual e étnica – o antagonismo de classe tem sido mais explícito nos protestos recentes e, até agora, sua disseminação seguiu uma lógica mais baseada em massa.</p>\n\n<p>Entre 28 de dezembro e 4 de janeiro de 2025, pelo menos 17 pessoas foram mortas pelas forças repressivas da República Islâmica usando munições reais e armas de pelota – a maioria delas Lor (no sentido amplo, especialmente em Lorestan e Chaharmahal e Bakhtiari) e curdo (especialmente em Ilam e Kermanshah). Centenas foram presas (pelo menos 580 pessoas, incluindo no mínimo 70 menores); dezenas foram feridas. À medida que os protestos avançam, a violência policial aumenta: no sétimo dia em Ilam, as forças de segurança invadiram o Hospital Imam-Khomeini para prender os feridos; em Birjand, eles atacaram um dormitório estudantil de mulheres. O número de mortos continua a aumentar à medida que o levante se aprofunda, e os números reais são certamente maiores do que os anunciados.</p>\n\n<p>A distribuição dessa violência é desigual, é claro: a repressão é mais dura em cidades menores – especialmente em comunidades minoritárias marginalizadas que foram empurradas para a periferia. Os assassinatos sangrentos em Malekshahi em Ilam e em Jafarabad em Kermanshah testemunham essa disparidade estrutural na opressão e na repressão.</p>\n\n<p>No quarto dia de protesto, o governo – coordenando entre instituições – anunciou fechamentos generalizados em 23 províncias sob o pretexto de “clima frio” ou “carência de energia”. Na realidade, esta foi uma tentativa de quebrar os circuitos através dos quais a revolta se espalha – Bazar, universidade, rua. Em paralelo, as universidades mudaram cada vez mais as aulas on-line para cortar laços horizontais entre espaços de resistência.</p>\n\n<h2 id=\"v-o-impacto-da-guerra-dos-doze-dias\"><a href=\"#v-o-impacto-da-guerra-dos-doze-dias\"></a>V. O impacto da guerra dos doze dias</h2>\n\n<p>Após a Guerra dos Doze Dias, o poder governante do Irã – buscando compensar sua autoridade desmoronada – se voltou mais abertamente para a violência. Os ataques de Israel aos locais militares e civis do Irã militarizaram e securitizaram ainda mais o espaço político e social, principalmente através da campanha racista de deportação em massa de imigrantes afegãos. E enquanto o Estado fala implacavelmente em nome da “segurança nacional”, tornou-se um produtor central de insegurança: intensificada a insegurança da vida através de um surto sem precedentes de execuções, os maus tratos sistêmicos aos prisioneiros e a intensificação da insegurança econômica através da redução brutal dos meios de subsistência das pessoas.</p>\n\n<p>A Guerra dos Doze Dias – seguida de intensificação das sanções dos EUA e da UE e da ativação do mecanismo de retorno instantâneo do Conselho de Segurança da ONU – reforçou a pressão sobre as receitas do petróleo, a banca e o setor financeiro, sufocando as entradas de moeda estrangeira e aprofundando a crise orçamentária.</p>\n\n<p>A partir de 24 de junho de 2025, quando a guerra terminou, até a noite em que os primeiros protestos eclodiram no Bazar de Teerã em 18 de dezembro, o rial perdeu cerca de 40% de seu valor. Esta não foi uma flutuação “natural” do mercado. Foi o resultado combinado da escalada das sanções e o esforço deliberado da República Islâmica para transmitir os efeitos da crise de cima para baixo através da desvalorização gerenciada da moeda nacional.</p>\n\n<p>As sanções devem ser condenadas incondicionalmente. No Irã de hoje, no entanto, eles também operam como um instrumento de poder de classe interna. A moeda estrangeira está cada vez mais concentrada nas mãos de uma oligarquia de segurança militar que lucra com a evasão de sanções e a corretora de petróleo opaca. As receitas de exportação são efetivamente mantidas como reféns, liberadas na economia formal apenas em momentos selecionados, a taxas manipuladas. Mesmo quando as vendas de petróleo aumentam, os lucros circulam dentro de instituições quase estatais e um “Estado paralelo” (acima de tudo o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica), em vez de entrar na vida cotidiana das pessoas.</p>\n\n<p>Para cobrir o déficit produzido pela queda das receitas e retornos bloqueados, o Estado se volta para remoções de subsídios e austeridade. Nesse quadro, a queda repentina do rial se torna uma ferramenta fiscal: força a moeda “refém” de volta à circulação em termos estatais e expande rapidamente os recursos de riais do governo – já que o próprio Estado está entre os maiores detentores de dólares. O resultado é a extração direta da renda das classes baixa e média, e a transferência de lucros de sanções e evasão monetária para uma minoria estreita – aprofundamento da divisão de classe, instabilidade de subsistência e raiva social. Em outras palavras, os custos das sanções são pagos diretamente pelas classes mais baixas e pelo encolhimento dos estratos médios.</p>\n\n<p>O colapso da moeda nacional deve, portanto, ser entendido como pilhagem estatal organizada em uma economia estrangulada por sanções: manipulação deliberada de taxas de câmbio em favor de redes de corretagem ligadas à oligarquia dominante, a serviço de um estado que transformou a liberalização de preços neoliberais em uma doutrina sagrada.</p>\n\n<p>Os pseudoesquerdistas campistas reduzem a crise às sanções dos EUA e à hegemonia do dólar, apagando o papel da classe dominante da República Islâmica como agentes ativos de desapropriação e acumulação financeirizada. Os campistas de direita, geralmente alinhados com o imperialismo ocidental, culpam apenas a República Islâmica e tratam as sanções como irrelevantes. Essas posições se espelham umas às outras – e cada lado tem interesses claros em adotá-las. Contra ambos, insistimos em reconhecer o entrelaçamento da pilhagem e da exploração global e local. Sim, as sanções devastam a vida das pessoas – através da escassez de medicamentos, falta de partes industriais, desemprego e erosão psicológica – mas o fardo é socializado sobre o povo, não para a oligarquia de segurança militar que acumula enorme riqueza, controlando os circuitos informais de moeda e petróleo.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/07/4.jpg\" />\n</figure>\n\n<h2 id=\"vi-as-contradicoes\"><a href=\"#vi-as-contradicoes\"></a>VI. As Contradições</h2>\n\n<p>Na rua, são ouvidos slogans contraditórios, desde apelos para derrubar a República Islâmica até apelos nostálgicos pela monarquia. Ao mesmo tempo, os estudantes cantam slogans visando tanto o despotismo da República Islâmica quanto a autocracia monárquica. Os slogans pró-Shah e pró-Pahlavi refletem contradições reais no terreno – mas também são amplificados e fabricados através de distorções da mídia de direita, incluindo a vergonhosa substituição da voz dos manifestantes por slogans monarquistas. O principal autor da manipulação da mídia é a Iran International, que se tornou um megafone para a propaganda sionista e monarquista. Seu orçamento anual é de cerca de <a href=\"https://www.youtube.com/watch?v=lw6p3ULIaYM&amp;t=708s\">US$ 250 milhões, financiados por indivíduos e instituições ligadas aos governos da Arábia Saudita e de Israel</a>.</p>\n\n<p>Ao longo da última década, a geografia do Irã tornou-se um campo de tensão entre dois horizontes sócio-políticos, mediados por dois modelos diferentes de organização contra a República Islâmica. De um lado, fica a organização social concreta ao longo das linhas de falha de classe, gênero / sexualidade e etnia – mais vividamente, nas redes de interseção forjadas durante o levante de Jina em 2022, estendendo-se da Prisão de Evin à diáspora e produzindo uma unidade sem precedentes entre diversas forças, de mulheres a minorias étnicas curdas e Baluchi, opondo-se à ditadura enquanto apresentam horizontes feministas e anticoloniais. Do outro lado está uma mobilização populista encenada como uma “revolução nacional”, destinada a produzir uma massa homogênea de indivíduos atomizados através de redes de televisão por satélite. Apoiado por Israel e Arábia Saudita, este projeto procura montar um corpo cuja “cabeça” – o filho do Xá deposto – pode mais tarde ser inserido de fora, através de intervenção apoiada pelo exterior, e enxertado nele. Na última década, os monarquistas, armados com o enorme poder da mídia, empurraram a opinião pública para um nacionalismo racista extremo – aprofundando as divisões étnicas e fragmentando a imaginação política dos povos do Irã.</p>\n\n<p>O crescimento desta corrente nos últimos anos não é um sinal do “atraso” político das pessoas, mas o resultado da falta de ampla organização de esquerda e poder da mídia na produção de um discurso contra-hegemônico alternativo – uma ausência e fraqueza em parte produzidas pela repressão e sufocamento, que abriu espaço para esse populismo reacionário. Na ausência de uma narrativa poderosa da esquerda, forças democráticas e não nacionalistas, até mesmo slogans e ideais universais, como liberdade, justiça e direitos das mulheres, podem ser facilmente apropriados por monarquistas e vendidos de volta ao povo em uma concha aparentemente progressista que esconde um núcleo autoritário. Em alguns casos, isso é mesmo embalado em vocabulário socialista – é precisamente aqui que a extrema-direita também devora o terreno da economia política.</p>\n\n<p>Ao mesmo tempo, à medida que o antagonismo com a República Islâmica se intensifica, as tensões entre esses dois horizontes e modelos também se intensificaram; hoje a divisão entre eles pode ser vista na distribuição geográfica de slogans de protesto. Uma vez que o projeto “retorno de Pahlavi” representa um horizonte patriarcal baseado no etno-nacionalismo persa e uma orientação profundamente de direita, em lugares onde a organização de obras de base e feminista surgiu – nas universidades e nas regiões curda, árabe, baluchi, turcomena, árabe e turco – slogans pró-monarquia estão em grande parte ausentes e muitas vezes provocam reações negativas. Esta situação contraditória levou a várias formas de mal-entendida o recente levante.</p>\n\n<h2 id=\"vii-o-horizonte\"><a href=\"#vii-o-horizonte\"></a>VII. O Horizonte</h2>\n\n<p>O Irã está em um momento histórico decisivo. A República Islâmica está em uma de suas posições mais fracas da história – internacionalmente, depois de 7 de outubro de 2023 e o enfraquecimento do chamado “Eixo da Resistência”, e internamente, após anos de repetidas insurgências e revoltas. O futuro dessa nova onda permanece incerto, mas a escala da crise e a profundidade da insatisfação popular garantem que outra rodada de protestos possa entrar em erupção a qualquer momento. Mesmo que a revolta de hoje seja suprimida, ela retornará. Nesta conjuntura, qualquer intervenção militar ou imperial só pode enfraquecer a luta de baixo e fortalecer a mão da República Islâmica para realizar a repressão.</p>\n\n<p>Na última década, a sociedade iraniana tem reinventado a ação política coletiva de baixo. Do Baluchestão e do Curdistão na revolta de Jina para cidades menores em Lorestan e Isfahan na atual onda de protesto, a agência política – sem qualquer representação oficial de cima – mudou para a rua, para comitês de greve e para redes locais e informais. Apesar da repressão brutal, essas capacidades e conexões permanecem vivas dentro da sociedade; sua capacidade de retornar e cristalizar no poder político persiste. Mas a acumulação de raiva não é a única coisa que determinará sua continuidade e direção. A possibilidade de construir um horizonte político independente e uma alternativa real também se mostrará decisiva.</p>\n\n<p>Este horizonte enfrenta duas ameaças paralelas. Por um lado, pode ser apropriado ou marginalizado por forças de direita baseadas fora do país – forças que instrumentalizam o sofrimento das pessoas para justificar sanções, guerra ou intervenção militar. Por outro lado, segmentos da classe dominante – seja de facções de segurança militar ou correntes reformistas – estão trabalhando nos bastidores para se comercializar para o Ocidente como uma opção “mais racional”, “de baixo custo”, “mais confiável”: uma alternativa interna de dentro da República Islâmica, não para romper com a ordem de dominação existente, mas reconfigurá-la sob uma face diferente. (Donald Trump pretende <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2026/01/07/um-mundo-governado-pela-forca-o-ataque-a-venezuela-e-os-conflitos-que-virao\">fazer algo semelhante</a> na Venezuela, dobrando elementos do governo governante à sua vontade, em vez de trazer uma mudança no governo.) Este é um cálculo frio de gerenciamento de crises: conter raiva social, recalibrar as tensões com potências globais e reproduzir uma ordem na qual os povos são negados à autodeterminação.</p>\n\n<p>Contra essas duas correntes, o renascimento de uma política internacionalista de libertação é mais necessário do que nunca. Esta não é uma “terceira via” abstrata, mas um compromisso de colocar as lutas das pessoas no centro da análise e da ação: organização de baixo em vez de roteiros escritos de cima por líderes auto-nomeados, em vez de falsas oposições fabricadas de fora. Hoje, o internacionalismo significa manter juntos o direito dos povos à autodeterminação e à obrigação de combater todas as formas de dominação – internas e externas. Um verdadeiro bloco internacionalista deve ser construído a partir da experiência vivida, solidariedades concretas e capacidades independentes.</p>\n\n<p>Isso requer a participação ativa de forças de esquerda, feministas, anticoloniais, ecológicas e democráticas na construção de uma organização ampla e baseada em classe dentro da onda de protesto – tanto para recuperar a vida quanto para abrir horizontes alternativos de reprodução social. Ao mesmo tempo, essa organização deve se situar em continuidade com o horizonte libertador das lutas anteriores, e especificamente o movimento “Jin, Jiyan, Azadi” – cuja energia ainda carrega o potencial de interromper, de uma só vez, os discursos da República Islâmica, os monarquistas, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica e aqueles ex-reformistas que agora sonham com uma transição controlada e reintegração em ciclos de acumulação EUA-Israel na região.</p>\n\n<p>Este é também um momento decisivo para a diáspora iraniana: pode ajudar a redefinir uma política de libertação, ou pode reproduzir o binário esgotado do “despotismo interno” versus “intervenção estrangeira” e, assim, prolongar o impasse político. Nesse contexto, é necessário que as forças da diáspora tomem medidas para formar um verdadeiro bloco político internacionalista – um que traça linhas claras contra o despotismo interno e a dominação imperialista. Esta postura liga a oposição à intervenção imperialista com uma ruptura explícita da República Islâmica, recusando qualquer justificativa de repressão em nome da luta contra um inimigo externo.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/07/6.jpg\" />\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"a-vista-da-siria\"><a href=\"#a-vista-da-siria\"></a>A vista da Síria</h1>\n\n<p class=\"darkred\"><em>O texto abaixo é extraído de uma declaração de internacionalistas anarquistas em solo no norte da Síria.</em></p>\n\n<p>O Irã é um ator importante na geopolítica do Oriente Médio. Sua influência também teve um forte impacto na Síria durante a era Assad. O contrabando e outras rotas de transporte estavam passando pela Síria, fornecendo o Hezbollah. Após a queda do regime de Assad, o Irã foi expulso da Síria e geralmente perdeu seu poder anterior na região. Os danos sofridos durante os ataques israelenses em junho de 2025 se tornaram outro fator que afetou a situação da República Islâmica.</p>\n\n<p>Os protestos têm sido regularmente crescentes no Irã. Os protestos de 2022 sob o slogan principal «Woman, Life, Freedom» são famosos globalmente. Assim como então, os protestos se espalharam por todo o país. O descontentamento das pessoas se espalhou devido a fatores econômicos – inflação, preços crescentes e pobreza, mas acabou chegando a pedir para derrubar o regime. Manifestantes estão entrando em confronto com a polícia nas ruas, e alguns foram mortos e feridos.</p>\n\n<p>Durante a escalada entre Israel e o Irã em 2025, um detalhe interessante a ser observado foram as declarações de Netanyahu e Trump sobre a desestabilização intencional do Irã com o objetivo de mudança de regime. É uma abordagem bastante padrão dos EUA em relação aos governos “inconvenientes” nas regiões de seus interesses: abrir o caminho para políticos mais cooperativos, como tentaram fazer no Afeganistão. Durante a mais recente escalada da guerra Israel-Irã, havia rumores de que já existe uma figura dominante “democrática”, apoiada e preparada pelos Estados Unidos. Embora essa informação não tenha sido confirmada, podemos imaginar que poderia ser verdade, considerando os métodos dos Estados Unidos em outras instâncias (por exemplo, o recente sequestro do presidente venezuelano). Neste contexto, o significado da intenção declarada de Trump de vir em auxílio de manifestantes iranianos se o Irã “matar cruelmente manifestantes pacíficos, como eles fazem”, torna-se claro.</p>\n\n<p>O Curdistão iraniano, Rojhilat, é uma das regiões rebeldes do Irã. Suas tentativas de declarar autonomia não têm sido bem sucedidas por décadas, mas a luta de guerrilha no território do Irã continua. PJAK (o Partido da Vida Livre do Curdistão) apoiou os manifestantes e condenou novamente o atual regime.</p>\n\n<p>O movimento de libertação curdo está lutando pela liberdade não só na Síria ou na Turquia. As notícias de Rojhilat levam as manchetes com um pouco menos de frequência, mas a situação no Irã é especialmente difícil para a luta de libertação. As forças do PJAK incluem uma ala armada feminina, que é especialmente importante no contexto de uma ditadura que executa o “policiamento moral” sobre a população e, como de costume, prejudica os grupos mais vulneráveis, incluindo as mulheres.</p>\n\n<p>A instabilidade em Teerã pode ser benéfica para a região curda e pode enfraquecer as alianças imperialistas do eixo Rússia-Irã-China. No entanto, um governo fantoche instalado pelos EUA, Israel ou qualquer outra pessoa não abordará a questão curda no Irã. Além disso, abordar a questão curda em um quadro imperialista neoliberal não pode fornecer uma verdadeira solução para um Oriente Médio multiétnico e multi-religioso. O confederalismo democrático, já sendo implementado no nordeste da Síria pelo Partido da União Democrática (Partiya Yekîtiya Demokrat, PYD) e defendido pelo PJAK em Rojhilat, oferece uma opção muito mais promissora para trazer a paz.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/07/5.jpg\" />\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"apendice-leitura-adicional\"><a href=\"#apendice-leitura-adicional\"></a>Apêndice: Leitura Adicional</h1>\n\n<ul>\n  <li><a href=\"https://pt.crimethinc.com/2020/01/08/contra-todas-as-guerras-contra-todos-os-governos-compreendendo-a-guerra-entre-estados-unidos-e-ira\">Contra todas as guerras, contra todos os governos</a> – Entendendo a Guerra EUA-Irã</li>\n  <li><a href=\"https://crimethinc.com/2025/05/19/iran-precarious-work-means-precarious-life-how-the-rajaee-port-disaster-exemplifies-the-assault-on-baluch-ethnic-minorities\">Iran: Precarious Work Means Precarious Life</a>—How the Rajaee Port Disaster Exemplifies the Assault on Baluch Ethnic Minorities</li>\n  <li>“<a href=\"https://crimethinc.com/2025/06/23/women-life-freedom-against-the-war-a-statement-against-genocidal-israel-and-the-repressive-islamic-republic\">Women, Life, Freedom” against the War</a>—A Statement against Genocidal Israel and the Repressive Islamic Republic</li>\n  <li><a href=\"https://crimethinc.com/2024/06/03/against-apartheid-and-tyranny-for-the-liberation-of-palestine-and-all-the-peoples-of-the-middle-east-a-statement-from-iranian-exiles\">Against Apartheid and Tyranny</a>—For the Liberation of Palestine and All the Peoples of the Middle East: A Statement from Iranian Exiles</li>\n  <li><a href=\"https://crimethinc.com/2023/03/08/jin-jiyan-azadi-woman-life-freedom-the-genealogy-of-a-slogan\">Jin, Jiyan, Azadi (Woman, Life, Freedom)</a>—The Genealogy of a Slogan</li>\n  <li><a href=\"https://crimethinc.com/2022/09/28/revolt-in-iran-the-feminist-resurrection-and-the-beginning-of-the-end-for-the-regime\">Revolt in Iran</a>—The Feminist Resurrection and the Beginning of the End for the Regime</li>\n  <li>“<a href=\"https://crimethinc.com/2020/10/08/iran-there-is-an-infinite-amount-of-hope-but-not-for-us-an-interview-discussing-the-pandemic-economic-crisis-repression-and-resistance-in-iran\">There Is an Infinite Amount of Hope… but Not for Us</a>”—An Interview Discussing the Pandemic, Economic Crisis, Repression, and Resistance in Iran</li>\n</ul>\n\n"
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      "content_html": "<p><em>“Vivemos em um mundo governado pela força, governado pelo poder”</em>, disse Stephen Miller ao apresentador da CNN, Jake Tapper, em 5 de janeiro de 2026, detalhando o programa fascista ao justificar a tomada da Groenlândia pela força. <em>“Estas são as leis de ferro do mundo desde o princípio dos tempos.”</em></p>\n\n<p>Na madrugada de 3 de janeiro, o governo Trump realizou uma operação feita para a televisão na Venezuela, bombardeando pelo menos sete alvos em Caracas e sequestrando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Celia Flores. Este foi o ápice de uma campanha de pressão que durou um ano, durante a qual o governo classificou imigrantes venezuelanos nos EUA como “narcoterroristas”, tentou aplicar a Lei de Inimigos Estrangeiros (Alien Enemies Act), bombardeou supostos “barcos de narcotráfico”, apreendeu petroleiros e mobilizou a Marinha dos EUA para bloquear a Venezuela.</p>\n\n<p>Inicialmente, o governo Trump <a href=\"https://www.nytimes.com/2025/11/18/us/politics/trump-maduro-drug-cartel.html\">acusou</a> Maduro de liderar o “Cartel de los Soles”, uma invenção tão absurda quanto a feita contra movimentos “<a href=\"https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3e7znyx27po\">antifas</a>”. Embora tenham revisado essa acusação <a href=\"https://www.nytimes.com/2026/01/05/us/trump-venezuela-drug-cartel-de-los-soles.html\">ontem</a>, a fim de formular um argumento jurídico menos frágil, é típico de seu método começar com uma narrativa falsa e buscar meios de impô-la à realidade. Um dos principais objetivos de Donald Trump era publicar uma fotografia de Nicolás Maduro acorrentado, ecoando as fotos que agências federais têm divulgado de pessoas detidas pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos). Em vez de oferecer melhorias nas condições econômicas das pessoas, Trump oferece a seus apoiadores a emoção de se identificarem com carcereiros e torturadores. Seu objetivo é desumanizar seus adversários e dessensibilizar a todos para o tipo de violência necessária para sustentar seu reinado e o próprio capitalismo em uma era de lucros em declínio.</p>\n\n<p>A mídia corporativa está desempenhando seu papel clássico de oposição leal, questionando a legalidade da ação enquanto demoniza Maduro e endeusa sua oponente de direita, María Corina Machado. Para anarquistas e outros que buscam se opor ao imperialismo, é necessário situar o ataque à Venezuela em um contexto mais amplo, refletir sobre o que seria uma oposição efetiva e identificar como podemos agir em resposta.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/06/2.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Incêndio no complexo militar Fuerte Tiuna, na Venezuela, 3 de janeiro de 2026.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"o-manual\"><a href=\"#o-manual\"></a>O Manual</h1>\n\n<p>O governo dos Estados Unidos tem um longo histórico de intervenções imperialistas na América Latina, incluindo mais de um século de operações contra Cuba, os sangrentos golpes militares no Brasil em 1964, no Chile em 1973 e a invasão do Panamá por George Bush em 1989. O ataque à Venezuela dá continuidade a uma série de iniciativas mais recentes, desde as invasões do <a href=\"https://pt.crimethinc.com/Afeganistao21\">Afeganistão</a> e do Iraque por George W. Bush em 2002 e 2003 até o desmantelamento da “ordem internacional baseada em regras” por Joe Biden, para permitir que Benjamin Netanyahu realize um genocídio na Palestina a partir de 2023.</p>\n\n<p>Ao mesmo tempo, o programa da administração Trump representa um afastamento das normas anteriores. Ao buscar extrair recursos pela força bruta, sem a menor pretensão de qualquer outra agenda, Trump se junta a Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu na inauguração de uma era de pilhagem desenfreada por ganância.</p>\n\n<p>Embora os subordinados de Trump tenham citado as eleições fraudulentas que ocorreram na Venezuela em 2024 para justificar o ataque, Trump não pretende trazer eleições ou “democracia” para a Venezuela.  <a href=\"https://www.miamiherald.com/news/nation-world/world/americas/venezuela/article314166732.html\">Algumas fontes</a> afirmam que a oposição liderada por María Corina Machado conta com o apoio de quase 80% da população venezuelana, mas Trump sustenta que ela não tem apoio suficiente para governar; presumivelmente, ele se refere à falta de apoio dos militares. O próprio Trump prefere trabalhar com um regime autocrático que lhe seja diretamente subordinado. Ele também prefere não ter que prestar contas a eleições, seja na Venezuela ou nos Estados Unidos.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/06/3.jpg\" />\n</figure>\n\n<p>Trump está usando a guerra para evitar uma crise interna. Embora Trump e um grupo de <a href=\"https://www.nytimes.com/2025/12/27/us/politics/venezuela-trump-maduro-oil-boat-strikes-immigration.html\">republicanos anticomunistas</a> pressionem há tempos por uma mudança de regime e a presença naval no Caribe esteja aumentando desde agosto, este golpe foi orquestrado para dominar o noticiário e desviar a atenção da piora nas pesquisas de opinião e de uma série de derrotas judiciais relacionadas aos esforços de Trump para mobilizar a Guarda Nacional dentro do seu próprio país. Ao mesmo tempo, as evidências da cumplicidade de Trump no esquema de abuso e estupro de menores de Jeffrey Epstein estão finalmente fragmentando sua base eleitoral.</p>\n\n<p>À medida que os autocratas perdem o controle do poder, tornam-se mais perigosos e imprevisíveis. As manobras de Netanyahu para se manter à frente do escândalo de corrupção — incluindo sua disposição em sacrificar reféns para continuar perpetrando um genocídio — nos ensinam muito sobre esse assunto. Quando ameaçados por crises, esses governantes criam outras crises para distrair seus governados. Qualquer oposição eficaz deve se lembrar de manter o foco naquilo que Trump está tentando esconder. É isso que ele mais teme.</p>\n\n<p>Entendido como uma operação midiática, o ataque à Venezuela é um ataque a todos nós: uma tentativa de intimidar todos aqueles que possam resistir ao regime de Trump, de nos fazer aceitar que a violência estatal continuará a aumentar independentemente do que façamos, de nos convencer de que não somos os protagonistas do nosso tempo.</p>\n\n<p>Como <a href=\"https://crimethinc.com/2025/12/16/at-the-turning-of-the-tide-how-fight-our-way-out-of-the-trump-era#a-rising-tide-that-sinks-all-boats\">argumentamos</a> em 2025, Trump copiou grande parte de sua estratégia de autoritários como Vladimir Putin. Quando Putin se tornou primeiro-ministro em agosto de 1999, seus índices de aprovação eram ainda menores do que os de Trump atualmente. Ele resolveu esse problema por meio da segunda guerra da Chechênia, que reverteu drasticamente as pesquisas de opinião a seu favor. Depois disso, sempre que seu apoio caía, ele repetia esse truque — invadindo a Geórgia em 2008, a Crimeia e Donbas em 2014 e a Ucrânia em 2022 — consolidando lentamente o controle da sociedade russa até que pudesse se dar ao luxo de enviar russos para o moedor de carne da guerra, cem mil de cada vez.</p>\n\n<p>Putin usou a guerra na Ucrânia como meio de controle interno — e, na Rússia, isso vai muito além da repressão de protestos. À medida que as condições econômicas pioram, Putin precisa projetar força e brutalidade continuamente, mas também precisa descobrir o que fazer com uma população cada vez mais inquieta e desesperada. Enviar jovens de famílias pobres do interior para o meio da guerra permite que Putin os mantenha ocupados; se algumas centenas de milhares deles nunca voltarem para casa, melhor ainda — eles não aparecerão nas estatísticas de desemprego e a polícia não precisará reprimir seus protestos. Da mesma forma, o recrutamento obrigatório fez com que milhares daqueles que provavelmente liderariam uma revolução fugissem do país. Essa é uma estratégia que veremos se repetir em outros lugares à medida que a crise global do capitalismo se intensifica.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/06/8.jpg\" />\n</figure>\n\n<p>A principal diferença entre os dois contextos é que, embora os Estados Unidos sejam muito mais poderosos que a Rússia, o poder de Trump não é nem de longe tão seguro quanto o de Putin. Ao mesmo tempo, após as desastrosas ocupações do Afeganistão e do Iraque, os eleitores americanos têm consideravelmente menos disposição para operações que coloquem em risco a vida de soldados americanos.</p>\n\n<p>Trump não é particularmente um líder tático e disciplinado, nem um estrategista focado. Ele sempre se apoia em ameaças e intimidação para atingir seus objetivos, aproveitando-se da covardia e da fraqueza de seus contemporâneos. Presumivelmente, ele aposta que a intimidação servirá para dobrar os governos da América Latina aos seus caprichos sem a necessidade de novas ações militares. Se isso não funcionar, ele provavelmente pretende recorrer à tecnologia militar, mercenários e outros meios de exercer força sem ter que enviar tropas americanas para ocupar a Venezuela ou outros países. Mas a guerra, uma vez instaurada, impõe sua própria lógica. Se o governo Trump continuar por esse caminho, as forças americanas podem acabar envolvidas em um conflito aberto.</p>\n\n<p>Na sequência do ataque à Venezuela, Trump e seus asseclas ameaçaram tomar medidas semelhantes contra o <a href=\"https://x.com/NikkiMcR/status/2007455434186059903\">México</a>, Cuba, Colômbia, Dinamarca e outras nações. Certamente, eles as executarão se sentirem que estão agindo de uma posição de força, mas mesmo que as coisas corram mal para ele, Trump pode tentar usar tais manobras para desviar a atenção de sua fragilidade.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/06/1.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Filas de carros aguardam em postos de gasolina na Venezuela após os ataques.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"o-retorno-da-pilhagem\"><a href=\"#o-retorno-da-pilhagem\"></a>O Retorno da Pilhagem</h1>\n\n<p>O capitalismo começou em meio à pilhagem colonial e, à medida que as margens de lucro diminuem em toda a economia global, os governos estão retornando a essa estratégia antiquada de acumulação. Isso explica a apropriação de terras por Putin na Ucrânia, a tentativa contínua de Netanyahu de usar o genocídio como forma de gentrificação e a mais recente aventura de Trump na Venezuela.</p>\n\n<p>Em um <a href=\"https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf\">documento</a> de “Estratégia de Segurança Nacional” de novembro de 2025, o governo Trump se comprometeu explicitamente com um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, visando “restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental” como forma de “negar aos concorrentes não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério”.</p>\n\n<p>Trump adotou a renomeação autoengrandecedora dessa estratégia geopolítica como a “Doutrina Donroe”, afirmando que “o domínio americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado novamente”. Trata-se de petróleo, como Trump enfatizou — a Venezuela detém 17% das reservas mundiais de petróleo —, mas também é uma forma de disputar poder com a China, grande investidora e importadora da indústria petrolífera venezuelana, responsável por 80% das exportações de petróleo da Venezuela e sustentando o setor com mais de US$ 60 bilhões em empréstimos desde 2007. Essa estratégia é anterior a Trump: uma renovação da Doutrina Monroe, com foco na competição com a China e a Rússia no Sul Global, foi um ponto-chave da Comissão de Estratégia de Segurança Nacional de 2024, criada durante o governo de Joe Biden. A Comissão de 2024 <a href=\"https://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/misc/MSA3057-4/RAND_MSA3057-4.pdf\">defendeu explicitamente</a> a competição com a China e a Rússia por influência na América Latina no que diz respeito ao “desenvolvimento e exploração de recursos naturais, bem como instalações e capacidades para projeção de poder”. Embora Trump represente a guinada em direção à autocracia, a lógica geopolítica e econômica já estava em vigor.</p>\n\n<p>Em outras palavras, a brutalidade desenfreada de Trump oferece à classe dominante uma solução para um problema que capitalistas de todos os tipos estão enfrentando: o problema da escassez de oportunidades.</p>\n\n<p>O plano de Trump de permitir que empresas petrolíferas americanas assumam a extração de recursos na Venezuela faz parte de uma nova fase de pilhagem colonial, um retorno à apropriação direta de ativos de outros países. Precisamos entender isso dentro do contexto mais amplo de estagnação e financeirização. Historicamente, isso reflete períodos anteriores de “caos sistêmico” <sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">1</a></sup> quando a queda nos lucros obrigou os capitalistas a se voltarem para a especulação financeira e a máquina do sistema capitalista mundial entrou em colapso até ser reconstituída em uma nova ordem por meio da violência em massa. O exemplo recente mais relevante é o período de 1914 a 1945, que testemunhou as duas guerras mundiais do século XX.</p>\n\n<p>Portanto, não se trata <em>apenas</em> de petróleo; é um meio de consolidar as condições para a exploração capitalista em geral e um vislumbre da violência em larga escala que está por vir. Estamos entrando em uma fase de relações baseadas na força bruta, não no “estado de direito” ou na diplomacia, e este ataque — assim como a própria presidência de Trump — é um sintoma, não uma causa.</p>\n\n<p>Mas isso representa um afastamento do imperialismo nacionalista e populista do passado, no qual os regimes roubavam recursos da periferia global para melhorar a qualidade de vida no núcleo imperial. O ataque de Trump à Venezuela visa beneficiar um grupo cada vez menor de capitalistas. A classe média e a classe trabalhadora branca não são mais “parceiras minoritárias” em empreendimentos coloniais e têm <a href=\"https://www.theguardian.com/business/2026/jan/06/trump-us-taxpayers-oil-firms-venezuela-investment\">cada vez menos motivos</a> para se identificar com eles.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/06/6.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Em Caracas, pessoas limpam os destroços dos bombardeios dos Estados Unidos..</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"a-questao-da-lideranca\"><a href=\"#a-questao-da-lideranca\"></a>A Questão da Liderança</h1>\n\n<p>Inicialmente, a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez adotou um tom desafiador, mas logo recuou para uma retórica mais <a href=\"https://www.nytimes.com/2026/01/04/world/americas/venezuela-acting-president.html\">conciliatória</a>. Isso gerou <a href=\"https://www.miamiherald.com/news/nation-world/world/americas/venezuela/article314166732.html\">especulações</a> de que Rodríguez estaria disposta a cooperar com o governo Trump, ou que já estaria cooperando.</p>\n\n<p>Diversos cenários são possíveis, e é difícil determinar a verdade. Talvez os Estados Unidos tenham colocado Delcy Rodríguez em uma situação terrível, mas ela esteja resistindo bravamente; talvez o governo Trump já tenha negociado secretamente com Delcy Rodríguez, e ela pretenda adotar uma postura firme enquanto facilita a agenda americana de extração de recursos; talvez haja algo mais acontecendo. Independentemente disso, a vulnerabilidade do Chavismo<sup id=\"fnref:2\"><a href=\"#fn:2\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">2</a></sup> frente ao sequestro de seu líder — e a possibilidade de que Rodríguez ou outros elementos do governo venezuelano sejam cúmplices, ou venham a ser cúmplices, do plano de Trump de assumir o controle dos recursos venezuelanos — ambos ressaltam o fato de que <strong>todas as hierarquias representam um ponto de falha para as lutas de libertação.</strong></p>\n\n<p>Já vimos como a liderança de movimentos revolucionários de esquerda anteriores, como o governo de <a href=\"https://crimethinc.com/2019/05/16/update-from-nicaragua-one-year-after-the-insurrection\">Daniel Ortega na Nicarágua</a>, foi forçado a se integrar ao funcionamento do neoliberalismo e obrigada a impor medidas de austeridade capitalista e controle estatal sobre as populações sob seu domínio. Diante dessas derrotas, alguns chegam à conclusão de que a única maneira de possuir soberania é controlar um Estado-nação poderoso que possua armas nucleares. Essa é a lógica que sustenta o “<a href=\"https://newpol.org/issue_post/internationalism-anti-imperialism-and-the-origins-of-campism/\">campismo</a>”<sup id=\"fnref:3\"><a href=\"#fn:3\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">3</a></sup>, o apoio a potências imperialistas como a Rússia e a China, que rivalizam com os Estados Unidos.</p>\n\n<p>No entanto, a Rússia e a China operam segundo a mesma lógica autoritária e capitalista que o governo dos Estados Unidos utiliza hoje — e aqueles que optam por apoiá-las não terão mais influência sobre as ações de seus líderes do que os venezuelanos têm sobre o governo dos Estados Unidos. Aqueles que buscam se alinhar a um ou outro ator geopolítico acabarão inevitavelmente defendendo autocratas genocidas a partir de uma posição de total impotência. A verdadeira alternativa não é o campismo, mas sim uma resistência popular internacional que ultrapasse fronteiras.</p>\n\n<p>Mas para que isso se torne uma alternativa convincente, as pessoas nos Estados Unidos precisarão desenvolver a capacidade de impedir que o governo americano bombardeie e saqueie o exterior.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/06/4.jpg\" />   <figcaption>\n    <p><a href=\"https://crimethinc.com/posters/its-double-or-nothing-for-everyone-now\">Agora é tudo ou nada para todos</a>.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"o-que-esperar-como-se-preparar\"><a href=\"#o-que-esperar-como-se-preparar\"></a>O Que Esperar, Como se Preparar</h1>\n\n<p>O ataque à Venezuela marca a escalada de uma guerra por procuração com a China. A mudança da base industrial, incluindo a indústria tecnológica, para a <a href=\"https://illwill.com/why-war\">indústria bélica</a> é uma forma de lidar com a economia estagnada, mas isso só será possível se o governo Trump conseguir inflamar ainda mais o “espírito nacional” e o patriotismo. Pode-se argumentar que a corrida para consolidar o financiamento e a proliferação da inteligência artificial visa criar uma população mais crédula e controlável para esse fim final.</p>\n\n<p>A curto prazo, podemos esperar que o governo Trump tente mais uma vez usar a Lei de Inimigos Estrangeiros contra venezuelanos e outros alvos. A tentativa anterior de Trump e Miller foi derrotada na justiça porque os EUA não estavam, de fato, em guerra. Agora que criaram uma guerra, usarão isso para declarar uma série de novas emergências e justificar novas medidas repressivas. Também podemos esperar mais violência racista contra latino-americanos e chineses, bem como retaliação contra a política externa dos EUA por parte de atores não estatais ou agentes indiretos, das quais o governo Trump tentará se aproveitar para promover sua agenda.</p>\n\n<p>As eleições de meio de mandato estão marcadas para novembro de 2026. Donald Trump e os republicanos não são os favoritos; mas Trump já ultrapassou tantos limites que não tolera nenhuma ameaça ao seu poder. Seja por interferência eleitoral, fraude ou, mais provavelmente, crises orquestradas que legitimem um estado de exceção, podemos esperar que as eleições de meio de mandato sejam as menos “democráticas” da história recente. <a href=\"https://crimethinc.com/2025/12/16/at-the-turning-of-the-tide-how-fight-our-way-out-of-the-trump-era#the-elections\">As eleições por si só não nos tirarão dessa bagunça</a>.</p>\n\n<p>À medida que Trump enfrenta diversas crises, escândalos e obstáculos, ele se tornará mais violento, imprevisível e perigoso. Isso é um sinal de fraqueza, mas uma fraqueza respaldada por toda a força das Forças Armadas dos EUA. Devemos esperar confrontos militares em larga escala até outubro deste ano, incluindo novos destacamentos da Guarda Nacional e talvez até mesmo a decretação da lei marcial.</p>\n\n<p>Guerras impopulares sem um mandato claro — especialmente guerras que resultam em baixas americanas ou outros sacrifícios em território nacional — podem significar a queda de um regime. É nossa tarefa transformar esta guerra — juntamente com os outros erros de Trump e as guerras que virão — em um fardo para toda a classe dominante. Será necessária tanta força popular para destituir Trump que devemos popularizar propostas igualmente ambiciosas — e não simplesmente exigir um retorno a um status quo centrista impopular. Os revolucionários devem se preparar para superar as tentativas centristas de reequilibrar o Estado. Pode parecer difícil de imaginar agora, mas levantes e revoluções se desenrolam rapidamente. As revoluções da “Geração Z” derrubaram regimes ao redor do mundo ao longo de 2024.</p>\n\n<p>Manifestações por todos os Estados Unidos têm usado slogans conhecidos como “Sem sangue por petróleo”. Infelizmente, Trump concluiu que seus seguidores querem ambos: petróleo e sangue. Movimentos pacifistas tendem a ser inerentemente conservadores, pois buscam influenciar as políticas de Estado; mas, assim como os governos anteriores, o regime de Trump deixou claro que não se importa com a oposição. Em vez de apresentar demandas por meio de protestos simbólicos, precisamos construir movimentos horizontais capazes de atender às necessidades por meio de ações diretas. Esses movimentos devem se concentrar nas condições comuns que as pessoas comuns enfrentam de Caracas a Minneapolis: pobreza, austeridade, pilhagem de recursos essenciais, controle por mercenários violentos, domínio de magnatas irresponsáveis. A <a href=\"https://crimethinc.com/2025/12/03/when-the-feds-come-to-your-city-standing-up-to-ice-a-guide-from-chicago-organizers\">resistência às atividades do Serviço de Imigração e Alfândega</a> (ICE) nos Estados Unidos representa um passo promissor nessa direção.</p>\n\n<p>Se, de fato, como Stephen Miller sugere, os governos não representam os desejos ou a vontade do povo que governam, se — como já deveria ser óbvio para todos — eles não têm nossos melhores interesses em mente, mas simplesmente agem para acumular o máximo de riqueza possível para si mesmos, então ninguém é obrigado a obedecê-los. A única questão é como construir <em>força</em> coletiva suficiente — <em>força</em> popular suficiente, <em>poder</em> horizontal suficiente — para derrotá-los.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/06/5.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>O retorno do fascismo em escala global — e, esperançosamente, a capacidade de derrotá-lo.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"apendice-leituras-complementares\"><a href=\"#apendice-leituras-complementares\"></a>Apêndice: Leituras complementares</h1>\n\n<p>Para começar, os leitores devem consultar “<a href=\"https://cabanarquista.com.br/frente-a-ofensiva-do-imperio-solidariedade-ao-povo-venezuelano/\">FRENTE À OFENSIVA DO IMPÉRIO, SOLIDARIEDADE AO POVO VENEZUELANO! </a>”, uma declaração internacional de organizações anarquistas latino-americanas publicada em dezembro de 2025.</p>\n\n<p>Para um contexto mais aprofundado sobre a situação na Venezuela, encorajamos os leitores de língua espanhola a consultar o <a href=\"https://www.nodo50.org/ellibertario/textos.html\">arquivo</a> da extinta publicação anarquista venezuelana <em>El Libertario,</em> onde se pode encontrar, por exemplo, uma avaliação crítica das <a href=\"https://www.nodo50.org/ellibertario/PDF/venezuelactu.pdf\">organizações sociais bolivarianas de 2006</a>, ou uma coletânea de textos sobre o papel da indústria petrolífera na repressão dos movimentos populares de base na Venezuela e na sua integração na economia global:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>A Venezuela faz parte do processo de construção de novas formas de governança na região, que desmobilizaram os movimentos sociais que reagiram à aplicação de medidas de ajuste estrutural na década de 1990, relegitimando tanto o Estado quanto a democracia representativa para atender às cotas de exportação de recursos naturais para os principais mercados mundiais.”</p>\n\n  <p>-Ley Habilitante: dictadura para el capital energético (“A Lei Habilitante: Ditadura para o Capital Energético) em El Libertario # 62, março-abril de 2011</p>\n</blockquote>\n\n<p>Podemos entender o ataque de Trump à Venezuela como uma forma de dar continuidade a esse “processo de construção de novas formas de governança na região” atualmente.</p>\n\n<hr />\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2026/01/06/7.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Uma lista de pessoas recentemente encarceradas em um único centro de detenção no Brooklyn indica a crescente gama de contradições histórico-mundiais que vêm à tona em nossa época.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<div class=\"footnotes\" role=\"doc-endnotes\">\n  <ol>\n    <li id=\"fn:1\">\n      <p>Em <em>O Longo Século XX</em>, Giovanni Arrighi argumenta que os últimos 700 anos testemunharam uma oscilação pendular previsível entre períodos relativamente “pacíficos” e estáveis ​​de expansão comercial, durante os quais mercados em crescimento permitem que capitalistas e estados lucrem sem concorrência significativa, e investimentos em produção ou comércio geram lucros confiáveis, e períodos cada vez mais caóticos de expansão financeira, durante os quais a competição intercapitalista reduz os lucros e o capital de investimento busca lucro principalmente por meio da especulação financeira. À medida que a economia global para de crescer, capitalistas e elites nacionais recorrem cada vez mais à força e à pilhagem para sustentar os lucros, culminando em períodos de “caos sistêmico”. Esses períodos são notavelmente violentos, caracterizados por gastos militares e pilhagem; Historicamente, esses ciclos só terminam quando uma nova força hegemônica impõe uma nova ordem global e restaura as condições para a acumulação capitalista. A hegemonia americana do século XX e o sistema internacional introduzido pelas Nações Unidas desempenharam esse papel após a Segunda Guerra Mundial, mas ambos estão em declínio desde a transição para a financeirização e a ascensão do “neoliberalismo” na década de 1970, e agora demonstram sua irrelevância à medida que mais e mais forças tentam obter lucros pela força bruta em vez do investimento capitalista. Os especialistas que lamentam o fim da ordem internacional baseada em regras e expressam nostalgia pelas Nações Unidas estão ignorando a floresta da estagnação econômica, concentrando-se apenas em figuras isoladas como Trump e Putin. Qualquer solução real para o período de barbárie em que estamos entrando terá que ser mais abrangente e ambiciosa do que a “Era das Revoluções” de 1789-1848. <a href=\"#fnref:1\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n    <li id=\"fn:2\">\n      <p><em>Chavismo</em> é o movimento socialista associado ao ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. <a href=\"#fnref:2\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n    <li id=\"fn:3\">\n      <p>“Campismo” é uma palavra usada para descrever <a href=\"https://newpol.org/issue_post/internationalism-anti-imperialism-and-the-origins-of-campism/\">uma doutrina da época da Guerra Fria</a>. os adeptos desse dogma sustentavam que o mais importante era apoiar a URSS a todo custo contra os estados capitalistas e imperialistas. Esta doutrina persiste hoje na parte da esquerda radical que apoia a Rússia de Putin na invasão da Ucrânia ou então relativiza a guerra em curso. Como fizeram na Síria, usam o pretexto de que os regimes russo ou sírio encarnam a luta contra o imperialismo ocidental e atlantista [isto é, pró-OTAN]. Infelizmente, esse anti-imperialismo maniqueísta, que é puramente abstrato, recusa-se a ver o imperialismo em qualquer ator que não seja o Ocidente. <a href=\"#fnref:3\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n  </ol>\n</div>\n"
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      "content_html": "<p>Para manter a base eleitoral de Donald Trump entretida com espetáculos de <a href=\"https://crimethinc.com/2024/12/23/sacrificial-violence-and-retribution-comparing-the-killings-of-jordan-neely-and-brian-thompson#sacrificial-violence\">violência predatória</a>, recrutadores estão oferecendo subornos de até US$ 50.000 para seduzir indivíduos ingênuos o bastante para se candidatarem ao Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). Embora os capangas de Trump <a href=\"https://www.nytimes.com/interactive/2025/12/04/us/ice-arrests-criminal-records-data.html\">declarem falsamente</a> que o ICE está visando “criminosos”, os verdadeiros malfeitores são aqueles que estão preparados para causar danos às suas vizinhanças em troca de suborno.</p>\n\n<p>Em cooperação com a <a href=\"https://sub.media/pt/\">subMedia</a> e a <a href=\"https://catl.noblogs.org/\">Coordinadora Anarquista Tejiendo Libertad</a>, preparamos uma campanha em vídeo e <a href=\"https://crimethinc.com/posters/mercenarios-1\">cartazes</a> para combater o recrutamento do ICE. Por favor, ajude-nos a divulgá-los em todos os lugares onde pessoas estão em risco.</p>\n\n<p>Não há nada mais desprezível e perigoso do que um mercenário. Ao entrar para o ICE, você se torna uma ameaça à sua comunidade e um traidor da humanidade. <strong>Quando as pessoas virem você trabalhando com o ICE, você terá que usar essa máscara todos os dias pelo resto da vida.</strong></p>\n\n<figure class=\"video-container \">\n  <iframe src=\"https://kolektiva.media/videos/embed/raN1GGcPNT7wc6rA6sPmPk\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"\" sandbox=\"allow-same-origin allow-scripts allow-popups\"></iframe>\n</figure>\n\n<p>Este <a href=\"https://crimethinc.com/zines/8-things-you-can-do-to-stop-ice\">folheto</a> aborda as medidas básicas que você pode tomar para impedir que o ICE aterrorize sua comunidade. Você pode aprender mais sobre como se defender do ICE <a href=\"https://crimethinc.com/2025/12/03/when-the-feds-come-to-your-city-standing-up-to-ice-a-guide-from-chicago-organizers\">aqui</a>.</p>\n\n<p>Aqui está o design do pôster, adequado para impressão e colagem em superfícies verticais em qualquer lugar:</p>\n\n<p>Aqui está o design do pôster, adequado para impressão e <a href=\"https://crimethinc.com/2017/07/18/a-field-guide-to-wheatpasting-everything-you-need-to-know-to-blanket-the-world-in-posters\">colagem</a> em qualquer superfície vertical e em qualquer lugar:</p>\n\n<figure class=\"portrait-shadow\">\n<a href=\"https://crimethinc.com/posters/mercenarios-1\"><img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/12/10/2-pt.jpg\" /></a>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"mercenarios\"><a href=\"#mercenarios\"></a>MERCENÁRIOS</h1>\n\n<p>Dizem-nos que há pessoas <em>perigosas</em> à solta nas nossas comunidades. Parasitas que se alimentam dos nossos recursos. Pessoas que <em>não são como nós</em>.</p>\n\n<p>Mas quem é perigoso, senão as pessoas que sequestram seus vizinhos em troca de um suborno? Se alguém aqui é um parasita, são aquelas que monopolizam os recursos públicos para lucrar com a violência. Se existe alguém indesejado, são aqueles que vendem sua capacidade de machucar outras pessoas para quem paga mais: os mercenários que se vendem para o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA).</p>\n\n<p>Eles não estão protegendo nossas comunidades — estão tentando destruí-las. Ao perseguir os vulneráveis, visam minar nossa capacidade de nos identificarmos umas com as outras, nossa capacidade de sentir compaixão. Se tiverem sucesso, todas nós estaremos em perigo. Eles também estão ameaçando <em>sua</em> segurança, <em>sua</em> liberdade. Assim que terminarem de prender imigrantes, precisarão de novos bodes expiatórios.</p>\n\n<p>Quem conhece a história do fascismo sabe como essa história termina. Começa por trancar crianças sem documentos em jaulas — e termina por trancar <em>seus</em> filhos em jaulas.</p>\n\n<p>Juntas, podemos criar um mundo onde ninguém precise viver com medo de mercenários. Nenhum político ou partido político fará isso por nós. Depende apenas de nós.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/12/10/1-en.jpg\" />\n</figure>\n\n<h1 id=\"materiais-uteis\"><a href=\"#materiais-uteis\"></a>Materiais úteis</h1>\n\n<ul>\n  <li><a href=\"https://crimethinc.com/zines/8-things-you-can-do-to-stop-ice\">Eight Things You Can Do to Stop ICE</a></li>\n  <li><a href=\"https://crimethinc.com/zines/seven-steps-to-stop-ice\">Seven Steps to Stop ICE</a></li>\n  <li><a href=\"https://crimethinc.com/2025/12/03/when-the-feds-come-to-your-city-standing-up-to-ice-a-guide-from-chicago-organizers\">When the Feds Come to Your City</a>: Standing Up to ICE—A Guide from Chicago Organizers</li>\n</ul>\n\n"
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      "summary": "A message from a participant in the Thousand Madleens to Gaza flotilla, which aims to deliver humanitarian aid to starving Gazans.",
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      "content_html": "<p class=\"darkred\">A <a href=\"https://www.cnn.com/2025/10/02/middleeast/gaza-famine-causes-vis-intl\">fome</a> tornou-se uma das principais armas com as quais o governo israelense busca exterminar a população de Gaza. Em 1º de outubro, o exército israelense <a href=\"https://apnews.com/article/israel-gaza-flotilla-italy-spain-000441922caa2c88cf73203e83d3e6e2\">atacou</a> a flotilha Sumud, uma frota de navios que tentava romper o cerco em torno de Gaza para entregar ajuda humanitária tão necessária. Pessoas ao redor do mundo protestaram em resposta — notadamente na Itália, onde milhões de pessoas lotaram as ruas durante quatro dias consecutivos de manifestações. Mas outra flotilha,  <a href=\"https://www.thousandmadleens.org/\">Thousand Madleens to Gaza</a>, está logo atrás da Sumud. Aqui, apresentamos a declaração de um dos participantes.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/10/05/1.jpg\" />\n</figure>\n\n<hr />\n\n<p>Estou escrevendo a 480 quilômetros da costa de Gaza. Sou velejador a bordo do Soul of My Soul, um barco financiado e apoiado pela<a href=\"https://mutualaiddisasterrelief.org/\">Mutual Aid Disaster Relief</a>, uma organização anarquista de resposta a desastres na América do Norte. Fazemos parte da flotilha <a href=\"https://www.thousandmadleens.org/\">Thousand Madleens</a>. Nossa missão é romper o cerco a Gaza — desafiar o domínio de Israel, chegando com alguns veleiros decadentes cheios de fórmulas infantis e medicamentos.</p>\n\n<p>Não sou um fanático. Sei quão pequenas são as nossas chances de superar o bloqueio imposto pelas Forças de Ocupação de Israel. Se estamos fadados a ser atacados com canhões de água, abordados, presos e sequestrados, como aconteceu com nossos camaradas da Flotilha Global Sumud há alguns dias, então está claro que o poder não está conosco, mas com vocês. Quero que saibam sobre nós, sobre mim, e quero que partam para suas próprias <a href=\"https://crimethinc.com/2017/03/14/direct-action-guide\">ações</a>.</p>\n\n<p>Sou velejador. Alguns preferem vans, outros pequenas cabanas na floresta, mas veleiros sempre foram minha praia. Nunca imaginei que minha inclinação por velejar em veleiros de plástico antigos dos anos 1970 pudesse ser relevante para qualquer luta política, muito menos para uma tão central. Acabei aqui quando recebi um chamado procurando um companheiro para passar um tempo no mar. Agarrei a oportunidade. Como estilo de vida, velejar por conta própria é tão marginal para a luta política quanto se pode imaginar, mas aqui estou eu.</p>\n\n<p>Não deixe que ninguém lhe diga que suas paixões são marginais demais para fazer parte da nossa luta maior pela liberdade. Não sou um ativista veterano, nem mesmo um marinheiro profissional. Se eu cheguei aqui, você também pode.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/10/05/3.jpg\" />\n</figure>\n\n<p>Nosso barco ilustra como anarquistas podem se conectar a essas campanhas políticas mais amplas e altamente visíveis, mantendo-se fiéis às nossas convicções. Sei que muitos de nós evitamos ativismos como esse — grandes organizações com um escritório administrativo e ações centradas nos olhos da mídia. Nosso barco era auto-organizado, com recursos e compras de camaradas. Reunimos nosso próprio equipamento, apoio jurídico e tripulação e, no final, nos conectamos à organização maior, quando estávamos totalmente formados. Talvez nosso barco seja um pouco como um grupo de afinidade. Isso nos preservou algum grau de autonomia e poder de decisão, e ainda podemos navegar com nossos camaradas como uma frota.</p>\n\n<p>Muitas vezes me perguntam qual é o objetivo do nosso movimento de flotilha. É um ato em grande parte simbólico? Há alguma chance de conseguirmos passar?</p>\n\n<p>Meus próprios sentimentos mudaram muitas vezes. Há precedentes históricos de barcos que conseguiram passar. Alguns conseguiram antes do ataque letal ao <a href=\"https://www.aljazeera.com/features/2020/5/30/a-decade-has-passed-but-the-mavi-marmara-killings-i-saw-still-shape-me\">Mavi Marmara</a> em 2010. Não é como se a ideologia política e a animosidade de Israel contra o povo palestino fossem muito diferentes naquela época.</p>\n\n<p>Mas tenho acompanhado as notícias aqui no mar, e vemos enormes ondas de protestos contra o genocídio irrompendo pelo mundo em resposta ao ataque à flotilha Sumud. Isso me permitiu entender nosso propósito aqui. Somos apenas um ponto de encontro. O mundo está farto do bombardeio assassino de Israel e do cerco brutal a Gaza, e estamos oferecendo uma oportunidade para encher as ruas do mundo mais uma vez — desta vez para acabar com isso.</p>\n\n<p>Se houver alguma chance de a flotilha das Mil Madleens chegar às costas de Gaza, será porque todos vocês a exigem. Se vocês se levantarem em defesa da Palestina em todo o mundo, as águas políticas poderão se abrir diante de nós. Talvez sejamos o primeiro fio de água de um corredor marítimo popular.</p>\n\n<p>Por favor, ajam como puderem, o mais alto e decisivamente possível. Vocês vão para as ruas, e nós vamos para o mar.</p>\n\n<p>Palestina livre.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/10/05/2.jpg\" />\n</figure>\n\n"
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      "title": "Catharsis: \"Hope against Hope\" : Novo Disco Totalmente Inédito de Uma Banda Hardcore Radical",
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      "content_html": "<p>Já faz muito tempo desde o nosso último <a href=\"https://crimethinc.bandcamp.com/\">lançamento musical</a> — mas tempos desesperados exigem medidas desesperadas. Lutando contra uma onda de autoritarismo e desespero, a <a href=\"https://www.kerrang.com/the-united-states-of-hardcore\">principal banda de hardcore da Carolina do Norte</a>, Catharsis, gravou um álbum totalmente inédito, “<a href=\"https://crimethinc.bandcamp.com/album/hope-against-hope\">Hope Against Hope</a>.” Você já pode baixá-lo aqui ou encomendar o LP em vinil <a href=\"https://nogods-nomasters.com/nogodsnomasters/produto/catharsis_hope_against_hope/\">aqui</a>. Também está disponível nas plataformas de <a href=\"https://open.spotify.com/artist/1sNI7EQXh4V01DvVVTER2l\">streaming</a> <a href=\"https://music.apple.com/us/album/hope-against-hope/1827454416\">habituais</a>.</p>\n\n<p>Este disco retoma de onde o <a href=\"https://crimethinc.bandcamp.com/album/arsonists-prayer\">último material</a> da banda parou, continuando a expandir os limites em termos do que o hardcore pode fazer. Eles não retomam o caminho que trilharam em seus álbuns anteriores, mas avançam para um território cada vez mais áspero e dinâmico. Politicamente, eles permanecem intransigentemente radicais em suas vidas, bem como em suas letras. O hardcore extrai seu poder dramático da conexão entre palavra e ação; esta não é uma banda que desacelerou, abaixou o tom ou suavizou.</p>\n\n<p class=\"darkred\">Você pode ler uma resenha deste disco <a href=\"https://the-counterforce.org/catharsis-hope-against-hope/\">aqui</a>, cortesia da <em>The Counterforce,</em> uma publicação underground de hardcore. Você pode ler uma entrevista que Kim Kelly fez com a banda <a href=\"https://salvo.ghost.io/catharsis-rebirth-and-hope/\">aqui</a>.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<a href=\"https://store.crimethinc.com/products/catharsis-hope-against-hope-lp\"><img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/08/01/2.jpg\" /></a>\n</figure>\n\n<p>Fiéis às suas raízes no underground “faça você mesmo”, Catharsis está lançando o álbum pela CrimethInc. nos Estados Unidos, pela <a href=\"http://refusemusic.net/\">Refuse Records</a> na Europa e pela <a href=\"https://nogods-nomasters.com/nogodsnomasters/produto/catharsis_hope_against_hope/\">No Gods No Masters</a> na América do Sul. A banda gravou a bateria com Benny Grotto no Mad Oak Studios e gravou o restante por conta própria. Para os backing vocals, o Catharsis recrutou os vocalistas de algumas de suas bandas de hardcore favoritas: Gosia (das bandas polonêsas Mind Pollution, Next Victim e <a href=\"https://sorrow666.bandcamp.com/\">Sorrow</a>), da brasileira <a href=\"https://xpointofnoreturnx.bandcamp.com/\">Point of No Return</a> e das bandas Scarecrow e Vittna, da Carolina do Norte. Mixado por Kurt Ballou no God City Studio e masterizado por Scott Crouse, “Hope Against Hope” é tão explosivo quanto os nossos tempos.</p>\n\n<p>Vinte e quatro anos se passaram desde que o Catharsis lançou seu último disco, o LP dividido com “Arsonist’s Prayer”, embora tenham completado <a href=\"https://crimethinc.bandcamp.com/album/absolution\">outra música</a> dessa sessão para sua <a href=\"https://crimethinc.com/2012/12/18/catharsis-discography-and-reunion-shows\">discografia</a> em 2012. Mas eles têm tocado juntos regularmente desde 2013, adicionando Jimmy Chang (do Undying e do Sect), que deixou a banda em 1995, à formação que gravou o LP “<a href=\"https://crimethinc.bandcamp.com/album/passion\">Passion</a>”. Já era hora de gravar outro álbum, aproveitando ao máximo o material reunido ao longo de duas décadas. Na verdade, o Catharsis nunca soou melhor.</p>\n\n<p>“Hope Against Hope” é um ataque a uma sociedade autodestrutiva e um farol de inspiração para todos aqueles que estão determinados a sobreviver.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/08/01/3.jpg\" />\n</figure>\n\n<p>Nas palavras dos próprios músicos:</p>\n\n<blockquote class=\"darkred\">\n  <p>Gravamos um novo álbum, Hope Against Hope.</p>\n\n  <p>Este é o nosso primeiro lançamento completo em 26 anos. Trabalhamos nessas músicas há muito tempo — se você nos viu em turnê no outono de 2000, viu uma versão inicial da mais antiga.</p>\n\n  <p>Ainda somos a mesma banda, nós quatro que gravamos o LP Passion e Jimmy, que deixou a banda há quase trinta anos e teve que esperar até que nos reuníssemos em 2012 para voltar a tocar conosco. Ainda somos as mesmas pessoas, apenas alguns anos mais velhos, alguns anos mais raivosos, mais desolados, mais assombrados pela brutalidade da nossa sociedade, mais convencidos da urgência da nossa missão. Continuamos fazendo o que sempre fizemos, metabolizando nossa dor em fúria, nosso desespero em determinação, estendendo a mão a vocês através dos abismos que nos dividem, buscando dar esperança aos corações rebeldes.</p>\n\n  <p>Ainda é verdade que, se o mundo em que merecemos viver não existe, então nossos esforços desajeitados para trazê-lo à existência são a coisa mais próxima dele que podemos experimentar, e são também a melhor forma de lamentar nossa distância desse mundo, a melhor maneira de honrá-lo e de honrar o que há de mais nobre em nós. <em>Hope Against Hope</em> é a nossa humilde contribuição.</p>\n\n  <p>Para nós, hardcore não é um estilo de música para dançar ou uma estratégia de marketing. Hardcore ainda é uma sociedade secreta em guerra com o mundo, um modo de vida em luta contra tudo o que nos cerca que é mesquinho e servil, uma forma de lutar para defender a beleza do mundo.</p>\n\n  <p>Para todos, contra todos.</p>\n</blockquote>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<a href=\"https://catharsis.band/\"> <img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/08/01/6.jpg\" /> </a>   <figcaption>\n    <p>Você pode baixar a letra da música em <a href=\"https://catharsis.band/\">catharsis.band</a>.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Mais informações sobre a banda estão disponíveis <a href=\"http://linktr.ee/catharsis_nc\">aqui</a>, incluindo atualizações sobre próximos shows.</p>\n\n<h1 id=\"resenhas\"><a href=\"#resenhas\"></a>Resenhas</h1>\n\n<blockquote>\n  <p>Um disco que parece menos um retorno e mais uma declaração esculpida em três décadas de luta.</p>\n\n  <p>As músicas giram em torno do colapso, da memória e da resistência — desde a abertura sombria de “Nocturne” até o peso hino de “We Live” e “Last Words”.</p>\n\n  <p>Hope Against Hope é exatamente isso: um lembrete de que mesmo em desespero, ainda há terreno para se firmar e razões para seguir em frente.</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://idioteq.com/in-shorts-new-releases-july-25-august-1st/\">Idioteq</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>“Hope Against Hope” não é uma tentativa de atualizar ou perseguir imitadores — na verdade, é uma advertência a eles. […]</p>\n\n  <p>“Gone to Croatan” e “Power” oscilam entre o desconforto e o ritual, evocando não tanto o pós-hardcore/metal como o entendemos hoje, mas sim uma ideia de hardcore que se conformou com o fim das ilusões. “Eremocene”, em termos de estrutura, inspiração e intensidade, é talvez o ápice do álbum: uma música que transforma a ansiedade geológica e a consciência do colapso em algo lírico e implacável, como se o Catharsis tivesse encontrado uma maneira de cantar sobre a extinção sem se resignar a ela. […]</p>\n\n  <p>Em uma era em que a urgência política do hardcore é frequentemente digerida e cuspida como estética ou código formal, Catharsis rejeita a retórica e reapropria uma postura que sempre rejeitou atalhos: a do comprometimento como uma escolha de longo prazo, da arte como uma forma de responsabilidade.</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://metalitalia.com/album/catharsis-hope-against-hope/\">Metal Italia</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>Um dos inovadores originais do hardcore metal retorna com um dos álbuns mais ferozes e implacáveis ​​da década. Catharsis é tudo o que o hardcore aspira ser — esmagador, afiado e acompanhado por um reconhecimento político franco do mundo em que vivemos, não por bravatas vazias. Hope Against Hope lida com uma melancolia paralisante que, em última análise, é superada pela fúria.</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://noobheavy.com/the-best-things-we-heard-in-august/amp/\">Noob Heavy</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>Vamos começar com uma pergunta: Merecemos um novo álbum do Catharsis?</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://www.impattosonoro.it/2025/08/04/recensioni/catharsis-hope-against-hope/\">Impatto Sonoro</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>Catharsis dispensa apresentações.</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://crustwithstrings.blogspot.com/2025/07/catharsis-gone-to-croatan-2025-song.html\">Crust with Strings</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>Hope against Hope é um triunfo da arte coincidindo com a vida.</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://misanthropypurist.substack.com/p/fresh-takes-catharsis-hope-against\">This World Scares Me</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>Poderíamos dizer que é difícil voltar esperando causar uma impressão tão grande quanto com o LP Passion, mas depois de ouvir este, entendemos que isso acontece naturalmente.</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://www.metalorgie.com/groupe/Catharsis/37402-hope-against-hope\">MetalOrgie</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>A banda continua o caminho traçado em seus últimos lançamentos, mas aprofunda sua agressividade e expande seu som.</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://radiostudent.si/glasba/tolpa-bumov/catharsis-hope-against-hope\">Radio Student</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>Catharsis explora a essência primordial da cena hardcore.</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://www.popmatters.com/best-metal-albums-august-2025\">PopMatters Best Metal Albums of August 2025</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>O Catharsis não voltou para nos lembrar da música que eles criaram; em vez disso, eles vieram para nos mostrar o que podem fazer hoje — e que tudo é possível.</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://melodylane.gr/posts/catharsis-hope-against-hope/\">Melody Lane</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>Eles são uma inspiração para nós e um grande exemplo do que defendemos e do que gostaríamos que o metal antifascista se tornasse: anticapitalista, em oposição às estruturas comerciais da indústria musical, livre, organizado horizontalmente, irrestrito, desenfreado.</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://abmn.noblogs.org/catharsis/\">Antifascist Black Metal Network</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>Não consegui pensar muito sobre o que o Catharsis 2025 poderia ser, nem criar qualquer expectativa além daquela onda repentina de entusiasmo, mas é seguro dizer que eles lidaram com qualquer tipo de peso que uma ausência de duas décadas e meia de uma banda icônica poderia ter criado com sua típica classe e naturalidade. Fizeram isso simplesmente sendo eles mesmos, como sempre foram.</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://thedevilsmouth.substack.com/p/the-devils-month-august-2025\">The Devil’s Mouth</a></p>\n</blockquote>\n\n<blockquote>\n  <p>Tenho que dizer que é muito bom.</p>\n\n  <p>-<a href=\"https://the-counterforce.org/catharsis-hope-against-hope/\">The Counterforce</a></p>\n</blockquote>\n\n<hr />\n\n<p>O Catharsis se apresentará nos Estados Unidos e na Europa nos próximos três meses.</p>\n\n<h1 id=\"shows-nos-eua-agosto-outubro-de-2025\"><a href=\"#shows-nos-eua-agosto-outubro-de-2025\"></a>Shows nos EUA, agosto-outubro de 2025</h1>\n\n<ul>\n  <li>8 de agosto  - Durham, North Carolina: <a href=\"https://www.etix.com/ticket/p/41995422/catharsis-scarecrow-cyprian-durham-the-pinhook\">The Pinhook</a></li>\n  <li>9 de agosto - Asheville, North Carolina: <a href=\"https://www.eventbrite.com/e/catharsis-flora-in-silence-fliora-serrate-tickets-1471530670849\">Sly Grog Lounge</a></li>\n  <li>10 de agosto - Atlanta, Georgia: <a href=\"https://www.eyedrum.org/calendar-events-performances-art-music/catharsis\">Eyedrum</a></li>\n  <li>12 de setembro  - New York City, New York: <a href=\"https://www.instagram.com/p/DN0h_jHYs9I/\">Property Is Theft</a>, Brooklyn</li>\n  <li>13 de setembro - <a href=\"https://www.instagram.com/p/DN3G1VkYiQD/\">Providence</a>, Rhode Island</li>\n  <li>10 de outubro - Raleigh, North Carolina: Kings</li>\n  <li>11 de outubro - Richmond, Virginia</li>\n  <li>12 de outubro - Washington, DC: <a href=\"https://www.instagram.com/p/DNOHioXxOjR/\">St. Stephen’s</a></li>\n  <li>\n    <p>13 de outubro - Philadelphia, Pennsylvania: <a href=\"https://www.instagram.com/p/DOWZ-A0kf6A\">Bonks</a></p>\n\n    <figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/08/01/4.jpg\" />\n    </figure>\n  </li>\n</ul>\n\n<h1 id=\"turne-europeia-15-a-25-de-outubro-de-2025\"><a href=\"#turne-europeia-15-a-25-de-outubro-de-2025\"></a>Turnê europeia, 15 a 25 de outubro de 2025</h1>\n\n<ul>\n  <li>16 de outubro - Varsóvia, Polônia: Voodoo Club com Point Of No Return, Ghostchant, Moira</li>\n  <li>17 de outubro - Cracóvia, Polônia: Alchemia com Point Of No Return, Ghostchant, Moira, Reagnition</li>\n  <li>18 de outubro -Budapeste, Hungria: Turbina com Point Of No Return, Ghostchant, Vlky</li>\n  <li>19 de outubro - Zagreb, Croácia: Ataque AKC com Vlky</li>\n  <li>20 de outubro - Bolonha, Itália: Freakout</li>\n  <li>21 de outubro - Munique, Alemanha: Kafe Kult</li>\n  <li>22 de outubro - Viena, Áustria: Tüwi com Vlky</li>\n  <li>23 de outubro - Brno, República Tcheca: Kabinet MUZ</li>\n  <li>24 de outubro - Schweinfurt, Alemanha: Stattbahnhof</li>\n  <li>\n    <p>25 de outubro, - Berlim, Alemanha: Neue Zukunft com Medida Corretiva, Moira</p>\n\n    <figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/08/01/1.jpg\" />\n    </figure>\n  </li>\n</ul>\n\n"
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      "content_html": "<p>Uma onda de protestos explodiu na Indonésia no final de agosto de 2025. Neste relato, apresentamos uma entrevista com um anarquista indonésio preso, juntamente com várias declarações de grupos anarquistas que chegaram a veículos de língua inglesa desde o início da revolta.</p>\n\n<hr />\n\n<p>Após semanas de protestos em toda a Indonésia em resposta às medidas de austeridade, manifestantes se reuniram em grande número na semana de 25 de agosto para acusar a elite política indonésia de insensibilidade e corrupção.</p>\n\n<p>O governo indonésio fornece aos representantes parlamentares um salário mensal de 100 milhões de rupias (cerca de US$ 6.081) — cerca de 30 vezes o salário mínimo em Jacarta, onde se encontram os maiores salários do país.<sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">1</a></sup> A indignação explodiu quando circularam notícias de que os parlamentares estavam recebendo 50 milhões de rupias adicionais por mês em auxílio-moradia. A notícia foi divulgada em meio a uma inflação intensa, uma nova rodada de medidas de austeridade e o agravamento da pobreza.</p>\n\n<p>Sindicatos, anarquistas, estudantes, esquerdistas, jovens e outros manifestantes lotaram as ruas na semana de 25 de agosto. Sofreram dura repressão por parte da polícia a serviço do atual presidente, Prabowo Subianto, que anteriormente foi ministro da Defesa. Em 28 de agosto, um carro blindado da Brigada Móvel da Polícia Nacional atropelou e matou Affan Kurniawan, um entregador de 21 anos que se dirigia para entregar comida.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/09/04/4.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Um manifestante na Indonésia segura uma placa com os dizeres “Affan Kurniawan — morto pela polícia”.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Em resposta ao assassinato de Affan, entregadores, anarquistas e jovens de diversas outras etnias se revoltaram. Manifestantes saquearam diversas delegacias de polícia, queimaram e saquearam casas de políticos e incendiaram prédios governamentais.</p>\n\n<p>Essa situação forçou o primeiro-ministro a não comparecer à cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) da China. O governo sugeriu que poderia cortar alguns dos benefícios concedidos aos políticos e algumas das medidas de austeridade que desencadearam a revolta. No entanto, o presidente Prabowo Subianto intensificou a repressão e convocou o exército, resultando em pelo menos seis mortes — incluindo um estudante espancado até a morte pela polícia em Yogyakarta, Java, e um motorista de riquixá que morreu devido à exposição a gás lacrimogêneo em Solo, Java. O número total de mortos permanece desconhecido.</p>\n\n<p>Sob o domínio colonial holandês até 1949, a Indonésia permanece amargamente polarizada, com tremendas desigualdades de riquezas e poder; na década de 1960, a violência contra membros e supostos simpatizantes do Partido Comunista da Indonésia (PKI) ceifou centenas de milhares de vidas. O movimento anarquista contemporâneo surgiu no final da década de 1980, em parte graças aos esforços de uma ativa cena punk rock. A polícia introduziu uma divisão “anti-anarquia” em 2011 e, em múltiplos incidentes, aqueles percebidos como anarcopunks foram sequestrados e encarcerados em campos de reeducação sancionados pelo Estado. Apesar disso, o movimento anarquista continuou a crescer diante da adversidade.</p>\n\n<p>Com uma repressão estatal sem precedentes ocorrendo em todo o planeta, as ações corajosas de rebeldes na Indonésia são profundamente inspiradoras para todas as pessoas que rejeitam a ordem mundial capitalista. Manifestantes na Indonésia relataram diversas formas de <a href=\"https://safenet.or.id/2025/08/statement-on-digital-repression-during-the-august-2025-indonesian-protests/\">repressão à comunicação digital</a>, e é provável que estas se intensifiquem se o conflito continuar a se agravar. Esperamos que este relatório preliminar possa chamar a atenção para a situação, incentivando pessoas em outras partes do mundo a aprender mais e agir em solidariedade.</p>\n\n<p>Affan Kurniawan não será esquecido, nem seus assassinos perdoados. Solidariedade com os corajosos que garantem isso nas ruas.</p>\n\n<p><em>-Anarquistas em solidariedade à revolta na Indonésia</em></p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/09/04/7.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Manifestantes se reúnem em frente à Sede da Polícia Regional de Jacarta.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"uma-conversa-com-o-prisioneiro-e-autor-anarquista-bima\"><a href=\"#uma-conversa-com-o-prisioneiro-e-autor-anarquista-bima\"></a>Uma Conversa Com o Prisioneiro e Autor Anarquista Bima</h1>\n\n<p class=\"darkred\">Bima é um escritor, tradutor e pesquisador independente anarquista da Indonésia, preso desde 2021. Ele continua ativo atrás das grades como membro de uma federação anarquista. Ele também é o fundador da editora “faça você mesmo” <a href=\"https://www.instagram.com/pustakacatut?igsh=aWFzcXg3ODB1MjVy\">Pustaka Catut</a> e autor do livro <em><a href=\"https://www.minorcompositions.info/?p=1596\">Anarchy in Alifuru: The History of Stateless Societies in the Maluku Islands</a></em>, publicado pela Minor Compositions. Você pode apoiar Bima pelo <a href=\"https://www.patreon.com/pustakacatut\">Patreon</a> e aprender mais com uma <a href=\"https://www.firefund.net/pustakacatut\">campanha no FireFund</a> já ativa para ele.</p>\n\n<p class=\"darkred\">Realizamos esta entrevista com Bima nos primeiros dias de setembro de 2025.</p>\n\n<p><strong>Como você gostaria de se apresentar?</strong></p>\n\n<p>Sou escritor, prisioneiro e membro de uma federação anarquista que opta por permanecer anônima por razões de segurança neste momento assustador.</p>\n\n<p><strong>Você pode dar algum contexto sobre a revolta atual?</strong></p>\n\n<p>Essa onda de rebelião, que começou no final de agosto de 2025, foi causada pelo acúmulo de revolta em torno de diversas questões políticas e econômicas. Não havia uma única questão. Mas tudo se agravou devido aos aumentos massivos dos impostos imobiliários em toda a região, devido ao déficit orçamentário do governo.</p>\n\n<p>Ao mesmo tempo, os parlamentares receberam um aumento salarial de dez vezes maior. Isso foi agravado por declarações frequentemente arbitrárias de autoridades. Por exemplo, o Regente de Pati (o político responsável por supervisionar o governo local, as políticas e os serviços públicos na Regência de Pati, Java Central, Indonésia) afirmou que “os impostos não seriam reduzidos, mesmo que ocorresse uma manifestação em massa de 50.000 pessoas”.</p>\n\n<p>Pati foi a primeira cidade a explodir, com uma participação de cerca de 100.000 pessoas em 10 de agosto de 2025. Os protestos contra o aumento de impostos se espalharam para Bone (na província de Sulawesi do Sul) e, em seguida, para outras cidades. Durante uma manifestação em 28 de agosto em Jacarta, um entregador de um aplicativo de entrega de comida online foi morto após ser atropelado por uma viatura policial durante os protestos. No dia seguinte, as manifestações se espalharam por muitas cidades e continuam até hoje, enquanto escrevo.</p>\n\n<p>Pelo menos seis civis foram mortos diretamente como resultado da repressão policial até agora, casas de várias autoridades foram saqueadas e meia dúzia de escritórios da Câmara dos Representantes foram parcialmente queimados ou incendiados. Estávamos confiantes de que essa rebelião iria se acalmar, mas a indignação da população não.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/09/04/6.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Estudantes enfrentam a polícia durante um protesto na Sede Regional da Polícia em Jacarta, Indonésia, em 29 de agosto de 2025.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p><strong>Que tipos de grupos estiveram envolvidos na revolta? E até que ponto eles estão unidos?</strong></p>\n\n<p>Existem muitas organizações, redes e grupos formulando demandas. Pode-se dizer que cada cidade tem suas próprias demandas.</p>\n\n<p>Geralmente, há duas demandas “revolucionárias”: a primeira do partido socialista da Indonésia, Perserikatan Sosialis (PS), e a outra, uma rede frouxa, informal e descentralizada que emitiu a <a href=\"https://forumvooranarchisme.nl/en/post/proclamation-of-the-indonesian-federalist-revolution-2025\">Declaração da Revolução Federalista Indonésia de 2025</a>, que pede a dissolução do estado unitário e do sistema DPR (Câmara dos Representantes da Indonésia) e sua substituição por um Confederalismo Democrático de milhares de conselhos populares para a implementação da democracia direta. Ahmad Sahroni, membro da Câmara dos Representantes (DPR) do Partido Nacional Democrático (NasDem), chamou essas demandas de “estúpidas”. Isso resultou no ataque e saque de sua casa no norte de Jacarta em 30 de agosto.</p>\n\n<p>Anarquistas insurrecionais, individualistas e pós-esquerdistas concentram-se em ataques e confrontos de rua, pedindo a destruição do Estado e do capitalismo, mas sem se preocupar com uma plataforma ou um programa de reivindicações que simplesmente exija a reforma do que já existe.</p>\n\n<p>Geralmente não há uma frente unida, mas evitamos o sectarismo ideológico excessivo.</p>\n\n<p>Infelizmente, também existem liberais progressistas com reivindicações mais reformistas, como a reivindicação <a href=\"https://en.tempo.co/read/2045717/what-is-the-178-peoples-demands-a-popular-discourse-on-indonesias-social-media\">17+8</a> (um slogan ativista “pró-democracia” que exige que as reivindicações reformistas sejam atendidas até 5 de setembro de 2025). Esse grupo é altamente inspirado por influenciadores digitais liberais que pedem o fim dos protestos. Esses influenciadores chegaram a afirmar que os manifestantes serão responsabilizados se os militares declararem lei marcial devido à resistência demonstrada nas ruas (um típico gaslighting centrista recuperativo e demonização da resistência e das organizações revolucionárias). Felizmente, todos os elementos de esquerda e anarquistas concordam que os protestos devem se intensificar. Ainda não sabemos o que acontecerá, pois essa guerra de discursos ainda está em andamento.</p>\n\n<p>Honestamente, há muitos grupos envolvidos na revolta para oferecer uma resposta simples. Todo o movimento de esquerda e anarquista, de diversas organizações, foi às ruas, mas não havia uma frente unida. Em cada cidade, elementos progressistas da sociedade, fossem estudantes universitários, sindicatos ou mesmo estudantes, consolidaram suas ações. Algumas ações foram orgânicas e surgiram como iniciativas comunitárias descoordenadas, como os ataques a postos e delegacias de polícia, nos quais vários deles foram incendiados.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/09/04/5.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Um posto policial de trânsito pega fogo em 29 de agosto de 2025.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p><strong>Como anarquistas estão contribuindo para a revolta?</strong></p>\n\n<p>Sou um pessimista revolucionário, influenciado pelo discurso do anarco-niilismo. Mas ainda defendo a revolução social porque não existe espaço social vazio. A Indonésia é o arquipélago mais multicultural do mundo, com milhares de etnias e línguas. Um discurso separatista está surgindo em algumas regiões. Alguns nobres de antigas monarquias estão pressionando pelo revivalismo. Há também fundamentalistas islâmicos autoritários e jihadistas que querem um califado no país. Portanto, acho impossível para os revolucionários não oferecerem seu programa como alternativa a todas essas possibilidades ruins. A onda de rebelião é um sintoma da grande divisão iminente, e os anarquistas devem assumir um papel. Caso contrário, as escolhas são ruins. Muito, muito ruins.</p>\n\n<p><strong>O que você acha que vai acontecer com essa revolta? E o que você vê para o futuro do movimento anarquista na Indonésia?</strong></p>\n\n<p>Estou pessimista em relação a isso. Nos estabelecemos em várias cidades, mas somos relativamente fracos no geral, embora sejamos fundamentalmente bastante militantes.</p>\n\n<p>Somos influenciados pela abordagem uruguaia do <a href=\"https://bibliotecaanarquista.org/library/adam-weaver-especifismo-a-praxis-anarquista-de-construir-movimentos-sociais-e-organizacoes-revo\">Especifismo</a>, que envolve uma organização de dois níveis. Isso significa que, além de nos filiarmos a organizações políticas, também nos filiamos a organizações de base, como sindicatos, organizações estudantis, organizações indígenas e assim por diante.</p>\n\n<p>Ainda usamos a definição clássica de revolução, mas isso requer uma forte base organizacional popular para que aconteça. Apesar disso, as recentes revoltas têm se repetido como um ciclo rotineiro desde <a href=\"https://crimethinc.com/2024/09/23/anarchists-on-the-wave-of-protest-in-indonesia\">2019</a>. Isso nos entusiasma porque significa que devemos nos esforçar para acompanhar o ritmo das revoltas populares e a vontade das massas. Mas precisamos crescer e aumentar nossa militância para permanecermos relevantes no ritmo da fúria popular.</p>\n\n<p>Não acredito que haverá reforma a menos que haja uma derrubada violenta do poder e o titular prometa reforma. A atual classe dominante formou uma coalizão inchada que abraça toda a sua antiga oposição e “lhes dá uma fatia do bolo”. Até agora, somos os únicos membros da rede antiautoritária informal e descentralizada que pede a destituição do presidente e do vice-presidente. O problema é que não houve nenhuma demanda pela sua destituição. Portanto, a reforma ainda levará tempo e uma revolução anarquista é impossível devido às fragilidades organizacionais e à ausência de sindicatos progressistas capazes de liderar uma greve nacional.</p>\n\n<p>No entanto, a demanda orgânica do povo pela dissolução do parlamento por meio da hashtag #bubarkanDPR [“dissolver a DPR”, Câmara dos Representantes da Indonésia], o envolvimento de uma massa mais diversa de pessoas nos protestos (a Indonésia é conhecida por romantizar o vanguardismo estudantil em 1965 e 1998) e o uso da violência representam um progresso que teria sido inimaginável uma década atrás. Anarquistas desempenharam um papel crucial nisso. Ainda assim, eu pessoalmente não acredito que o movimento anarquista levará a uma revolução anarquista, mesmo que a oportunidade exista. Mas ele poderia exercer uma enorme influência libertária por meio de uma frente unida trabalhando dentro de grupos estabelecidos. Por exemplo, a proposta de um <em>confederalismo democrático</em> revolucionário, que está de fato em linha com as propostas anarquistas clássicas, provavelmente seria aceita por todo o espectro da esquerda existente e dos movimentos separatistas de libertação nacional em algumas regiões. Talvez.</p>\n\n<p>Os protestos de 2020 contra a Lei do Ônibus também foram significativos, mas a revolta deste ano é a mais sangrenta, a mais devastadora e a mais envolvente (vimos uma radicalização significativa entre setores da sociedade). Ainda não superou a escalada observada durante a queda do regime militarista de Suharto em 1998. No entanto, estou confiante de que isso pode acontecer em breve.</p>\n\n<p>Infelizmente, não é de hoje que venho alertando que, quando chegar o momento esperado, não estaremos prontos para a revolução, embora respondamos principalmente participando de batalhas de rua.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/09/04/1.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Anarquistas bloquearam estradas e queimaram objetos durante tumultos noturnos na cidade de Bandung, Java Ocidental, enquanto carregavam bandeiras anarquistas vermelhas e pretas e a caveira <em>Jolly Roger</em> do One Piece.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"outras-vozes-da-indonesia\"><a href=\"#outras-vozes-da-indonesia\"></a>Outras Vozes da Indonésia</h1>\n\n<p>Além de entrevistar Bima, em 2 de Setembro, recebemos o seguinte relatório de Reza Rizkia em Jacarta:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>A onda de manifestações que começou em Agosto de 2025 em toda a Indonésia continua a se desenrolar, deixando um rastro de tragédia e agitação. O que começou como um protesto contra a proposta de auxílio-moradia mensal de 50 milhões de rúpias para parlamentares se transformou em um movimento nacional com reivindicações mais amplas: a avaliação do desempenho parlamentar, a reforma policial e o fim do uso excessivo da repressão pelas forças de segurança.</p>\n\n  <p>Em 28 de Agosto, as tensões aumentaram após um mototaxista, Affan Kurniawan, ser atropelado e morto por um veículo tático da Brigada Móvel (Brimob) em Bendungan Hilir, Jacarta. As imagens do incidente se espalharam rapidamente pelas redes sociais, gerando protestos de solidariedade de estudantes e comunidades de motoristas de aplicativos. A tragédia se tornou um ponto de virada, ampliando a escala das manifestações, tanto na capital, quanto no restante do país.</p>\n\n  <p>A violência logo se espalhou para outras grandes cidades. Em Makassar, protestantes atearam fogo no prédio do parlamento regional (DPRD), que matou três funcionários que ficaram presos dentro das instalações. Em Solo, um motorista de riquixás chamdado Sumari morreu nos confrontos, enquanto em Yogyakarta, o estudante Rheza Sendy Pratama foi morto durante uma manifestação em frente à sede da polícia regional. Outra vítima, Rusdmadiansyah, motorista de aplicativo, foi espancado até a morte por uma multidão após ser acusado de ser um agente de inteligência. Alguns relatos também apontam para outras vítimas, incluindo um estudante de uma escola profissionalizante em Pati. No total, pelo menos sete a oito pessoas perderam a vida em meio aos distúrbios até o final de Agosto.</p>\n\n  <p>O governo respondeu com condolências. O governo Prabowo Subianto ordenou uma investigação aberta, enquanto o chefe da Polícia Nacional e o chefe da Polícia de Jacarta emitiram desculpas públicas pelas vítimas. Sete oficiais da Brimob ligados à morte de Affan Kurniawan foram detidos e enfrentam processos judiciais. Ainda assim, a indignação pública mostra poucos sinais de abrandamento.</p>\n\n  <p>Em 2 de Setembro, as manifestações continuavam em várias regiões em uma contínua intensidade. Milhares de manifestantes foram detidos na semana passada, com pico de 29 de Agosto, quando mais de 1.300 pessoas foram presas em um único dia. Ao mesmo tempo, a Aliança de Jornalistas Independentes (AJI) relatou casos de violência e interferência contra jornalistas que cobriam os protestos.</p>\n\n  <p>As manifestações do final de Agosto marcam uma das maiores ondas de protestos dos últimos anos na Indonésia. Com o número crescente de mortos, prisões em massa e danos materiais generalizados, o público agora aguarda para ver se o governo e o parlamento responderão às demandas dos cidadãos com reformas genuínas — ou se correrão o risco de permitir que a crise se agrave ainda mais.</p>\n</blockquote>\n\n<figure class=\"video-container \">\n  <iframe src=\"https://player.vimeo.com/video/1115720610?title=0&amp;byline=0&amp;portrait=0\" frameborder=\"0\" webkitallowfullscreen=\"\" mozallowfullscreen=\"\" allowfullscreen=\"\"></iframe>\n  <figcaption class=\"caption video-caption video-caption-vimeo\">\n    <p>A bandeira nacional vermelha e branca foi baixada, substituída pela bandeira anarquista vermelha e preta e pela bandeira One Piece (agora um símbolo popular de resistência na Indonésia). O edifício que ardeu foi a Câmara dos Representantes da cidade de Pekalongan, na província de Java Central.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<p>Quando a revolta começou a ganhar destaque nas manchetes internacionais, anarquistas anônimos escreveram <a href=\"https://darknights.noblogs.org/post/2025/08/29/archipelago-of-fire-uprising-in-indonesia/\">várias declarações</a> descrevendo a situação a partir de sua perspectiva, usando o pseudônimo <em>Arquipélago de Fogo</em>. Queríamos incluir suas vozes aqui também.</p>\n\n<h2 id=\"de-agosto-2025\"><a href=\"#de-agosto-2025\"></a>25 de Agosto, 2025</h2>\n\n<p>“Jacarta já não pertence às elites corruptas. Milhares de pessoas de todos os cantos do país invadiram a capital. Não se trata apenas de um protesto, mas de uma explosão coletiva de raiva contra o aumento dos impostos sobre a habitação, a corrupção sem fim e os cães militares e policiais do Estado.”</p>\n\n<p>Do amanhecer à meia-noite, as ruas se transformam em um campo de batalha de desafio. Gritos, fogo e pedras se tornam a linguagem de fúria do povo.</p>\n\n<p>“Isto não é um espetáculo de marionetes das elites; é uma raiva crua, indomável, sem liderança e impossível de controlar.”</p>\n\n<h2 id=\"de-agosto-2025-1\"><a href=\"#de-agosto-2025-1\"></a>29 de Agosto, 2025</h2>\n\n<p>“A juventude revoltada está se levantando, provocada pelo aumento de impostos e pela repressão militar. Não há ordem; a insurreição tem como ponta de lança os jovens anarquistas, niilistas e insubmissos. Muitos estudantes anarquistas do ensino médio estão presos. E esses secundaristas são a força motriz. Cerca de 400 deles foram detidos em 25 de Agosto, segundo relatos. A maioria das ações é coordenada ao vivo nas mídias sociais.”</p>\n\n<p>“Normalmente, algum sindicato reformista ou partido da oposição controla as narrativas, mas não dessa vez. Até mesmo a grande mídia reconhece que as mídias sociais são a fonte da documentação. Os políticos não conseguem mais ditar o enredo. Há décadas, é tradição que os órgãos executivos estudantis sejam os organizadores desse tipo de manifestação, mas a cada ano esses intermediários estão sendo expostos. Pelos próprios estudantes. É por isso que ONGs, sindicatos, ‘anarquistas civis’ e o movimento estudantil de esquerda e de direita odeiam a corrente anti-organizacional.”</p>\n\n<p>“Que todos vão à merda. Nós provocamos os jovens a agirem por si próprios.”</p>\n\n<p>“Contas sociais anônimas com milhares de seguidores estão fazendo um apelo à insurgência antipolítica. Todos os dias, eles fazem bons chamados com boas explicações”</p>\n\n<p>“Ontem à noite (28 de Agosto de 2025), a polícia assassinou alguém. Motins continuaram em todo o país contra o aumento de impostos. Em várias cidades, as rebeliões foram espontâneas e auto-organizadas. A imagem pública da polícia continua a desmoronar à medida em que as pessoas apoiam os manifestantes. As células coordenaram outras coisas, e a maioria dos anúncios niilistas-insurrecionistas estão dominando a narrativa”</p>\n\n<p>“Contas sociais anônimas com milhares de seguidores estão fazendo um apelo à insurgência antipolítica. Todos os dias, eles fazem bons chamados com boas explicações”</p>\n\n<p>“Sindicalistas anunciaram que estariam nas ruas e que ‘não haveria tumultos’, mas os jovens e manifestantes zombam deles imediatamente nas redes sociais. Nós desistimos dos jovens. Só podemos estimulá-los a serem mais incontroláveis. À noite, à Internet ficou uma merda. Enquanto ‘anarquistas civis’ pedem conselhos populares, nós pedimos para mandar tudo à merda. Apenas fornecendo coordenação de rede e informações técnicas de ação nas ruas. Nós nunca organizamos realmente as pessoas.”</p>\n\n<p>“Na sexta-feira, 29, de Agosto, anarquistas praticamente controlavam a narrativa. Pessoas de todo o país respondendo a um chamado para atacar delegacias e os próprios policiais. A mídia de massa perdeu a posse de informações e notícias.”</p>\n\n<p>“Nossa rede continua pedindo vingança desde o assassinato pela polícia na noite passada, e a situação está fervendo ainda mais. As células estão nas ruas.”</p>\n\n<p>“Você pode acompanhar a revolta em vários meios de comunicação, embora todos os bons vídeos estejam apenas nas redes sociais.”</p>\n\n<p>-Arquipélago de Fogo.</p>\n\n<blockquote>\n  <pre><code>\"Isso tudo foi além do que nós previmos. Normalmente, durante uma manifestação, protestantes apenas jogavam pedras ou queimavam pneus em frente ao prédio. Eles nunca chegavam a invadir o edifício ou  incendiar.\"\n</code></pre>\n\n  <p>-<a href=\"https://darknights.noblogs.org/post/2025/08/30/this-is-beyond-our-prediction-usually-during-a-demonstration-protesters-only-threw-rocks-or-burn-a-tyre-in-front-of-the-office-they-never-stormed-into-the-building-or-burned-it/\">Anarquistas anônimos na Indonésia</a></p>\n</blockquote>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/09/04/2.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Pichações anarquistas vistas <a href=\"https://www.threads.com/@radicalgraffiti/post/DOFOk8MElEl/anarchist-graffiti-seen-in-lamongan-indonesia-during-the-ongoing-uprising-follow\">em Lamongan</a>, Indonésia, durante os atuais distúrbios.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"links-para-apoiar\"><a href=\"#links-para-apoiar\"></a>Links para Apoiar</h1>\n\n<ul>\n  <li><a href=\"https://www.firefund.net/indonesiansafehousenetwork\">Rede de Casas Seguras da Indonésia</a></li>\n</ul>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"para-ler-mais\"><a href=\"#para-ler-mais\"></a>Para Ler mais</h1>\n\n<ul>\n  <li><a href=\"freedomnews.org.uk/2025/09/01/indonesia-uprising-a-collective-eruption-of-rage/\">Indonesia Uprising: “A Collective Eruption of \nRage</a>” [September 1, 2025]</li>\n  <li><a href=\"https://pt.crimethinc.com/2024/09/23/anarquistas-en-la-ola-de-protestas-en-indonesia-1\">Anarquistas en la ola de protestas en Indonesia </a> [2024]</li>\n  <li><a href=\"https://www.infolibertaire.net/uma-breve-historia-do-anarquismo-na-indonesia/\">Uma breve história do anarquismo na indonésia</a> [2022]</li>\n  <li><a href=\"https://diyconspiracy.net/under-the-radar-anarchism-punk-indonesia/\">Under the Radar? The Changing Face of Repression Against Anarchism and Punk in Indonesia</a> [2021]</li>\n  <li><a href=\"https://sea.theanarchistlibrary.org/library/vadim-damier-kirill-limanov-anarchism-in-indonesia-en\">Anarchism in Indonesia</a> [2017]</li>\n  <li><a href=\"https://darknights.noblogs.org/post/2025/09/03/call-to-arms-insurrectionary-solidarity-with-indonesia/\">Call to Arms: Insurrectionary Solidarity with Indonesia</a></li>\n</ul>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"midias-sociais\"><a href=\"#midias-sociais\"></a>Mídias Sociais</h1>\n\n<ul>\n  <li><a href=\"https://www.instagram.com/serikattahanan?igsh=NTRlMHRyOHM5NHpw\">Serikat Tahanan</a> — Um sindicato coletivo de prisioneiros, administrado por presos anarquistas</li>\n  <li><a href=\"https://www.instagram.com/anfemclub?igsh=ejZzbGpjcDhkOWp1\">Anti-Feminist Feminist Collective</a> (Grupo Anarco-Feminista)</li>\n</ul>\n\n<figure class=\"video-container \">\n  <iframe src=\"https://player.vimeo.com/video/1115720621?title=0&amp;byline=0&amp;portrait=0\" frameborder=\"0\" webkitallowfullscreen=\"\" mozallowfullscreen=\"\" allowfullscreen=\"\"></iframe>\n  <figcaption class=\"caption video-caption video-caption-vimeo\">\n    <p>Imagens do tumulto que destruiu o prédio da Câmara dos Representantes na cidade de Pekalongan, Java Oriental. Uma pessoa atira fogos de artifício.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<div class=\"footnotes\" role=\"doc-endnotes\">\n  <ol>\n    <li id=\"fn:1\">\n      <p>Não existe um salário mínimo padrão na Indonésia; ele varia de acordo com a região. No entanto, de acordo com o <a href=\"https://www.aseanbriefing.com/doing-business-guide/indonesia/human-resources-and-payroll/minimum-wage\">ASEANBreifing</a>, o padrão mínimo em 2025 está entre 2.053.777,8 rupias (US$ 125) e 5.536.984,96 (US$ 337), dependendo de onde você mora. <a href=\"#fnref:1\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n  </ol>\n</div>\n"
    },
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      "content_html": "<p>Em 12 de maio de 2025, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (<em>Partiya Karkerên Kurdistanê,</em> PKK) anunciou sua dissolução após mais de quatro décadas de luta armada contra o governo turco. Isso ocorreu após um apelo do líder do PKK, Abdullah Öcalan, que estava preso, para dissolver a organização. Em 11 de julho, combatentes do PKK participaram de uma cerimônia em homenagem ao desarmamento. O que isso significará para os movimentos curdos de libertação e para o Oriente Médio em geral?</p>\n\n<p>Na análise a seguir, uma militante feminista curda se baseia em mais de dez anos de engajamento político e de pesquisa com o movimento de libertação curdo para explorar essas questões. Criada no Irã e radicada na diáspora, a autora, Soma.r, trabalhou em estreita colaboração com mulheres do PKK e permanece ativamente ligada ao movimento.</p>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"introducao\"><a href=\"#introducao\"></a>Introdução</h1>\n\n<p>Um grupo de combatentes do PKK foi simbolicamente desarmado em 11 de julho de 2025, na Caverna Jasna, localizada na região autônoma curda do Iraque. O local carrega um profundo significado histórico e político: em 1923, serviu como refúgio e base de comando durante os ataques coloniais britânicos. Naquele mesmo ano, a Caverna Jasna tornou-se uma gráfica clandestina do Bangî Haq (“Chamado da Verdade”), o primeiro jornal curdo revolucionário, fundado pelo jornalista Ahmad Khwaja. Esse ato uniu resistência anticolonial, luta política e jornalismo clandestino.</p>\n\n<p>Um século depois, o ato de desarmar aqui não é rendição — é uma declaração política, ecoando através de camadas do tempo. Traça uma linha entre o passado e o presente, invocando a memória como estratégia. Ao escolher Jasna, os combatentes nos lembram: <em>as revoluções podem mudar de forma, mas suas raízes são profundas</em>. Onde o império antes buscava silêncio, vozes curdas imprimiram a verdade. Onde as armas agora são depostas, novas lutas podem surgir — enraizadas na mesma terra, mas moldadas por novos imaginários.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/07/13/1.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Caverna de Jasna, local do desarmamento simbólico do PKK em 11 de julho de 2025.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Este ato ganha ainda mais ressonância à luz dos eventos recentes. Apenas dois dias antes, Abdullah Öcalan, o lendário líder do PKK, reapareceu em uma mensagem de vídeo — a primeira desde 1999 — clamando pelo fim da luta armada e instando por uma mudança definitiva em direção à política democrática. Este momento convida não apenas à comemoração, mas também à interpretação: como um movimento guerrilheiro, antes sinônimo de resistência armada, realiza transformação política por meio de atos simbólicos?</p>\n\n<p>Para compreender a autodissolução do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), devemos ter em mente a amplitude de sua base social, que abrange dezenas de milhões de pessoas. Desde a prisão de Öcalan em 1999, o movimento curdo na Turquia cresceu além de suas origens guerrilheiras, tornando-se um projeto político complexo, enraizado em diversos grupos urbanos e rurais, seculares e religiosos, curdos e não curdos — embora o proletariado permaneça central. Atualmente, opera por meio de uma estrutura híbrida que combina um braço armado em Qandil com uma ampla rede civil envolvendo sindicatos, municípios, partidos legais, organizações de mulheres, mídia e plataformas de solidariedade transnacional. Sua práxis política já foi territorial e transnacional, legal e clandestina, militarizada e profundamente social. Entre as mudanças mais transformadoras está a ascensão do Movimento de Libertação das Mulheres Curdas (KWLM), que reposicionou a emancipação de gênero como um núcleo simbólico e estratégico. Nas cartas de Öcalan, o projeto Rojava e o papel crescente do KWLM são consistentemente mantidos como as conquistas contemporâneas mais significativas do PKK.</p>\n\n<p>Em um acontecimento significativo para o cenário político curdo, o PKK anunciou sua dissolução após seu 12º Congresso. Essa decisão foi moldada por uma série de diálogos iniciados em outubro de 2024, envolvendo Abdullah Öcalan (por meio de seu sobrinho e da delegação do Partido da Igualdade e Democracia dos Povos) e motivada por declarações do líder do Partido do Movimento Nacionalista (<em>Milliyetçi Hareket Partisi,</em> MHP), Devlet Bahçeli, um partido político de extrema direita e ultranacionalista na Turquia. Öcalan enfatizou a necessidade de transição da questão curda da luta armada para a política democrática, afirmando ter capacidade para liderar essa mudança se as condições permitissem.</p>\n\n<p>Em resposta, o PKK iniciou consultas internas e expressou sua disposição de concordar com a realização de um congresso sob a liderança de Öcalan. Em 27 de fevereiro de 2025, Öcalan emitiu um “Apelo à Paz e a uma Sociedade Democrática” formal, instando o PKK a encerrar suas atividades armadas e a assumir a responsabilidade de alcançar uma resolução pacífica. Em resposta, o PKK declarou um cessar-fogo unilateral em 1º de março. Em seguida, realizou-se o 12º Congresso da organização, onde a decisão de dissolver o PKK e encerrar sua campanha armada foi formalmente adotada pela liderança do PKK e do <a href=\"https://pajk.org/\">Partido das Mulheres Livres do Curdistão</a> (PAJK).<sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">1</a></sup></p>\n\n<p>A visão estratégica de Öcalan foi desenvolvida de forma mais completa na edição de maio de 2025 (nº 521) da <em>Serxwebûn</em>, a publicação mensal oficial do PKK. Esta última edição apresentou o documento completo de 20 páginas que Öcalan havia submetido ao Congresso, juntamente com uma carta de quatro pontos endereçada aos delegados, delineando o quadro político para a transição para uma fase pacífica e democrática do movimento curdo. Anunciando o fim de sua história ininterrupta de 44 anos, a revista declarou: “Tudo está pronto para um novo e mais forte começo.”</p>\n\n<p>Em sua carta de 27 de abril, Abdullah Öcalan delineia uma visão transformadora para a era pós-PKK, centrada na nacionalidade democrática, na economia ecológica e comunitária e na modernidade democrática como alternativa tanto ao Estado-nação capitalista quanto ao socialismo real. Ele propõe a sociedade democrática como o programa político da nova era — uma que não visa a captura do Estado, mas sim a criação de estruturas autônomas e populares, como os bens comuns. Nesse contexto, conceitos como <em>socialismo democrático, comunalismo e confederalismo regional</em> tornam-se centrais tanto para a libertação curda quanto para a transformação regional mais ampla. Öcalan chama isso de uma <em>nova forma de internacionalismo</em> e exorta todos os atores a assumirem a responsabilidade por sua materialização, sugerindo que o sucesso no Curdistão pode ter efeitos em cascata na Turquia, Síria, Iraque e Irã.<sup id=\"fnref:2\"><a href=\"#fn:2\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">2</a></sup> Os textos desta edição — incluindo discursos, resoluções e documentos do congresso — refletem uma tentativa de reconfigurar o horizonte estratégico do movimento.</p>\n\n<p>O recente apelo de Öcalan à dissolução não é inédito, visto que o PKK oscila há muito tempo entre a luta armada e a negociação. No entanto, este momento sinaliza uma mudança ideológica mais profunda: desde 2004, o movimento se reestruturou em torno do “confederalismo democrático” por meio da <a href=\"https://kck-info.com/\">União das Comunidades Democráticas do Curdistão</a> (KCK) — uma estrutura abrangente que inclui o PKK, mas está visivelmente ausente do atual plano de dissolução.</p>\n\n<p>O significado de “dissolução” permanece altamente ambíguo. Será que sinaliza o fim do PKK, uma mera reformulação da marca ou uma mudança tática dentro de um arco mais longo de adaptação política? Mais criticamente, o que significa para as lutas antiestatais e anticoloniais na região desmantelar uma estrutura que historicamente obscureceu a resistência armada e a mobilização popular?</p>\n\n<p>O significado de “dissolução” permanece altamente ambíguo. Será que sinaliza o fim do PKK, uma mera reformulação da marca ou uma mudança tática dentro de um arco mais longo de adaptação política? Mais criticamente, o que significa para as lutas antiestatais e anticoloniais na região desmantelar uma estrutura que historicamente obscureceu a resistência armada e a mobilização popular?</p>\n\n<p>Mesmo dentro do PKK, as interpretações variam. Zagros Hiwa, porta-voz de Relações Exteriores do KCK, declarou à <em>Sterk TV</em> que as resoluções pedem o fim do conflito armado — não o desarmamento — e questionou a viabilidade disso, dada a proximidade de 100 metros entre soldados turcos e guerrilheiros. Outros discordam. Amir Karimi, da filial Irã-Curdistão do PKK, afirmou: “Aqueles que mais lutaram e suportaram têm o maior direito de falar sobre paz”. Enquanto isso, o presidente do Parlamento turco, Numan Kurtulmuş, enquadrou o processo como parte de um esforço nacional para resistir à fragmentação imperialista:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>“O Iraque e a Síria foram fragmentados, o Líbano tornou-se ingovernável. Líbia, Sudão e Somália foram divididos. Esses países se transformaram em campos de batalha alimentados por divisões tribais, étnicas e religiosas, e alguns foram desmantelados por organizações terroristas. Poderíamos ter esperado passivamente, como uma “vaca amarela”, pela nossa vez de sermos desmembrados, ou turcos, curdos e todos os outros poderiam se unir para derrotar essa agenda imperialista. Escolhemos este último caminho e estamos comprometidos em avançar juntos.”</p>\n</blockquote>\n\n<p>Não é de surpreender que esse apelo tenha gerado divisão, incerteza e um amplo espectro de respostas entre os ativistas curdos. Aqui, desvendaremos essas questões analisando a evolução histórica do PKK em relação aos processos de paz e explorando as implicações mais amplas de sua dissolução para os movimentos contemporâneos antiestatais, anticapitalistas e decoloniais.</p>\n\n<p>Começaremos com uma breve visão geral de como a violência revolucionária emergiu por meio da luta armada no movimento curdo e como essa trajetória se entrelaçou com uma série de iniciativas de paz fracassadas que frequentemente reproduziam novos ciclos de guerra. Em seguida, podemos nos voltar para a questão central: por que o PKK buscou o desarmamento unilateral? Examinaremos sua decisão em relação às mudanças na dinâmica política nos níveis regional, nacional e global. Por fim, refletiremos sobre os riscos, as incertezas e os cálculos estratégicos que cercam essa mudança, concluindo com uma leitura de gênero que destaca o papel do movimento de libertação das mulheres curdas na definição tanto dos limites quanto das possibilidades desse processo.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/07/13/8.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Abdullah Öcalan anunciando a dissolução do PKK em <a href=\"https://x.com/bbcturkce/status/1942905428905496723\">uma mensagem de vídeo</a> em julho de 2025.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<h1 id=\"a-provacao-curda-da-violencia-estatal-e-da-apatridia\"><a href=\"#a-provacao-curda-da-violencia-estatal-e-da-apatridia\"></a>A Provação Curda da Violência Estatal e da Apatridia</h1>\n\n<p>Como o PKK declarou em 12 de maio de 2025:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>O PKK nasceu como um movimento de libertação contra a política de negação do povo curdo consagrada no Tratado de Lausanne e na Constituição turca de 1924.</p>\n</blockquote>\n\n<p>De uma “nação” imperial reconhecida, os curdos tornaram-se “minorias étnicas” em Estados que os reprimiram, assimilaram e os apagavam. Apesar de serem quase 40 milhões de pessoas — 20% da população da Turquia —, os curdos continuam sendo o maior povo apátrida do mundo, excluídos do reconhecimento político e cultural.</p>\n\n<p>A repressão estatal muitas vezes assumiu formas genocidas: a campanha de Anfal no Iraque (1987-1988) matou 180.000 curdos; as políticas de desnacionalização da Síria na década de 1960 deixaram dezenas de milhares de apátridas; o Irã enquadra os ataques militares em regiões curdas como <em>jihad</em>; e a Turquia proibiu por muito tempo as palavras “curdo” e “Curdistão”, rotulando os curdos como “turcos das montanhas”. Só a guerra entre o PKK e os militares turcos já custou mais de 40.000 vidas, em um contexto mais amplo de conflitos curdos que mataram mais de 250.000 desde a década de 1960.</p>\n\n<p>A República Turca foi construída sobre o genocídio de armênios e a negação da identidade curda, ambos servindo para impor um projeto nacionalista homogeneizador. O PKK surgiu na década de 1970 em resposta direta a esse regime excludente. Sua oposição não era apenas militar, mas também cultural e política, como simbolizado pelo juramento parlamentar de Leyla Zana em 1991 (“Faço este juramento pela fraternidade dos povos turco e curdo”) — em curdo — pelo qual ela cumpriu dez anos de prisão.</p>\n\n<p>Hoje, o imperialismo turco combina colonialismo interno com expansão neoimperial regional. Desde 2016, Ancara mobiliza milícias islâmicas que atuam como <em>proxies</em> — como o “Exército Nacional Sírio” (SNA) — por todo o norte da Síria (Afrin, al-Bab, Azaz, Jarablus, Idlib). Essas milícias permitem que a Turquia terceirize a guerra, ao mesmo tempo em que promove uma agenda neo-otomana de arabização forçada, islamização e engenharia demográfica. Promessas de salários de até US$ 2.500 atraem jovens que sobrevivem com meras dezenas de dólares, transformando a guerra em empregos precários.</p>\n\n<p>Desde 2015, a Turquia lançou operações sucessivas — Escudo do Eufrates, Ramo de Oliveira, Primavera da Paz — ocupando áreas curdas, deslocando populações e possibilitando saques, violência em massa e reengenharia étnico-política. Os ataques aéreos no Iraque contra Qandil e Sinjar se intensificaram, com pouca resposta global. Esse modelo de guerra — privatizado, precário e transnacional — estendeu-se à Líbia (2019-2020), Azerbaijão (2020), Iêmen, Níger e Paquistão. Redes paramilitares ligadas à inteligência turca, como a Brigada Sultan Murad, operam a partir de aldeias curdas como Sinara, perto de Afrin.</p>\n\n<p>O alcance da Turquia também é extraterritorial: na Europa, ativistas curdas são vigiadas, extraditadas ou mortas. Os <a href=\"https://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2015/07/24/justica-implica-servico-secreto-turco-no-assassinato-de-militantes-curdas-em-paris.htm\">assassinatos de figuras feministas</a> importantes como Sakine Cansız (Paris), Hevrîn Xelef (Síria) e Nagihan Akarsel (Iraque) refletem uma estratégia de gênero para decapitar a liderança revolucionária e sufocar a articulação feminista transnacional. O imperialismo turco funde milicização islâmica, economias de guerra transnacionais e soberanias fragmentadas, produzindo uma violência desregulamentada na qual a lógica do mercado se sobrepõe aos interesses estatais.</p>\n\n<p>Essa violência extraterritorial não é uma extensão isolada do poder estatal, mas um mecanismo central de uma agenda geopolítica mais ampla. Essa projeção agressiva de força não é meramente oportunista; faz parte de um projeto neo-otomano e neocolonial mais amplo que visa reafirmar a influência turca em seus antigos territórios imperiais. Fundamental para essa visão é a integração da geografia e dos recursos do Curdistão à arquitetura emergente do comércio global — particularmente por meio do <a href=\"https://www.adb.org/publications/middle-corridor-policy-development-trade-potential\">Corredor do Meio</a>, discutido a seguir.</p>\n\n<p>No entanto, essa violência gerou uma resistência igualmente transnacional. O PKK politizou a questão curda, transformando uma população apátrida em um sujeito político organizado. Liderado em grande parte por mulheres, seu projeto continua sendo uma das poucas visões revolucionárias contemporâneas centradas na justiça social, no pluralismo e em críticas radicais ao poder. Contra os esquerdismos estatista, campista ou nacionalista, que são predominantemente moldados por paradigmas verticais, militaristas e masculinistas, o movimento curdo — especialmente sua dimensão feminista — desloca o político de paradigmas centrados no Estado para formas corporificadas, localizadas e solidárias. Seu slogan, <em><a href=\"https://crimethinc.com/2023/03/08/jin-jiyan-azadi-woman-life-freedom-the-genealogy-of-a-slogan\">Jin, Jiyan, Azadî</a></em> (“Mulher, Vida, Liberdade”), forjado em décadas de luta subalterna, tornou-se um grito global durante a <a href=\"https://crimethinc.com/2022/09/28/revolt-in-iran-the-feminist-resurrection-and-the-beginning-of-the-end-for-the-regime\">revolta iraniana de 2022</a>.</p>\n\n<p>Mas essa resistência foi possibilitada pela luta armada. E isso levanta a questão-chave: o que acontece com o horizonte revolucionário curdo com a <em>dissolução</em> anunciada do PKK?</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/07/13/6.jpg\" />\n</figure>\n\n<h1 id=\"a-paz-como-mascara-para-a-guerra-a-traicao-recorrente-do-movimento-curdo\"><a href=\"#a-paz-como-mascara-para-a-guerra-a-traicao-recorrente-do-movimento-curdo\"></a>A Paz Como Máscara Para a Guerra: a Traição Recorrente do Movimento Curdo</h1>\n\n<p>O repetido fracasso dos processos de paz no Curdistão revela não uma falta de comprometimento curdo, mas a recusa arraigada dos Estados regionais em reconhecer os direitos curdos. No Irã, as negociações de Viena de 1989 terminaram com o assassinato do líder curdo Abdul Rahman Ghassemlou e seus colegas — um ato replicado no assassinato de seu sucessor, Sadegh Sharafkandi, em Berlim, em 1992. No Iraque, a violação do Acordo de Autonomia de 1970 por Bagdá levou à campanha genocida de Anfal.</p>\n\n<p>A Turquia seguiu uma trajetória semelhante. Embora o movimento curdo tenha buscado consistentemente o diálogo, a política estatal turca oscila entre gestos de paz efêmeros e repressão sistemática. A iniciativa do presidente Özal no início da década de 1990 morreu com ele, e a década seguinte testemunhou violência estatal maciça, incluindo tortura, deslocamentos forçados e apagamento cultural. A captura de Abdullah Öcalan em 1999 marcou uma mudança: ele pediu um cessar-fogo e a dissolução do PKK. No entanto, a resposta punitiva do Estado apenas aprofundou a desconfiança curda.</p>\n\n<p>Apesar da repressão, o movimento curdo se transformou. Em 2004, emergiu o <a href=\"https://bibliotecaanarquista.org/library/abdullah-ocalan-confederalismo-democratico\">confederalismo democrático</a>, rejeitando o nacionalismo em favor do pluralismo popular. A resistência armada continuou, juntamente com estratégias político-legais, culminando nas vitórias eleitorais do Partido Democrático Popular (<em>Halkların Demokratik Partisi,</em> HDP). Mas os esforços de paz, incluindo as negociações de Oslo (2008-2011)<sup id=\"fnref:3\"><a href=\"#fn:3\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">3</a></sup> e o Processo de İmralı (2013-2015), foram sabotados pelo Estado. Primeiro, o vazamento das negociações desencadeou uma reação nacionalista em 2009; mais tarde, em 2015, o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan abandonou o Memorando de Dolmabahçe em resposta aos avanços curdos na Síria, particularmente a vitória do YPG e do YPJ (Unidades de Defesa do Povo e Unidades de Proteção das Mulheres) em Kobanê. O colapso do processo de paz desencadeou uma repressão brutal que deslocou mais de 350.000 pessoas e resultou na morte de cerca de 1.700 indivíduos, ao mesmo tempo que posicionou a Turquia entre os principais perseguirores de jornalistas do mundo. Em agosto de 2016, Erdoğan negava que quaisquer negociações tivessem ocorrido. Dessa perspectiva, os gestos do governo turco em relação às negociações de paz frequentemente sinalizaram sua preferência por operações militares, seja por meio de guerra ou golpe.</p>\n\n<p>Para muitos curdos, a luta armada tornou-se uma necessidade existencial contra o que consideram ser uma dominação colonial, precisamente como resultado desse conflito assimétrico, que alguns descrevem como uma “guerra contra a paz”. Inspirado por Frantz Fanon, o PKK enquadra a violência como autodefesa estratégica. Enquanto as críticas internas questionam a guerra urbana e a militância prolongada, persiste um amplo apoio curdo, enraizado em traumas históricos e no fracasso das vias políticas. A persistente caracterização da identidade curda pelo Estado como uma ameaça reforça esse impasse.</p>\n\n<p>Em 2025, tal horizonte parecia mais ilusório do que nunca. Mas “tudo o que é sólido pode se desfazer no ar”. Conforme destacado pelo acadêmico curdo <a href=\"https://aoc.media/analyse/2025/05/13/quand-le-reglement-dun-demi-siecle-de-conflit-kurde-se-joue-en-quelques-mois-1-2/\">Adnan Çelik</a> e outras vozes dentro do movimento, a mensagem de Öcalan durante o 12º Congresso do PKK, embora inesperada, sinalizou uma ruptura: em contraste com seu apelo de 2015 por uma “abertura democrática”, a declaração de 2025 despojou-se da riqueza ideológica de apelos anteriores, omitindo críticas ao Estado-nação, ao capitalismo neoliberal, ao colonialismo interno e ao patriarcado. Embora a declaração inicial retrate o PKK como uma relíquia da Guerra Fria, desprovida de legitimidade estratégica ou ideológica — clamando por seu desarmamento sem concessões políticas ou reconhecimento das reivindicações históricas curdas —, essa postura é parcialmente revisada na carta de 27 de abril, que dedica atenção significativa à história da repressão curda por estados regionais e ao legado de resistência do PKK.</p>\n\n<p>Amplamente percebida como uma capitulação unilateral, a mudança de Öcalan provocou choque dentro do movimento — com muitos interpretando-a como uma forma de humilhação implícita e apagamento de sacrifícios passados, segundo Çelik. Em vez de desencadear o colapso, estimulou tanto respostas organizacionais imediatas — como a proposta de um congresso de dissolução — quanto um intenso esforço interpretativo para preservar legados cruciais. Este momento sinaliza uma importante reconfiguração estratégica, mudando o foco da busca por um projeto sociopolítico para a gestão da herança militante, da memória e da resiliência política em meio a um cenário geopolítico transformado.</p>\n\n<p>Hoje, a questão curda permanece estruturalmente sem solução. A reconciliação é impossível enquanto o Estado turco oscilar entre ofertas de paz vazias e repressão brutal. Enquanto o Estado se apega a paradigmas nacionalistas, o movimento curdo continua a se adaptar — entre insurgência e imaginação, memória e resiliência.</p>\n\n<p>Essa tensão entre a negação do Estado e a resistência curda foi posta em evidência no discurso histórico de Erdoğan, pós-desarmamento, em 12 de julho, onde ele reconheceu oficialmente que o Estado turco cometeu assassinatos em massa de curdos, privou-os de seus direitos e iniciou essa violência em locais como a prisão de Diyarbakır. Ele admitiu ter queimado aldeias, criminalizado indivíduos não identificados, proibido a língua curda e negado às mães o direito de falar curdo com seus filhos. Proferido na esteira do desarmamento simbólico do PKK, o discurso, insistindo na unidade de turcos, curdos e árabes, marca uma mudança da insurgência para a reconciliação, servindo como um espetáculo orquestrado pelo Estado no qual o Estado turco reafirma seu poder soberano ao controlar a narrativa da violência passada e da ordem futura, posicionando-se como o único árbitro da memória, da verdade e da legitimidade histórica. Enquadrado como um ato de encerramento, esse momento, em vez disso, consolida a autoridade do Estado. A dissolução da luta armada curda não se traduz em uma transformação política genuína, mas sim em contenção simbólica. O que parece paz é, na realidade, uma reformulação da dominação, preparando o terreno para novas formas de controle sob o disfarce de reconciliação.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/07/13/4.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Mulheres participando do desarmamento simbólico do PKK em 11 de julho de 2025.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<h1 id=\"por-que-a-dissolucao\"><a href=\"#por-que-a-dissolucao\"></a>Por que a Dissolução?</h1>\n\n<p>Em carta datada de 25 de abril de 2025, Abdullah Öcalan articulou a lógica por trás da proposta de dissolução do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), enquadrando-a não como uma derrota, mas como uma mudança deliberada de paradigma. Ele enfatiza que esse processo, longe de ser um desarmamento imediato exigido pelo Estado turco, requer profunda crítica ideológica, autorreflexão e um debate prolongado para remodelar tanto a personalidade quanto a mentalidade. O PKK, fundado para elevar a consciência nacional curda e expor a opressão sistêmica, agora enfrenta uma fase em que o próximo passo em direção à liberdade deve ser construído com base em instituições democráticas, renovação cultural e comunalismo<sup id=\"fnref:4\"><a href=\"#fn:4\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">4</a></sup> –transformações que o PKK, como organização hierárquica armada, pode não mais incorporar. É nessa trajetória que a dissolução deve ser entendida: como o ápice de uma ruptura teórica com o modelo de Estado-nação do século XX e seu militarismo, definido pela violência sistêmica que agora “perdeu sua justificação (<em>raison d’être</em>)”. A visão de Öcalan de um confederalismo democrático, fundamentado na autonomia local, na igualdade de gênero e na economia ecológica, sinaliza uma ruptura decisiva com os modelos estatistas e militarizados do passado e uma mudança em direção a um projeto social pós-Estado.</p>\n\n<p>Essa evolução ideológica, no entanto, não é repentina nem isenta de controvérsias. Desde a década de 1990, o PKK passou por uma transformação interna significativa, confrontando o colapso do socialismo e as tendências autoritárias inerentes aos paradigmas estatistas. A sobrevivência do movimento dependeu de adaptabilidade e engajamento crítico, culminando na decisão do 12º Congresso de encarar a dissolução como uma reorientação radical, em vez de uma capitulação. A carta enfatiza que o fracasso, ao longo de duas décadas, em integrar plenamente os princípios democráticos, ecológicos e feministas às estruturas organizacionais precipitou este momento de mudança decisiva.</p>\n\n<p>Estrategicamente, a presença política curda ganhou destaque em toda a Turquia e no Oriente Médio em geral, particularmente por meio de iniciativas de libertação das mulheres e avanços políticos em todas as quatro regiões curdas. Esse progresso desafia a concepção anterior da Turquia de que o PKK era uma mera entidade terrorista. A recente declaração do conselheiro presidencial Mehmet Uçum de que “os curdos são um componente essencial da nação turca” sinaliza uma recalibração ideológica em nível estatal.</p>\n\n<p>Nessa situação, a dissolução do PKK pode ser vista como uma manobra tática para remover obstáculos ao reconhecimento internacional, especialmente das estruturas curdas em Rojava, onde o rótulo de “terrorista” serviu para justificar incursões militares turcas. O desarmamento visa proteger Rojava como um projeto político autônomo, garantindo sua sobrevivência e legitimidade nos cenários regional e internacional. Relatos sugerem que um encontro entre Abdullah Öcalan e Masoud Barzani (líder de longa data do Partido Democrático do Curdistão no Curdistão iraquiano) poderá ocorrer em breve — um desenvolvimento que, acima de tudo, fortalece a hipótese de uma aliança regional curda emergente com o objetivo de reforçar a estabilidade de Rojava no atual contexto geopolítico.</p>\n\n<p>Apesar dos ganhos diplomáticos decorrentes do papel desempenhado pelas forças curdas na luta contra o ISIS, o apoio internacional tem permanecido inconsistente. O apelo de Öcalan à dissolução voluntária pode ser uma estratégia preventiva para evitar a derrota total em meio ao crescente isolamento militar. Desde o colapso do processo de paz de 2015, a intensificação da pressão militar turca – operações transfronteiriças, guerra com drones e vigilância – tem confinado as operações do PKK principalmente a Qandil, minando sua capacidade na Turquia. Mesmo o 12º Congresso do PKK, realizado recentemente, ocorreu 12 anos após o 11º Congresso, principalmente devido à falta de segurança e à pressão militar da Turquia. O PKK abordou essa questão em uma <a href=\"https://firatnews.com/kurdIstan/pkk-merkez-komitesi-nin-12-kongre-ye-sundugu-yazi-213569\">carta</a> divulgada em 4 de maio, dirigida à população e aos ativistas do movimento:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>Um olhar retrospectivo às últimas duas décadas revela o seguinte: embora o novo paradigma visasse facilitar uma integração mais profunda com a sociedade, na prática, foram os membros dos quadros que experimentaram a maior desconexão com ele — mesmo com o movimento como um todo caminhando em direção à descriminalização. Embora o objetivo fosse cultivar estruturas organizacionais mais fortes e promover modos de vida comunitários e socialistas, o que na verdade emergiu foi um aumento do individualismo e do materialismo. É evidente que, em nosso engajamento com as massas, falhamos em fornecer educação adequada ou em fomentar a organização de uma sociedade verdadeiramente democrática. No domínio militar, fomos incapazes de desenvolver ou implementar treinamento e organização eficazes para a autodefesa social. Permanecemos, nas montanhas, no nível de unidades de guerrilha separadas da sociedade e completamente cercadas. Essa condição não só levou ao aumento de baixas, como também enfraqueceu o impacto político e propagandístico de nossa luta armada. Gradualmente, nossa capacidade de guerra eficaz ficou confinada a uma área geográfica muito limitada.</p>\n</blockquote>\n\n<p>Avanços tecnológicos, notadamente a guerra algorítmica e a vigilância em tempo real, aprofundaram esse isolamento, à medida que os Estados da OTAN priorizam as relações com Ancara. Enquanto isso, a autonomia curda na Síria está ameaçada pela centralização desse regime, e a influência turca cresce no norte do Iraque com aprovação local tácita. Essas condições levaram o centro político do PKK da luta armada à busca por legitimidade civil e institucional em toda a região curda. A dissolução representa um desarmamento simbólico e uma realocação estratégica, deslocando a luta curda para arenas políticas e transnacionais, onde o poder popular é redefinido fora do paradigma do confronto militar.</p>\n\n<p>O declínio no recrutamento do PKK e a incapacidade de traduzir alianças anti-ISIS em apoio internacional duradouro ressaltaram a necessidade dessa recalibração estratégica. A proposta de Öcalan é entendida pelos apoiadores não como uma rendição, mas como uma adaptação lúcida às novas realidades geopolíticas e militares, incluindo a perspectiva de um cessar-fogo temporário em Qandil e Rojava.</p>\n\n<p>Segundo muitos analistas curdos, a posição de Öcalan reflete sua persistente oposição a Israel e sua relutância em ver o movimento curdo forçado — por necessidade estratégica — a uma aliança tática ou pragmática com o país. Isso, argumentam, é o que impulsiona sua busca por soluções políticas preventivas destinadas a evitar tais alinhamentos. Outros defensores do movimento curdo argumentam que a decisão de Öcalan e do PKK foi uma tentativa estratégica de impedir que o Curdistão se tornasse a próxima Gaza do Oriente Médio. Eles argumentam que as limitações militares do PKK diante de um aparato de guerra interestatal e internacional altamente tecnológico — somadas à persistente campanha da Turquia para aniquilar o Curdistão e Rojava — exigiram uma recalibração política. Essa mudança, sugerem, também é influenciada pelo declínio do poder material e simbólico da solidariedade global com a causa curda, que permanece significativamente mais fraca do que o amplo apoio mobilizado aos palestinos. Nessa perspectiva, se a Turquia implementasse um cenário semelhante ao de Gaza contra os curdos, haveria pouca capacidade ou vontade internacional de intervir. Com a diminuição dos meios materiais de resistência e a ausência de mobilização regional ou internacional comparável, os atores curdos precisam adotar estratégias alternativas de sobrevivência. Essa decisão é, portanto, vista não como uma retirada, mas como uma tática calculada e pragmática para resistir a um contexto geopolítico cada vez mais insuportável.</p>\n\n<p>Esta mudança estratégica não pode ser compreendida sem reconhecer o profundo custo humano do conflito. Guerrilheiros curdos, quadros do PKK e, especialmente, civis estão exaustos; os custos cumulativos da guerra tornaram-se insuportáveis. Milhares de jovens foram perdidos, cidades inteiras destruídas, famílias fragmentadas, corpos marcados, gerações moldadas pela prisão, exílio, precariedade e estigma. Esse acúmulo de sofrimento ao longo de mais de quarenta anos confere à palavra “paz” uma nova ressonância: não como capitulação, mas como uma necessidade vital — um alento há muito aguardado após décadas de sufocamento.</p>\n\n<p>Da perspectiva do Estado turco, a dissolução alinha-se com uma estratégia política orquestrada por Recep Tayyip Erdoğan, que visa estender seu poder além do limite constitucional de 2028. Ao se apresentar como o arquiteto de um novo processo de paz, Erdoğan espera conquistar partes do eleitorado curdo enquanto fragmenta a oposição. Enquadrado como reconciliação, o apelo ao fim da luta armada é, na realidade, uma manobra para romper alianças emergentes entre as forças curdas e as correntes progressistas da oposição. Em 2019, o apoio tático dos eleitores curdos — notadamente por meio do HDP (agora Partido da Igualdade dos Povos, DEM) — foi crucial para a vitória da oposição em grandes cidades como Istambul e Ancara. Essa estratégia busca isolar as facções nacionalistas seculares dentro do Partido Republicano do Povo (<em>Cumhuriyet Halk Partisi,</em> CHP) daquelas abertas ao diálogo com o movimento curdo, mantendo, ao mesmo tempo, um discurso de securitização para uso doméstico. Essa engenharia eleitoral continua baseada num duplo cálculo: enfraquecer a mobilização conjunta da oposição e dissuadir as forças curdas de criticar o regime abertamente por medo de comprometer uma potencial paz.</p>\n\n<p>Nessa configuração complexa, o movimento curdo se encontra em uma posição que lembra os <a href=\"https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/06/29/revolta-gezi-park-10-anos/\">protestos do Parque Gezi de 2013</a>. Como então, qualquer abertura ao diálogo com o Estado implica, paradoxalmente, o reconhecimento de sua legitimidade, mesmo que este continue sendo o principal objeto de contestação. Essa tensão exige que o movimento curdo adote uma postura equilibrada: engajar-se em esforços de paz sem se dissolver na política institucional turca ou alienar movimentos sociais mais amplos. O resultado é uma forma de isolamento estratégico, mas também pode ser uma oportunidade para construir um espaço político autônomo no qual a questão curda possa ser articulada sem armas, porém sem renúncia.</p>\n\n<p>Enquanto isso, Erdoğan continua a explorar a retórica da securitização, criminalizando figuras políticas curdas e perpetuando o estereótipo do “inimigo interno” para consolidar sua base conservadora. O contraste entre a repressão contínua e a linguagem conciliatória da paz ressalta a natureza cínica da iniciativa: não se trata de um compromisso genuíno com a resolução, mas sim de uma manobra tática disfarçada de diálogo.</p>\n\n<p>Tanto Erdoğan quanto o Estado turco como um todo buscam facilitar a integração do Curdistão e seus recursos aos mercados capitalistas contemporâneos por meio do desarmamento. Em um discurso delineando o novo processo de 2025, Erdoğan articulou abertamente os objetivos capitalistas que impulsionam essa iniciativa:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>Uma Turquia livre do terrorismo elevará a economia turca acima de tudo. Assim que atingirmos esse objetivo, a União Turca de Câmaras e Bolsas de Mercadorias (TOBB) será a principal beneficiária. A partir de agora, a Turquia competirá em uma nova liga.</p>\n</blockquote>\n\n<p>Da mesma forma, o Ministro das Finanças turco, Mehmet Şimşek, declarou que a Turquia gastou quase US$ 1,8 trilhão nas últimas cinco décadas na “luta contra o terrorismo” e que o fim do conflito poderia trazer benefícios econômicos significativos ao país.</p>\n\n<p>Esses imperativos econômicos, no entanto, não se limitam apenas a considerações domésticas. Estão inseridos nas ambições geopolíticas mais amplas da Turquia. O chamado processo de paz de 2025 entre a Turquia e o PKK é menos um passo genuíno em direção à reconciliação do que uma manobra geopolítica que visa neutralizar o poder militar, político e econômico curdo como pré-condição para a integração da Turquia ao capitalismo infraestrutural neoliberal. No centro dessa estratégia está a concretização do “Corredor do Meio”, uma rota comercial transeurasiática que conecta a China à Europa via Ásia Central, Cáucaso e Turquia. Esse corredor posiciona a Turquia como um polo logístico na circulação capitalista global. É crucial tanto para a Iniciativa Cinturão e Rota da China (BRI, um projeto multitrilionário que liga a China à Europa, África e Oriente Médio por meio de rotas terrestres e marítimas) quanto para o Corredor Índia-Oriente Médio-Europa (IMEC, um projeto de infraestrutura concorrente que visa assegurar o domínio geopolítico e comercial ocidental), apoiado pelos EUA.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/07/13/10.png\" />   <figcaption>\n    <p>O “Corredor do Meio”.”</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Mais recentemente, essa visão foi reforçada pela iniciativa “Rota do Desenvolvimento” — um projeto de US$ 17 bilhões liderado pelo Iraque, Turquia e Estados do Golfo, que liga o Golfo Pérsico (via Porto de Grand Faw, no Iraque) à Europa através do território turco. A rota proposta corta diretamente o sudeste da Turquia, de maioria curda, ampliando ainda mais os desafios geopolíticos da contenção curda. Após o 7 de outubro e o genocídio israelense contra palestinos em curso, os alinhamentos geopolíticos regionais foram ainda mais desestabilizados — produzindo uma nova onda de política de corredores estratégicos, na qual a centralidade logística e diplomática da Turquia apenas se intensificou. Em meio ao colapso dos equilíbrios de poder tradicionais no Levante e no Golfo, o controle da Turquia sobre essas rotas de infraestrutura — particularmente aquelas que contornam a influência iraniana e síria — tornou-se ainda mais indispensável para os blocos ocidentais e não ocidentais.</p>\n\n<p>Mas, para que a Turquia consolide o controle sobre essas rotas, deve eliminar todos os atores subalternos ou não estatais, especialmente as forças curdas. O desarmamento do PKK deve, portanto, ser lido não como desmilitarização, mas como o encerramento da luta armada curda sob um novo regime de securitização infraestrutural. Com o “corredor xiita” do Irã (eixo Teerã-Damasco-Beirute) neutralizado, Assad derrubado e o eixo do PKK e das Forças Democráticas Sírias (FDS) rompido sob pressão dos EUA e de Israel, os atores curdos foram estruturalmente removidos das negociações de poder regional. Com o apoio tácito da OTAN, a Turquia realizou campanhas militares e reengenharia demográfica para consolidar o controle sobre as regiões curdas. Nesse contexto, “paz” torna-se um eufemismo para pacificação capitalista, com a reconciliação política substituída pela contenção espacial e militar para permitir fluxos ininterruptos de capital, bens e influência geopolítica através dos corredores imperiais de extração e controle.</p>\n\n<p>O apoio de Erdogan ao apelo do PKK por desarmamento deve ser visto no contexto mais amplo da geopolítica em transformação no Oriente Médio e da evolução do equilíbrio de poder na região. Reflete também o uso estratégico da dinâmica curda pela Turquia para combater rivais como Israel e Irã. Uma complexa interação de cálculos políticos nacionais e regionais levou a Turquia a adotar essa tática. Isso é claramente articulado em uma <a href=\"https://firatnews.com/kurdIstan/pkk-merkez-komitesi-nin-12-kongre-ye-sundugu-yazi-213569\">carta</a> do Comitê Central do PKK datada de 4 de maio:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>A escalada da Terceira Guerra Mundial no Oriente Médio, os resultados do conflito de Gaza, iniciado em 7 de outubro de 2023, os ataques significativos do Hamas e do Hezbollah contra os ataques israelenses e o colapso do regime Baath na Síria – estendendo assim a transformação regional ao Irã e à Turquia – desempenharam um papel fundamental para nos levar a este estágio. O medo e a ansiedade existencial gerados no Estado turco e no governo do AKP-MHP, combinados com as pressões por mudanças democráticas impostas internamente pelo nosso movimento e pelo povo turco, e externamente pelo sistema capitalista transnacional, constituem os principais fatores que motivam o governo [Devlet] Bahçeli e sua conhecida retórica e apelos à ação. Consequentemente, chegamos ao estágio atual como resultado dos desenvolvimentos políticos e militares mencionados.</p>\n</blockquote>\n\n<p>O paradoxo é profundo: um movimento com considerável força territorial e organizacional é forçado a se reinventar precisamente porque esse poder o torna suscetível à aniquilação algorítmica. Em última análise, a proposta de Öcalan convida a uma releitura fundamental da luta revolucionária em uma era definida por drones, metadados e vigilância total. Ela desafia o movimento curdo a imaginar uma forma de resistência que transcenda o confronto armado, encontrando poder no silêncio em vez de em tiroteios.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/07/13/3.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Armas queimam durante uma cerimônia que representa o desarmamento simbólico do PKK em 11 de julho de 2025.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<h1 id=\"da-guerrilha-a-transicao-politica-tensoes-esperancas-horizontes\"><a href=\"#da-guerrilha-a-transicao-politica-tensoes-esperancas-horizontes\"></a>Da Guerrilha à Transição Política: Tensões, Esperanças, Horizontes</h1>\n\n<p>O anúncio, em fevereiro de 2025, da potencial retirada armada do PKK levanta questões profundas sobre as condições sob as quais uma luta de guerrilha prolongada poderia se transformar em um processo político, especialmente em um contexto marcado por autoritarismo arraigado, repressão e impasses ideológicos. Embora alguns interpretem esse movimento como um sinal de reconfiguração estratégica e ideológica, ele permanece profundamente ambíguo. O governo turco, enquadrando o momento não como um “processo de paz”, mas como um “processo de limpeza do terrorismo” (<em>“Terörden arındırma süreci”</em>), sinaliza uma postura punitiva que se afasta da linguagem conciliatória de 2015, lançando dúvidas sobre a possibilidade de uma resolução justa e abrangente.</p>\n\n<p>Isso levanta várias questões urgentes. A democratização na Turquia pode ser definida como meros gestos simbólicos — como a libertação condicional de Abdullah Öcalan (e sua convocação ao parlamento para apelar aos curdos para que se retirassem de Qandil e adotassem um caminho político pacífico) ou concessões culturais limitadas — ou deve implicar reformas constitucionais de longo alcance, a libertação em massa de presos políticos e o reconhecimento formal dos direitos coletivos curdos, incluindo a autonomia regional e o direito à educação em língua curda? O restabelecimento de mandatos municipais anulados, o retorno de exilados ou uma anistia geral seriam suficientes para convencer o PKK de que um caminho político viável surgiu? Muitos temem que Erdoğan possa renegar seus compromissos assim que tiver assegurado a influência política que busca, repetindo a traição do processo de 2015 e correndo o risco de um retorno ao conflito com o movimento curdo em uma posição de fragmentação e legitimidade enfraquecida.</p>\n\n<p>Ao contrário de outros processos de paz — como os que envolveram o Exército Republicano Irlandês na Irlanda do Norte, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) na Colômbia ou a <em>Euzkadi ta Azkatasuna</em> (ETA) na Espanha — o Estado turco recusou-se a se envolver em busca da verdade e da reconciliação, na reestruturação constitucional ou no reconhecimento político genuíno. Na Colômbia, por exemplo, o desarmamento foi acompanhado por iniciativas de justiça restaurativa, frequentemente lideradas por mulheres e sobreviventes da violência estatal. Um potencial semelhante reside no movimento de mulheres curdas, mas o caso curdo permanece excepcional em sua criminalização sistemática e negação da existência de um problema político. Ao mesmo tempo, o que distingue o caso do PKK de muitos outros exemplos é que ele conta com o apoio de um poderoso e influente movimento civil e político de massa. A luta não se limitou apenas à esfera militar, mas também se enraizou profundamente nas arenas civil e política.</p>\n\n<p>A decisão do PKK de se engajar no desarmamento expõe contradições internas. Apesar de estar preso desde 1999, Öcalan permanece como a autoridade incontestável do movimento, centralizando a tomada de decisões em uma estrutura vertical que suprime o pluralismo interno. Sua declaração recente — “Posso dizer que os oponentes do processo não têm valor. Eles fracassarão” — sintetiza um modelo em que a autoridade carismática ofusca a deliberação coletiva, gerando uma crise de legitimidade na qual se espera que combatentes e ativistas sigam diretrizes de cima para baixo, sem mecanismos de tomada de decisão participativa. Essa centralização reproduz uma base militante despolitizada e sufoca a democratização interna necessária para uma transformação genuína.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/07/13/7.jpg\" />\n</figure>\n\n<p>No cenário em evolução, alguns analistas destacam dois acontecimentos que podem marcar passos preliminares rumo ao desarmamento e à transição para uma ordem democrática. Primeiro, em um gesto simbólico, um grupo de guerrilheiros, alguns dos quais ocupavam cargos de liderança, depuseram publicamente suas armas na presença da mídia, acompanhados de uma declaração que afirmava:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>Estamos prontos para participar da política democrática.</p>\n</blockquote>\n\n<p>Em segundo lugar, espera-se que o Parlamento turco estabeleça um órgão provisoriamente intitulado <em>“Comissão para a Paz Social e Transição Democrática”,</em> encarregado de formular uma estrutura legal e institucional para apoiar o desarmamento e reformas democráticas mais amplas.</p>\n\n<p>Embora essas iniciativas possam inicialmente se desdobrar em uma escala limitada e simbólica, seus proponentes as veem como indicadores da vontade mútua de avançar no processo de paz. No entanto, experiências passadas, como o envio de três grupos de guerrilheiros ao Estado turco entre 2000 e 2007, ressaltam a vulnerabilidade persistente de tais esforços às políticas estatais repressivas e à persistente desconfiança estrutural que continua a dificultar uma resolução duradoura. Nem os guerrilheiros nem a liderança do PKK parecem ingênuos quanto aos riscos envolvidos. Eles parecem estar abordando o processo com cautela estratégica e previsão política, preservando deliberadamente a opção de retornar à luta armada, se necessário. Como Bese Hozat,<sup id=\"fnref:5\"><a href=\"#fn:5\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">5</a></sup>, copresidente do Conselho Executivo do KCK declarou em uma entrevista após o desarmamento simbólico de 30 guerrilheiros no Curdistão iraquiano em julho:</p>\n\n<blockquote>\n  <p>Se atendêssemos incondicionalmente a todas as exigências do Estado, isso levaria ao seguinte resultado: espera-se que outros grupos façam o mesmo — destruam suas armas, retornem à Turquia e se rendam. Se tal abordagem se tornar a norma, o destino que nos aguarda e aos nossos camaradas será a prisão ou a morte. Mas tal futuro não é algo que aceitamos. O Estado turco precisa entender isso.</p>\n</blockquote>\n\n<p>Ainda assim, alguns dentro do movimento veem isso como uma oportunidade de transcender seu legado militarista leninista e hierárquico. Uma mudança em direção a uma participação civil mais ampla e à renovação interna poderia reposicionar o PKK dentro de um quadro democrático mais amplo. A emergência do Partido DEM como um ator significativo sugere a possibilidade de transformar uma formação nacionalista curda em uma força pluralista capaz de unificar as constituições democráticas mais amplas da Turquia. No entanto, o risco de abandono — tanto pelo Estado turco quanto por apoiadores internacionais — é grande, tornando a promessa de renovação dependente de reformas estruturais, e não de acomodações retóricas.</p>\n\n<p>Uma estrutura de justiça transicional é crucial. Sem o reconhecimento das atrocidades do passado — particularmente durante a década de 1990 e o período brutal de 2015-2016 — qualquer cessar-fogo permanecerá frágil. Verdade, reparação e a descolonização das narrativas nacionais são pré-requisitos para uma paz significativa. Caso contrário, a memória coletiva curda continuará a carregar traumas não curados que podem reacender o conflito.</p>\n\n<p>O contexto regional torna o desarmamento precário. A Síria permanece instável e o frágil cessar-fogo entre as forças curdas e a Hayat Tahrir al-Sham (HTS), após a recente Conferência de Unidade Curda, parece cada vez mais incerto. As campanhas militares em curso da Turquia contra posições curdas no Iraque e na Síria, incluindo mais de 500 ataques aéreos contra zonas controladas pelo PKK no Curdistão iraquiano somente em maio de 2025, minam a viabilidade de uma transição de paz. Simultaneamente, as supostas ofertas indiretas de Ancara — como o reconhecimento da autonomia curda na Síria em troca da dissolução do PKK — permanecem vagas e pouco confiáveis. Uma ofensiva em larga escala em Rojava ameaçaria colapsar a arquitetura civil e militar do projeto curdo.</p>\n\n<p>Dentro dessa configuração transnacional, o PKK não é uma força guerrilheira isolada, mas parte de uma rede mais ampla estabelecida desde 2002 pela União das Comunidades do Curdistão (KCK), que inclui o PYD na Síria (2003), o PJAK no Irã (2004) e o PÇDK no Iraque (2002). Essas organizações irmãs, embora nominalmente autônomas, estão ideologicamente alinhadas à visão de Öcalan de confederalismo democrático e estão profundamente enraizadas em suas respectivas sociedades, particularmente por meio de iniciativas lideradas por mulheres. A ambiguidade do apelo de Öcalan ao desarmamento — se ele visa apenas a ala turca do PKK ou se estende a essas entidades aliadas — aumenta a incerteza. Alguns analistas sugerem que os quadros poderiam ser realocados para outras frentes, como o PJAK ou Rojava, em vez de serem desmobilizados de uma vez, levantando a possibilidade de uma dissolução tática em vez de estratégica. Assim, o destino das forças guerrilheiras nas montanhas Qandil permanece incerto, já que os sinais de Ancara são ambíguos e frequentemente contraditórios, confundindo a linha entre o rumor e a realidade. Por exemplo, o membro do AKP, Şamil Tayyar, afirmou que quase 300 membros seniores do PKK seriam realocados para países terceiros, como África do Sul e Noruega, enquanto aproximadamente 4.000 combatentes seriam gradualmente recebidos na fronteira. No entanto, além dessas declarações não oficiais, que medidas concretas — além de gestos retóricos — o Estado turco realmente tomará?</p>\n\n<p>No âmbito interno, a supressão do CHP por Erdoğan — historicamente um partido nacionalista secular cúmplice de políticas anticurdas — revela os paradoxos da oposição turca. Para muitos curdos, o CHP continua sendo parte do problema e não uma alternativa, dificultando a formação de uma coalizão democrática inclusiva. Enquanto isso, as tensões internas dentro do movimento curdo, combinadas com a consolidação autocrática de Erdoğan, continuam a fragmentar o campo político, tornando incerto um realinhamento político pluralista.</p>\n\n<p>Apesar desses desafios, o movimento curdo demonstra notável resiliência e adaptabilidade estratégica. Continua a articular uma visão política que resiste à militarização, ao mesmo tempo que afirma o direito à autodefesa — alinhando-se às lutas anticoloniais globais. Em Rojava, por exemplo, a Administração Autônoma mantém uma formidável infraestrutura de segurança, incluindo as Forças Democráticas Sírias (FDS), o YPG-YPJ e as forças Asayish, estimadas em mais de 80.000 membros. Em Rojhilat, o PJAK continua a organizar a oposição ao regime iraniano. Essas formações refletem um movimento transfronteiriço profundamente enraizado que não pode ser reduzido a um mero fenômeno de guerrilha.</p>\n\n<p>Essa infraestrutura material sugere que, mesmo que o processo atual entre em colapso, o PKK e seus aliados poderiam transitar para uma nova fase de resistência, talvez mais fragmentada e prolongada. Décadas de guerra assimétrica, consolidação ideológica e inserção social conferiram ao movimento uma capacidade de sobrevivência incomparável a muitos atores revolucionários. Sua legitimidade advém não apenas da capacidade militar, mas também do cultivo da consciência política, da libertação de gênero e da autonomia popular.</p>\n\n<p>No cerne dessa esperança reside uma questão ética mais profunda. Não seria profundamente injusto – talvez até cínico – projetar nossas visões de democracia radical, anticapitalismo, internacionalismo feminista e antifascismo não estatal em um povo já sobrecarregado pela marginalização, repressão, pobreza estrutural e criminalização implacável? Podemos, de boa-fé, pedir a um povo geopoliticamente vulnerável e assediado que carregue, sozinho, o fardo de nossas utopias revolucionárias? Como pode uma força revolucionária marginal – política e militarmente isolada, desprovida de apoio estatal ou internacional – sobreviver não apenas como organização, mas como portadora de visão política e prática emancipatória? Como pode preservar seus ideais em um ambiente dominado por Estados poderosos e atores imperiais dispostos a aniquilá-la por meio de massacres, limpeza étnica e violência sexual sistêmica? Este momento crítico nos obriga a reconsiderar os próprios termos de nossa solidariedade. Como podemos manter uma postura política radical em uma ordem global cada vez mais dominada pela militarização e pelo autoritarismo, sem cair na abstração romântica ou na resignação política?</p>\n\n<p>O que permanece em jogo não é apenas o destino de um grupo armado, mas a viabilidade de um projeto político que redefiniu os parâmetros da luta no Oriente Médio. Enquanto o espectro de uma nova guerra paira em meio a promessas não cumpridas e à escalada militar, o movimento curdo continua a suscitar uma questão universal: como pode uma força revolucionária, destituída da condição de Estado e enfrentando uma repressão avassaladora, preservar sua práxis emancipatória sem sucumbir ao apagamento ou à concessão?</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/07/13/5.jpg\" />\n</figure>\n\n<h1 id=\"repensando-a-dissolucao-atraves-de-uma-lente-de-genero\"><a href=\"#repensando-a-dissolucao-atraves-de-uma-lente-de-genero\"></a>Repensando a Dissolução Através de Uma Lente de Gênero</h1>\n\n<p>Durante muito tempo ofuscado pelo PKK, o movimento das mulheres curdas emergiu desde a década de 1990 como um poderoso ator ideológico e organizacional — o que muitos descrevem como uma “revolução dentro da revolução”. Inicialmente marginalizadas dentro de uma estrutura militarizada e dominada por homens, as militantes curdas transformaram essa exclusão em uma oportunidade estratégica, formando uma aliança dialética e recíproca com o líder do PKK, Abdullah Öcalan. Essa relação, longe da submissão patriarcal, permitiu que ambos os partidos se tornassem recursos políticos um para o outro: Öcalan instrumentalizou o movimento das mulheres para expandir e reformar o PKK, enquanto as mulheres usaram sua autoridade simbólica para centralizar a libertação de gênero na luta curda.</p>\n\n<p>O reconhecimento das mulheres como a “força de vanguarda da revolução” por Öcalan foi fundamental para redefinir a liderança e a legitimidade de um movimento moldado há muito tempo pela virilidade. Ele incentivou a criação de estruturas paralelas femininas e apoiou a <a href=\"https://pt.wikipedia.org/wiki/Jineologia\">Jineologia</a> (Jineolojî), uma epistemologia feminista teorizada como central para sua visão de confederalismo democrático. Por sua vez, as mulheres curdas legitimaram sua liderança ideológica. Elas reafirmaram, em especial, o apelo de Öcalan pela suspensão da luta armada após sua captura em 1999 — um momento de profunda crise para o PKK, marcado por deserções em massa entre 2002 e 2004 (aproximadamente 1.500 combatentes deixaram o PKK em meio à reorientação ideológica e às lutas internas que culminaram no retorno ao conflito armado em meados de 2004). A lealdade contínua das mulheres durante esse período foi uma escolha estratégica que visava preservar a continuidade ideológica em meio à fragmentação e à repressão.</p>\n\n<p>No entanto, essa lealdade tinha limites. Propostas por maior autonomia — como a criação de um Partido das Mulheres Trabalhadoras Curdas — foram bloqueadas pelo Comitê Central do PKK, revelando persistentes restrições estruturais. Ainda assim, a aliança se manteve, especialmente porque a virada ideológica de Öcalan em 2005 em direção ao confederalismo democrático colocou a igualdade de gênero no centro de um novo modelo político. Em 2012, Öcalan recusou-se a se reunir com uma delegação de paz sem representação do movimento de mulheres, ressaltando sua indispensabilidade. Simbolicamente, em 2013, as mulheres em Rojava anunciaram a criação das YPJ (Unidades de Proteção às Mulheres) no aniversário de Öcalan, reafirmando tanto sua confiança em sua visão quanto sua reivindicação de militância autônoma.</p>\n\n<p>Este paradoxo — a construção da autonomia política das mulheres por meio de um líder masculino — suscita tensões críticas. Embora o discurso de Öcalan promova a descentralização e a desmilitarização, sua autoridade carismática permanece central. O horizonte feminista do movimento está, portanto, entrelaçado com a dependência estratégica. Os repetidos apelos de Öcalan pelo desarmamento do PKK, particularmente nos últimos anos, amplificam essa contradição: desafiam a masculinidade militarizada há muito arraigada na luta revolucionária, mas também provocam incerteza quanto à influência das mulheres em um processo político desarmado.</p>\n\n<p>Historicamente, a resistência armada permitiu que as mulheres curdas conquistassem visibilidade, liderança e legitimidade. O combate rompeu tabus de gênero e criou capital simbólico, mesmo correndo o risco de reproduzir o que alguns teóricos chamam de “masculinidade adotada” — uma replicação de normas patriarcais sob o pretexto de igualdade revolucionária. A atual mudança em direção à desmilitarização, ao mesmo tempo em que abre espaço para práticas feministas comunitárias e não hierárquicas, também ameaça desmantelar as estruturas que protegiam e empoderavam as mulheres sob a violência do Estado. Essa tensão é central nos debates sobre o futuro do movimento.</p>\n\n<p>A potencial dissolução do PKK suscita questões urgentes: o movimento das mulheres curdas aproveitará o momento para afirmar sua plena autonomia? Desenvolverá uma postura feminista distinta nessa mudança estratégica? A dissolução enfraquece ou empodera as mulheres na luta curda? O desarmamento pode representar um passo em direção à paz feminista ou uma vulnerabilidade estratégica. Algumas militantes defendem uma desmilitarização cautelosa e condicional — condicionada à consolidação institucional, ao reconhecimento internacional e à garantia dos direitos das mulheres, visto que consolidou mentalidades de guerra masculinas, abrindo espaço para práticas feministas, comunitárias e não hierárquicas radicais. Historicamente enraizada em ideais masculinistas — onde heroísmo, martírio e bravura militar definiam a legitimidade — a violência revolucionária curda é agora desafiada pelo apelo de Öcalan à desmilitarização, que busca deslocar o movimento em direção a um horizonte feminista desvinculado da masculinidade militarizada. Mas outros alertam que a desmilitarização pode expor as mulheres à violência patriarcal e estatal renovada, especialmente se os ganhos obtidos pelo YPJ ou YJA-Star (Unidades de Mulheres Livres, <em>Yekîneyên Jinên Azad ên Star</em>) não forem politicamente salvaguardados.</p>\n\n<p>Além da luta armada, mulheres curdas e turcas desempenham há muito tempo papéis vitais na resistência civil e nos compromissos de paz. As <em>Mães da Paz</em> (Dayikên Aşîtîyê) — mães curdas que perderam filhos no conflito entre o PKK e o Estado — tornaram-se símbolos da resistência não violenta nas décadas de 1990 e 2000. Campanhas como “Não Toque na Minha Amiga” (1990) e “Mulheres Caminham Juntas” mobilizaram redes de base para enfrentar o nacionalismo, o racismo e a guerra.<sup id=\"fnref:6\"><a href=\"#fn:6\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">6</a></sup> Em 2009, a Iniciativa Feminista pela Paz (BİKG) reuniu mulheres de todas as etnias para exigir a desmilitarização, a reconstrução social e até mesmo processos de paz. Esses movimentos demonstraram como as mulheres transformaram experiências de perda e marginalização em ação política.</p>\n\n<p>Em <a href=\"https://anfsorani.com/%DA%98%D9%86%D8%A7%D9%86/br-yap-pzh-twawnkrawkm-b-zhnlzhy-mwday-by-bm-tyr-wystm-kshy-zhn-b-asty-bnasnm-69799\">uma carta</a> datada de 30 de maio, da Prisão de İmralı para a Academia Jineolojî, Öcalan reafirmou que a libertação das mulheres é a verdadeira medida do socialismo, chamando-a de fundamento de sua luta revolucionária. Ele descreveu a <em>Jineologia</em> como um projeto transformador em andamento e as mulheres como potenciais líderes da paz e da democracia no Oriente Médio. De fato, Öcalan conta com as mulheres para liderar essa transição, dado o papel de liderança das mulheres em esforços de paz anteriores no Curdistão.</p>\n\n<p>A escolha de Bese Hozat — comandante e copresidente de longa data da União das Comunidades do Curdistão (KCK) e companheira próxima de Sakine Cansız, a icônica líder feminista do PKK assassinada em Paris em 2013 — como figura central na cerimônia simbólica de desarmamento do PKK em 11 de julho ressalta a centralidade duradoura da liderança feminina no movimento curdo. Mesmo em um momento de transição, esse gesto simbólico reafirma o compromisso ideológico do movimento com a libertação de gênero e honra o legado do feminismo curdo revolucionário.</p>\n\n<p>O desafio agora está em navegar pelas contradições da desmilitarização: equilibrar a ética feminista com a necessidade de proteção, a autonomia com alianças estratégicas e a construção da paz com a agência política.</p>\n\n<p>Qualquer futuro processo de paz deve centrar-se nas realidades vividas e nas visões políticas das mulheres curdas. O papel delas não tem sido periférico, mas fundamental — e são as suas decisões estratégicas, não apenas as de Öcalan, que moldarão o próximo capítulo do movimento curdo.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/07/13/9.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Bese Hozat liderando a cerimônia simbólica de desarmamento do PKK em 11 de julho de 2025.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<h1 id=\"conclusao\"><a href=\"#conclusao\"></a>Conclusão</h1>\n\n<p>Da perspectiva dos apoiadores do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), a potencial dissolução da organização não deve ser interpretada como o fim da luta curda, mas sim como o marco de uma nova e ainda indefinida fase de resistência. Embora essa perspectiva incorpore um otimismo estratégico, também exige reflexão cuidadosa. Redefinir a resistência em um contexto tão complexo exige uma compreensão sutil de suas limitações, contradições e riscos inerentes. Em outras palavras, embora essa abordagem possa abrir novos caminhos para o movimento, ela não deve ser aceita acriticamente como uma solução definitiva sem uma análise completa. Mecanismos para integrar o feedback crítico de membros e ativistas do PKK – particularmente as vozes de mulheres presas políticas – nesse processo são necessários para garantir sua legitimidade.</p>\n\n<p>O PKK enfrenta uma confluência de desafios complexos, incluindo pressões militares e tecnológicas intensificadas, bem como restrições políticas tanto em nível nacional quanto regional. Esses desafios limitam severamente a capacidade do movimento de sustentar a luta armada e alcançar a transformação estrutural. A mudança para formas legais de organização lideradas por civis representa uma aposta estratégica significativa. Embora essa transição mereça consideração e experimentação sérias, seu sucesso depende do cumprimento de diversas condições críticas; na ausência delas, o fracasso ou a marginalização continuam sendo um risco substancial. Além disso, a tensão entre as pressões imediatas do Estado e a visão de longo prazo do PKK para um processo político prolongado levanta questões sobre a viabilidade e o momento dessa mudança.</p>\n\n<p>Caso o processo político seja novamente minado por Erdoğan, o PKK está preparado para retomar a resistência armada, não por desespero, mas como continuação de sua lógica política duradoura, baseada na dignidade coletiva e na autodeterminação. No entanto, tal ressurgimento provavelmente acarretaria dificuldades e custos significativos, desproporcionalmente suportados pela população curda.</p>\n\n<p>Longe de ser meramente um ator tático, o movimento de libertação curdo incorpora um projeto político mais amplo que rompe fundamentalmente com as noções predominantes de soberania e legitimidade em toda a região. Qualquer mudança substancial em sua orientação estratégica exige uma compreensão da interação entre restrições estruturais, riscos geopolíticos e relações de poder assimétricas nos níveis local, regional e internacional. Na melhor das hipóteses, a guinada do movimento em direção à institucionalização poderia não apenas consolidar sua legitimidade política, mas também abrir novos caminhos para a reconciliação intracurda, particularmente com rivais de longa data como o Partido Democrático do Curdistão (KDP). Esse realinhamento estratégico poderia potencialmente lançar as bases para uma arquitetura política curda transnacional — mais inteligível e diplomaticamente aceitável para os atores internacionais, especialmente as potências ocidentais que historicamente marginalizaram as reivindicações curdas em favor de seu alinhamento estratégico com Ancara.</p>\n\n<p>Essa redefinição contínua da resistência curda também enfrenta desafios internos substanciais, incluindo tensões entre facções e o imperativo de reconciliação política, que deve prosseguir em paralelo com a aceitação dos atores regionais e globais. No entanto, esse processo oferece o potencial de cultivar estruturas políticas mais inclusivas e legítimas.</p>\n\n<p>Por fim, a transformação proposta na linguagem e nas modalidades de resistência — articulada por Abdullah Öcalan e pelos apoiadores do PKK — responde às realidades da vigilância tecnológica e da guerra contemporâneas. Isso desafia a resistência militante convencional, enfatizando a adaptabilidade, a resiliência e a rearticulação do poder em formas novas e menos visíveis.</p>\n\n<hr />\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/07/13/2.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Armas queimam durante uma cerimônia que representa o desarmamento simbólico do PKK em 11 de julho de 2025.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<div class=\"footnotes\" role=\"doc-endnotes\">\n  <ol>\n    <li id=\"fn:1\">\n      <p>“O processo que culminou em nosso 12º Congresso começou com uma reunião em 23 de outubro de 2024, entre o sobrinho do Líder Apo e nossa delegação. Essa reunião ocorreu em resposta às declarações e apelos feitos por Devlet Bahçeli, líder do Partido do Movimento Nacionalista (MHP), a partir do início de outubro. Durante a reunião, o Líder Apo declarou publicamente que ‘se as condições necessárias forem atendidas, ele tem a capacidade teórica e prática de mover a questão curda de um contexto de violência e conflito para um de política democrática e resolução legal’. Nos meses seguintes, uma série de reuniões foi realizada entre a delegação do Partido da Igualdade e Democracia dos Povos (DEM) e o Líder Apo na Ilha de İmralı. Esses encontros foram acompanhados por mensagens do Líder Apo que moldaram ainda mais o processo. Ele primeiro endereçou cartas à liderança dos partidos políticos na Turquia, seguidas por correspondências direcionadas a nós. Nessas cartas, ele articulou sua posição sobre a conclusão das atividades conduzidas sob o nome do PKK e o fim da luta armada, afirmando que sua missão histórica havia chegado ao fim. Em nossa resposta, expressamos nossa disposição de realizar o congresso proposto, enfatizando que tais decisões fundamentais só poderiam ser tomadas com o envolvimento direto e a liderança do Líder Apo durante o próprio congresso. Dando um passo adiante, o Líder Apo, por meio da delegação do Partido DEM, lançou o “Apelo à Paz e a uma Sociedade Democrática” em 27 de fevereiro. Nesse apelo, ele nos instou a convocar o congresso e tomar decisões para encerrar oficialmente as atividades sob o nome do PKK e encerrar a luta armada. Ele também declarou sua disposição de assumir total responsabilidade histórica pela iniciativa. Após esse apelo, em uma declaração pública divulgada em 1º de março, reafirmamos a posição anteriormente compartilhada em nossa carta ao Líder Apo. Para apoiar o processo, declaramos um cessar-fogo unilateral, que comunicamos ao público. Esses acontecimentos desencadearam intensos debates públicos tanto nacional quanto internacionalmente. Participamos ativamente dessas discussões, apresentando nossos pontos de vista e nos esforçando para oferecer avaliações escritas e verbais para ajudar nosso povo e aliados a obter uma compreensão clara e completa de o processo. Além disso, transmitimos tanto as atas das reuniões realizadas com o Líder Apo quanto as diretrizes preparadas em nome das lideranças do PKK e do PAJK (Partido das Mulheres Livres do Curdistão) relativas à organização do nosso partido. Todas essas ações foram realizadas com pleno conhecimento e consentimento da delegação do congresso. Para a declaração completa, consulte a [Declaração do Comitê Central do PKK datada de 4 de maio de 2025] (https://firatnews.com/kurdIstan/pkk-merkez-komitesi-nin-12-kongre-ye-sundugu-yazi-213569). <a href=\"#fnref:1\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n    <li id=\"fn:2\">\n      <p>“Nossa visão para a nova era se baseia na reconstrução da sociedade com base na nacionalidade democrática, nos princípios ecoeconômicos e no comunalismo. Para estabelecer filosoficamente essa estrutura — suas dimensões ideológicas e sua materialização na sociedade mais ampla —, temos a responsabilidade de formular sua estrutura teórica e conceitual… Estamos no processo de moldar os componentes ideológicos, o programa prático e as dimensões tático-estratégicas do futuro. A sociedade democrática constitui o programa político desta era. Ela não tem o Estado como seu objetivo principal. A política de uma sociedade democrática é a política democrática… O socialismo democrático, da mesma forma, significa uma democracia socialmente fundamentada… A vida livre dos povos se torna possível por meio da comuna… Em um esforço para transcender a modernidade e o socialismo real que a serviu, buscamos desenvolver uma nova análise e uma teoria socialista alternativa. Chamamos essa estrutura de ‘Modernidade Democrática’. Nela, a nação democrática é proposta como uma alternativa ao Estado-nação; a comuna e o comunalismo substituem o capitalismo; e a economia-ecologia é proposta no lugar do industrialismo. Análises correspondentes foram desenvolvidas para articular e fundamentar essas mudanças conceituais… A vitória no Curdistão também terá impacto na Síria, no Irã e no Iraque. A República da Turquia terá a oportunidade de se renovar, abraçar a democracia e assumir um papel de liderança na região… Posso afirmar com segurança que os oponentes desse processo são desprovidos de valores significativos — e, em última análise, fracassarão. No entanto, concretizar essa visão impõe uma responsabilidade significativa a todas as partes envolvidas. O confederalismo regional se revela uma necessidade absoluta; ao mesmo tempo, esse caminho exige inevitavelmente o surgimento de uma nova forma de internacionalismo. Você pode ler a carta completa <a href=\"https://firatnews.com/guncel/-213436\">aqui</a>. <a href=\"#fnref:2\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n    <li id=\"fn:3\">\n      <p>O Partido da Justiça e Desenvolvimento (<em>Adalet ve Kalkınma Partisi,</em> AKP) respondeu com repressão intensificada. Em 2009, os “julgamentos KCK” levaram à prisão de quase 10.000 pessoas — políticos, defensores dos direitos humanos, sindicalistas e feministas — sob acusações generalizadas de terrorismo. <a href=\"#fnref:3\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n    <li id=\"fn:4\">\n      <p>O conceito de “comuna” torna-se central. Para Öcalan, ela representa o instrumento autêntico do povo, em oposição ao Estado-nação, que ele vê como a extensão armada do capitalismo. A construção de uma sociedade comunal por meio de municípios democráticos só é possível com uma luta anticapitalista coerente, apoiada por clareza política e determinação inabalável. Sem isso, o projeto fracassará. <a href=\"#fnref:4\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n    <li id=\"fn:5\">\n      <p>A família de Bese Hozat foi vítima do massacre perpetrado pelo Estado turco durante a revolta de Dersim, em 1938. Ela afirmou que sua família foi vítima de genocídio, com seu pai e seu avô mortos. Seu irmão e sua irmã também foram assassinados pelo Estado turco. Sua avó, sobrevivente do massacre, conseguiu escapar após suportar severas dificuldades nas mãos de soldados turcos. <a href=\"#fnref:5\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n    <li id=\"fn:6\">\n      <p>Veja, por exemplo, <a href=\"https://www.radiozamaneh.com/851132/\">este artigo</a> de Soma Negahdarinia. <a href=\"#fnref:6\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n  </ol>\n</div>\n"
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      "content_html": "<p>No dia 3 de junho, uma multidão <a href=\"https://crimethinc.com/2025/06/04/minneapolis-to-feds-get-the-fuck-out-how-people-in-the-twin-cities-responded-to-a-federal-raid\">expulsou</a> agentes federais de Minneapolis após uma batida em uma taqueria. No dia 4, pessoas enfrentaram agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) durante operações em Chicago e Grand Rapids. Na sexta-feira, 6 de junho, moradores de Los Angeles reagiram a uma batida do ICE, dando início a um dia inteiro de confrontos que <a href=\"https://bsky.app/profile/jeremotographs.bsky.social/post/3lr22dzslt22x\">continuam</a> até <a href=\"https://bsky.app/profile/acatwithnews.bsky.social/post/3lqzzoky4cc24\">hoje</a>. No relato em primeira mão a seguir, participantes descrevem como pessoas se uniram para tentar impedir que agentes federais sequestrassem membros de sua comunidade.</p>\n\n<p>Tom Homan, o “czar das fronteiras” de Donald Trump, anunciou que enviará a Guarda Nacional para Los Angeles em resposta. Caso a situação se intensifique em outras partes do país, é possível que vejamos o surgimento de um movimento que retome de onde os <a href=\"https://crimethinc.com/2025/05/28/anarchists-in-the-movement-against-police-and-white-supremacy-from-the-los-angeles-riots-to-the-george-floyd-uprising\">levantes por George Floyd</a> pararam. Pode-se argumentar que, ao atingir o <a href=\"https://bsky.app/profile/seiuca.bsky.social/post/3lqxuirtor32n\">presidente</a> do capítulo californiano do Sindicato Internacional dos Empregados em Serviços (SEIU) durante seus ataques em Los Angeles, o ICE e as várias agências federais que estão sendo mobilizadas para apoiá-lo correm o risco de conquistar ainda mais inimigos justo no início desse confronto.</p>\n\n<p>Embora o governo Trump tenha começado atacando imigrantes—<a href=\"https://crimethinc.com/2025/03/11/then-they-came-for-the-palestinians-how-to-respond-to-the-kidnapping-of-mahmoud-khalil\">documentados</a> e indocumentados—, esse é apenas o primeiro passo em sua tentativa de estabelecer uma autocracia. Eles estão mirando os imigrantes por considerá-los alvos <a href=\"https://crimethinc.com/2024/12/23/sacrificial-violence-and-retribution-comparing-the-killings-of-jordan-neely-and-brian-thompson\">mais vulneráveis</a>, mas seu objetivo maior é nos acostumar à passividade diante da violência brutal do Estado, rompendo os laços básicos de solidariedade que deveriam unir todos os seres humanos.</p>\n\n<p>Deve estar claro para todos—inclusive os centristas mais moderados—que o desfecho desse conflito que está se intensificando agora determinará as perspectivas para todos os demais alvos visados por Trump, de Harvard até aqueles que apenas desejam conseguir pagar pelas compras do mês.</p>\n\n<p>Aliás, se você estiver em um ambiente onde possam ser usados <a href=\"https://crimethinc.com/2021/01/04/a-demonstrators-guide-to-understanding-riot-munitions-and-how-to-defend-against-them\">agentes químicos</a>, é possível neutralizar granadas de gás lacrimogêneo—leia <a href=\"https://bsky.app/profile/crimethinc.com/post/3lhcglmxuq22j\">este guia curto</a>. Você pode encontrar uma série de informações úteis sobre como se proteger em manifestações <a href=\"https://crimethinc.com/2020/10/27/everybody-out-resources-for-a-season-of-post-election-unrest#resources\">aqui</a>. Para saber como agir contra o ICE, comece por <a href=\"https://crimethinc.com/2025/02/11/eight-things-you-can-do-to-stop-ice\">aqui</a>.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/06/08/5.jpg\" />\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"primeira-acao-meio-dia\"><a href=\"#primeira-acao-meio-dia\"></a>Primeira Ação: Meio-Dia</h1>\n\n<p>Nas redes sociais, espalhou-se a notícia de que o ICE estava realizando batidas em vários pontos do centro de Los Angeles, Highland Park e MacArthur Park. Os agentes haviam começado a invadir um prédio no distrito das flores quando uma multidão espontânea os encurralou lá dentro. As pessoas bloquearam todos os lados do prédio, cada entrada, de forma que os agentes não conseguiam sair. Eles já haviam detido várias pessoas no edifício e não esperavam que entre 50 e 100 moradores de Los Angeles os cercassem.</p>\n\n<p>Aparentemente, esperavam realizar uma operação visível no centro sem nenhuma reação da vizinhança. Erraram feio. Das seis (ou mais) localizações onde fizeram batidas, essa era a mais densamente povoada, a poucos quarteirões da skid row e bem perto do distrito das piñatas.</p>\n\n<p>Um grande número de pessoas estava na entrada principal, impedindo o ICE de sair. Pegos de surpresa pela multidão, os agentes do ICE pareciam perdidos, tentando descobrir como evacuar. Familiares dos detidos choravam nas portas e portões, sem saber o que aconteceria com seus entes queridos.</p>\n\n<p>O governo federal havia declarado guerra a Los Angeles.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/06/08/7.jpg\" />\n</figure>\n\n<p>O ICE requisitou um caminhão blindado com três dezenas de policiais federais de choque e uma frota de vans. A entrada por onde queriam passar estava bloqueada por um caminhão de som do SEIU, e os agentes começaram a ameaçar guinchá-lo. O SEIU cedeu e retirou o veículo, usando ainda o sistema de som para gritar “Fiquem na calçada!” para a multidão. Metade obedeceu, metade não. Como a multidão ainda era pequena, isso fez diferença. Com isso, o caminhão blindado e as vans conseguiram chegar ao portão.</p>\n\n<p>Agentes federais com equipamentos de choque começaram a tentar dispersar as pessoas. O pequeno grupo que se recusou a sair manteve sua posição, torcendo os pequenos escudos e zombando dos agentes. Eles estavam visivelmente abalados pela resiliência desse grupo, que se formou em menos de quinze minutos. Numa investida desesperada, os agentes do FBI lançaram granadas de gás lacrimogêneo. Todos gritavam contra os mercenários fascistas enquanto tentavam manter a linha. No caos, os agentes abriram caminho para as vans entrarem pelo portão.</p>\n\n<p>Os detidos foram colocados nas vans e os veículos começaram a sair. A multidão tentou impedir, mas o FBI escalou a violência—agredindo manifestantes, disparando balas de pimenta e projéteis de borracha. Uma das vans acelerou e atropelou o presidente do SEIU da Califórnia, ferindo-o. Ele foi preso em seguida.\nA multidão reagiu com mais fúria: soltaram fogos de artifício, lançaram entulho, garrafas d’água e até repolhos contra os agentes. O FBI respondeu com uma chuva de granadas de efeito moral, balas de borracha e mais balas de pimenta.</p>\n\n<p>Enquanto o confronto seguia, alguém seguiu as vans do ICE até o aeroporto de Burbank, onde os agentes supostamente haviam alegado que estavam transportando um “time de hóquei.” Desde então, tentam rastrear o voo.</p>\n\n<p>Os demais detidos foram levados ao MDC (Centro de Detenção Metropolitana), o que levou à convocação de uma nova ação algumas horas depois.</p>\n\n<p>O MDC abriga atualmente centenas de detidos das batidas. Foi também o local do acampamento “Abolir o ICE” de 2017, que durou 60 dias.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/06/08/4.jpg\" />\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"segunda-acao-16h\"><a href=\"#segunda-acao-16h\"></a>Segunda Ação: 16h</h1>\n\n<p>As pessoas começaram a se reunir no Centro de Detenção Metropolitana. Uma coletiva de imprensa ocorreu com a presença da Unión del Barrio, SEIU e da Coalizão pelos Direitos Humanos dos Imigrantes de Los Angeles (CHIRLA). A “polícia da paz” causou atritos entre ativistas pagos e a multidão. Os ativistas acabaram se retirando, e a multidão ficou—pichando tudo, quebrando janelas, destruindo coisas e sendo ingovernável. Alguém trouxe uma marreta e começou a quebrar as colunas de concreto para usar os pedaços como projéteis contra a polícia. Outro usou uma cadeira de escritório como barricada; outra pessoa apareceu vestida com uma fantasia de dinossauro.</p>\n\n<p>Os federais estavam em pânico, respondendo com tudo o que podiam. As pessoas foram atingidas por gás lacrimogêneo várias vezes, mas neutralizavam os efeitos com gelo e água nas granadas e com cones de trânsito, como se viu no Chile. Algumas pessoas chegaram a devolver as granadas para os agentes do Departamento de Segurança Interna (DHS). A multidão estava extremamente animada e corajosa. Streamers de direita tentaram entrar na área, mas foram rapidamente identificados e expulsos.</p>\n\n<p>O DHS não conseguiu controlar a situação. Os federais estavam sobrecarregados e imploraram pela ajuda do Departamento de Polícia de Los Angeles (LAPD). Apesar da prefeita Karen Bass ter dito estar “horrorizada” com a presença do ICE na cidade, o LAPD apareceu em peso. Um helicóptero voando baixo avisava que todos seriam presos e emitia ordens de dispersão enquanto a polícia empurrava as pessoas para longe do prédio ao longo das quatro a cinco horas seguintes. Todos saíram cobertos de pó de balas de pimenta e gás lacrimogêneo.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/06/08/1.jpg\" />\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"terceira-acao-22h\"><a href=\"#terceira-acao-22h\"></a>Terceira Ação: 22h</h1>\n\n<p>Circulou a informação de que o ICE estaria preparando uma batida no bairro de Chinatown. (Depois se descobriu que eles planejavam apenas ocupar o estacionamento para uma coletiva de imprensa de Thomas Homan, o “Czar das Fronteiras” de Trump, às 7h do dia seguinte—uma coletiva que aparentemente foi cancelada.)</p>\n\n<p>Centenas de pessoas começaram a chegar, apontando lanternas nos olhos dos agentes federais e entoando gritos e insultos contra a linha de choque.</p>\n\n<p>Mesmo após um dia inteiro de ações, a energia estava alta, atraindo curiosos e torcedores do Dodgers que passavam por ali. A multidão tomou as ruas e bloqueou novamente as entradas. Desta vez, o LAPD não estava presente, então os agentes federais se prepararam para dispersar o povo por conta própria.</p>\n\n<p>Pessoas na multidão picharam o veículo blindado do ICE e começaram a pular em cima dele enquanto um LRAD (dispositivo de som de alta potência) tocava. Alguém escreveu “FODA-SE O ICE” e pichou as câmeras de um carro autônomo da Waymo. Nenhuma organização estava presente, exceto uma forte delegação da União de Inquilinos de Los Angeles, que esteve em todas as ações do dia.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/06/08/3.jpg\" />\n</figure>\n\n<p>Os agentes federais decidiram que manter o estacionamento era inviável e começaram a recuar. A multidão aproveitou para bloqueá-los, lançando fogos de artifício, pedras, garrafas e, de algum modo, pratos de cerâmica. O FBI lançou algumas granadas de efeito moral e gás lacrimogêneo em resposta, mas o ânimo de quem resistia continuava alto.</p>\n\n<p>As pessoas começaram a quebrar os vidros dos carros federais. Nesse ponto, o ICE decidiu recuar, e uma celebração teve início nas ruas. Fogos de artifício foram soltos em um clima de euforia. As pessoas comemoraram por um momento antes de voltarem para casa, animadas por uma pequena vitória após um dia horrível e desumanizante nos chamados Estados Unidos.</p>\n\n<hr />\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/06/08/2.jpg\" />\n</figure>\n\n<h1 id=\"todo-mundo-odeia-a-policia\"><a href=\"#todo-mundo-odeia-a-policia\"></a>Todo Mundo Odeia a Polícia</h1>\n\n<p>Estes cartazes anônimos circulam em diversas variantes — conectando as lutas contra a polícia em Los Angeles, Gaza e Grécia às lutas em Santo Amaro, Salvador, São Paulo, Atlanta, Chicago, Minneapolis, Oakland, Portland e Seattle.</p>\n\n<p>SANTO AMARO — Los Angeles — Gaza — Greece\nTodo Mundo Odeia a Polícia</p>\n\n<p>Todo Mundo Odeia a Polícia</p>\n\n<figure class=\"portrait-shadow\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2025/06/08/6.jpg\" />\n</figure>\n\n"
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      "title": "Notícias do Front: As Reflexões de um Anarquista Russo em Rojava : Sobre o colapso de Assad, o futuro da Rússia e a iminente invasão apoiada pela Turquia",
      "summary": "The reflections of a Russian anarchist in northeastern Syria on the defeat of Assad, the withdrawal of Putin's troops, and the threat from Turkey.",
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        "Rojava",
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        "Russia",
        "revolution"
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      "content_html": "<p class=\"darkred\">A derrubada do regime de Bashar al-Assad na Síria estava atrasada há muitos anos. No entanto, as tragédias na Síria não acabaram. Israel bombardeou centenas de locais ao redor do país e tomou controle de uma quantidade considerável de terra no sudoeste, enquanto as forças turcas estão ameaçando atacar o nordeste da Síria para realizar limpeza étnica. Assim como em <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2019/10/09/chamado-para-a-acao-solidariedade-a-rojava-contra-a-invasao-turca-uma-apelo-urgente-de-organizacoes-internacionais\">2019</a>, quando Donald Trump deu ao presidente turco Recep Tayyip Erdoğan luz verde para invadir o país, apelamos às pessoas ao redor do mundo para se envolverem em ações de solidariedade para desencorajar as potências mundiais de permitir que isso aconteça.</p>\n\n<p class=\"darkred\">Para humanizar pelo menos uma das inúmeras pessoas cujas vidas estão em jogo aqui, oferecemos as reflexões de um voluntário anarquista russo no nordeste da Síria que participou do <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2020/10/11/un-ano-desde-la-invasion-turca-de-rojava-una-entrevista-con-tekosina-anarsist-sobre-la-participacion-anarquista-en-el-experimento-revolucionario-en-el-noreste-de-siria\">experimento revolucionário</a> em Rojava por muitos anos. Ele obsverva os mercenários russos saírem deste país onde eles infligiram tanto mal, esperando que um dia ele possa ver os mesmos soldados deporem suas armas em sua terra natal, assim como os mercenários de Assad fizeram.</p>\n\n<p class=\"darkred\">Para mais atualizações sobre a situação no norte da Síria de internacionalistas anarquistas no local, você pode seguir este <a href=\"https://t.me/anarchy_in_rojava_ru\">canal de Telegram</a> em russo ou consultar o site do <a href=\"https://tekosinaanarsist.noblogs.org/\">Tekoşîna Anarşîst</a>.</p>\n\n<hr />\n\n<p>Escrevo estas linhas sentado no chão frio e empoeirado, encostado na parede. Eu realmente quero dormir. Nas últimas duas semanas, perdi toda a noção de que horas são — não tive, muitas vezes, a chance de estar na superfície. Dormir em um colchão fino em uma sala comum não é a rotina a que estou acostumado. Muitas vezes adormecemos em horários diferentes. O sono é interrompido por pessoas andando de cômodo em cômodo, informações sendo transmitidas por telefone e rádio, alarmes sendo disparados por causa de possível ataques do SNA<sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">1</a></sup> contra nossa posição. Congelar sob uma faixa de céu aberto, forçando meus ouvidos sobre as batidas do meu próprio coração — posso ouvir drones turcos no céu? Há salvas de artilharia, há mísseis voando?</p>\n\n<p>E então eu sento aqui, abraçando minha metralhadora e envolvendo meu rosto em um cachecol. E as longas horas de espera se arrastam.</p>\n\n<p>Claro, penso muito sobre a situação que se desenrolou rapidamente na Síria. Não consigo me livrar da sensação de que estamos à beira de uma grande guerra. No entanto, aqui, a visão das aldeias tranquilas ocupadas por combatentes pró-turcos do outro lado da linha de frente pode enganar. Tudo parece calmo; os campos entre nós estão vazios; nada se move.</p>\n\n<p>Na realidade, isso é o resultado de vários anos de guerra. O equilíbrio de precauções que se desenvolveu ao longo desse tempo: armadilhas, minas, câmeras de vigilância e patrulhas de ambos os lados — tudo isso estreita as possibilidades de ação ofensiva. Percebendo isso, sinto uma tensão invisível que se estende até o horizonte na direção do inimigo.</p>\n\n<p>Esta situação é periodicamente abalada pela chegada de projéteis de artilharia e tiros. As pessoas nas outras posições ao nosso redor estão em uma situação semelhante. Há uma cidade atrás de nós, e os combatentes pró-turcos podem tentar passar por nós direto para ela. Todos em nossa posição estão prontos para se defender contra qualquer ataque.</p>\n\n<p>Em contraste com a realidade diária da nossa parte da frente, somos capazes de assistir às notícias. Os eventos estão se desenvolvendo em uma velocidade alucinante. O regime de Assad caiu, Manbij está sob ataque do SNA, Deir ez-Zor está nas mãos do SDF<sup id=\"fnref:2\"><a href=\"#fn:2\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">2</a></sup> para impedir que o Estado Islâmico capturasse a cidade — e agora Shehba foi rendida, Deir ez-Zor foi entregue ao HTS,<sup id=\"fnref:3\"><a href=\"#fn:3\" class=\"footnote\" rel=\"footnote\" role=\"doc-noteref\">3</a></sup> há uma luta feroz em Manbij e a retirada subsequente. Quase um milhão de pessoas foram forçadas a deixar suas casas devido a novas hostilidades. Israel tem bombardeado a infraestrutura militar por toda a Síria. Muitas informações contraditórias e incorretas estão circulando em vários canais. Está claro que uma guerra de informação e uma guerra psicológica estão sendo travadas. Isso tem a intenção de influenciar as percepções das pessoas sobre a situação, moldar as discussões e o clima geral, bem como a cobertura que outros meios de comunicação fornecem, sem mencionar seus efeitos sobre os participantes dos próprios eventos.</p>\n\n<p>As notícias sobre a adoção da bandeira tricolor verde-branco-preto com três estrelas vermelhas como bandeira da nova Síria pós-Assad ocasionaram discussões especiais entre nós. A Administração Autônoma Democrática do Nordeste da Síria, conhecida como <a href=\"https://www.doisniveis.com/doisniveis/a-regiao-autonoma-do-rojava-uma-revolucao-feminista-no-oriente-medio/\">Rojava</a>, se considera parte desta Síria. Considerando a história desta bandeira, que se tornou um símbolo da revolução no país e a bandeira da revolta contra Assad em 2011, este movimento não é surpreendente.</p>\n\n<p>Também há contradições. O HTS colocou esse símbolo em circulação. Mas ele não pertence a eles. Agora, uma oportunidade se abriu para tornar o projeto de <a href=\"https://bibliotecaanarquista.org/library/abdullah-ocalan-confederalismo-democratico\">confederalismo democrático</a> uma opção possível para toda a Síria e além. Politicamente e de muitas outras maneiras, Rojava é mais forte e mais rica do que o HTS. Este último acaba de ter uma onda de sucesso, enquanto em Rojava, temos experiência e uma ideia bem desenvolvida. As SDF também prefeririam uma solução política para a situação na Síria. O comandante-chefe das SDF, <a href=\"https://x.com/MazloumAbdi\">Mazloum Abdi</a>, disse que <a href=\"https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2024/12/guerra-na-siria-nao-acabou-e-paises-precisam-pressionar-turquia-por-cessar-fogo-diz-comandante-curdo.shtml?utm_source=twitter&amp;utm_medium=social&amp;utm_campaign=twfolha\">ninguém quer guerra aqui</a>, exceto os aliados representantes pró-turcos.</p>\n\n<p>Observando tudo isso, alguns pensamentos rápidos e talvez ingênuos passam pela minha cabeça. Imagens de cidades libertadas do regime mostram pessoas celebrando a queda do regime. Notei que quase não há mulheres visíveis entre elas. Isso parece um contraste significativo com o que é visível em muitos dos comícios e marchas em Rojava.</p>\n\n<p>Também me passou pela cabeça que poderia ser possível ver lugares antes inacessíveis na Síria. Depois de muitos anos de ditadura, viajar de Rojava para Damasco, por exemplo, sem “rotas especiais” parecia impossível. E quanto aos milhões de pessoas que nasceram e foram criadas aqui? E quanto à população curda, que por muito tempo nem sequer recebeu passaportes? E quanto àqueles que nasceram depois que seus pais foram forçados a emigrar da Síria? Ou as gerações que não conheceram nada além do governo e da guerra de Assad?</p>\n\n<p>Essas reflexões me trazem de volta à situação na Rússia. Testemunhando a ampla oposição síria, milhões de pessoas assistindo ao que está acontecendo com esperança, fazendo as malas para voltar para casa, é difícil não pensar: como será quando a mesma coisa acontecer na Rússia?</p>\n\n<p>O regime de Assad foi garantido pelo poder de Putin; sua queda já mudou completamente a posição do exército russo aqui. Seguindo os soldados do regime de Assad, que perceberam que não estavam mais em perigo com a velha ordem e abandonaram seus equipamentos, armas e posições, o exército russo também está partindo. Observei com sentimento especial as colunas russas passando por mim em uma das posições. Olhei nos rostos dos soldados, tentando entender se perceberam que, por todos esses anos, eles estavam aterrorizando a população com bombardeios, eles entregaram Afrin ao exército turco, eles mantiveram o regime de Assad vivo — e agora tudo isso acabou. A ajuda militar russa à ditadura síria acabou. Não acho que aqueles soldados perceberam que estavam olhando nos olhos de um homem do mesmo país que eles, mas que escolheu o outro lado das barricadas.</p>\n\n<p>Como provavelmente acontecerá na Rússia um dia, a queda do regime aqui criou um espaço que deve ser preenchido por um novo sistema político. O HTS, a antiga Al-Qaeda na Síria, que está fazendo o possível para parecer “apresentável”, dificilmente conseguirá organizar um novo estado sem um colapso rápido ou uma nova crise. Embora tenham derrubado Assad, o HTS não é uma força de libertação em termos de seus valores. Talvez na Rússia também veremos o regime entrar em colapso graças a forças que estão longe dos valores proclamados pelo experimento de Rojava. A libertação das mulheres, a coexistência de vários grupos étnicos e outras identidades, cada um com sua própria autonomia, comunas — hoje, na Federação Russa, esses não são tópicos especialmente populares, mesmo no meio da oposição.</p>\n\n<p>Seja qual for o caráter da força que derrubou Assad, ela despertará esperança nos corações de milhões. Também abrirá a porta para novas elites governantes e seus interesses.</p>\n\n<p>Esperança e entusiasmo são escassos na luta contra o regime de Putin hoje, mas são necessários para o sucesso. Às vezes, teremos que suportar profundas contradições e decepções.</p>\n\n<p>Entre minhas reflexões, assuntos cotidianos e a organização da defesa, nossa vida diária não sofre da falta coisas familiares. Um camarada árabe, que passou por quase todas as frentes da defesa da revolução, despeja açúcar no bule de chá com conchas cheias, rindo e dizendo, “Dims” (Kurmanji para “xarope”). Uma gata chamada Myshka vagueia entre nós e brincamos que ela faz parte da defesa. Um camarada ao meu lado escreve diligentemente em árabe e mostra seu trabalho aos camaradas árabes, que pacientemente verificam sua ortografia.</p>\n\n<p>O nascer do sol está chegando. Estamos prontos, o chá forte e doce é revigorante e um novo dia está por vir. Os eventos estão se movendo muito rapidamente — a cada duas horas, algo novo e inesperado acontece. O que nos espera hoje? Não sei. Mas o pensamento de que estamos defendendo a revolução e seus ideais junto com pessoas de todas as etnias e idades de Rojava, que cada um de nós está fazendo uma contribuição, me dá força e clareza. Espero que a sobrevivência de Rojava traga vitórias ao nosso movimento anarquista, que, na minha opinião, pode aprender muito aqui na Síria.</p>\n\n<div class=\"footnotes\" role=\"doc-endnotes\">\n  <ol>\n    <li id=\"fn:1\">\n      <p>Exército Nacional Sírio, uma força aliada [proxy] a serviço do governo turco. <a href=\"#fnref:1\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n    <li id=\"fn:2\">\n      <p>Forças Democráticas Sírias (FDS), o exército da Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria. <a href=\"#fnref:2\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n    <li id=\"fn:3\">\n      <p>Hay’at Tahrir al-Sham, uma coalizão de grupos insurgentes islâmicos sunitas do norte da Síria. O HTS evoluiu da Jabhat al-Nusrah, que começou como um braço da Al-Qaeda na Síria. <a href=\"#fnref:3\" class=\"reversefootnote\" role=\"doc-backlink\">&#8617;</a></p>\n    </li>\n  </ol>\n</div>\n"
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      "title": "A Guerra Civil Síria Resurge : Perspectivas Sobre o Conflito do Oeste e Nordeste da Síria",
      "summary": "Perspectives from both Western and Northeastern Syria on the taking of Aleppo and the renewed prospect of the fall of Assad.",
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      "content_html": "<p>A guerra civil na Síria permaneceu em grande parte congelada desde 2020, devido a um precário equilíbrio de poderes entre várias facções com vários graus de apoio da Rússia, Turquia, Irã e Estados Unidos. Nos últimos dias, no entanto, aproveitando as maneiras como o Irã e o Hezbollah foram amarrados pelo conflito com Israel enquanto a Rússia estava distraída na Ucrânia, as forças antigovernamentais Hayat Tahrir al-Sham (HTS) tomaram Aleppo e intensificaram sua campanha contra a ditadura de Bashar al-Assad. Embora Assad tenha sido responsável pela morte de centenas de milhares de pessoas e sua queda<a href=\"https://www.newarab.com/opinion/our-dream-assad-free-syria-has-returned-rebel-advance\">seria bem-vinda</a>, esse desenvolvimento representa novos perigos.</p>\n\n<p>Como exploramos <a href=\"https://pt.crimethinc.com/2018/12/28/a-ameaca-a-rojava-anarquista-na-siria-fala-sobre-o-real-significado-da-retirada-das-tropas-estadunidenses-da-siria-por-donald-trump#as-faccoes\">antes</a>, a situação na Síria é complexa, e os mesmos eventos podem parecer muito diferentes de diferentes pontos de vista. Para triangular uma realidade informada por muitas visões, apresentamos aqui uma perspectiva de participantes da revolução no oeste da Síria, juntamente com um relato de anarquistas em Rojava, a região nordeste da Síria.</p>\n\n<hr />\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2024/12/02/1.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Aleppo, 2024.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"o-que-esta-acontecendo-no-noroeste-da-siria\"><a href=\"#o-que-esta-acontecendo-no-noroeste-da-siria\"></a>O que está acontecendo no noroeste da Síria?</h1>\n\n<p class=\"darkred\"><em>Esta é uma tradução de uma <a href=\"https://www.instagram.com/p/DDFNYqGNjX7/?img_index=1\">declaração</a> da  <a href=\"https://www.instagram.com/lacantinesyriennedemontreuil/\">Cantine Syrienne de Montreuil</a>, um projeto estabelecido por participantes da revolução síria no exílio. Você pode ler uma entrevista com eles <a href=\"https://crimethinc.com/2022/03/15/the-syrian-cantina-in-montreuil-organizing-in-exile-how-refugees-can-continue-their-struggle-in-foreign-lands\">aqui</a>.</em></p>\n\n<p>Uma aliança de vários grupos “rebeldes” (jihadistas, islamistas, mercenários sob a tutela da Turquia e similares) lançou uma grande ofensiva nos últimos dias para romper o cerco da cidade de Idlib pelo regime e seus aliados, e responder aos seus ataques assassinos. A operação recuperou o controle territorial de Aleppo (a segunda maior cidade da Síria) e da área ao seu redor.</p>\n\n<p>Esta ofensiva acontece após a desestabilização do regime iraniano e do Hezbollah e como consequência dos ataques de Israel. Aliados de longa data de Assad, as milícias controladas pelo Irã continuaram a bombardear áreas rebeldes da Síria após 7 de outubro de 2023. Mesmo após o ataque de <a href=\"https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce8vxg1xgx3o\">bipes e pagers</a> explosivos orquestrado por Israel no Líbano, o Hezbollah atacou Idlib (em 20 e 23 de setembro de 2024) antes de retirar algumas de suas tropas para o Líbano.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2024/12/02/4.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Protesto em Idlib.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Num contexto humanitário e econômico catastrófico, a operação militar dos grupos “rebeldes” obrigou centenas de pessoas a abandonar as áreas que recentemente caíram sob o seu controlo (por medo de represálias), mas também permitiu que centenas de deslocados regressassem às suas terras e casas e reencontrassem as suas famílias após longos anos de separação e de dura sobrevivência nos campos de refugiados.</p>\n\n<p>Anos atrás, Aleppo já havia sido libertada do regime de Assad e autoadministrada por seus moradores de 2012 a 2016 antes de cair novamente nas mãos do regime graças ao apoio da Rússia, Irã e Hezbollah no Líbano. Após um cerco brutal, um bombardeio implacável no qual 21.000 civis foram mortos e a destruição quase total da parte oriental da cidade, a queda de Aleppo marcou uma derrota militar decisiva para a revolução síria.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2024/12/02/2.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>“Nós retornaremos.” Graffiti no primeiro dia do acordo de evacuação civil quando Aleppo caiu nas mãos do regime.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Hoje, só podemos nos alegrar em ver as forças do regime obrigadas a fugir de Aleppo: imagens de detentos libertados das prisões, estátuas da família Assad derrubadas, retratos de [Líder Supremo do Irã Ali] Khameini, [assassinado secretário-geral do Hezbollah Hassan] Nasrallah, ou [assassinado oficial militar iraniano Qasem] Soleimani despedaçados. Mas sejamos claros, não há motivo para esperança para o futuro da Síria nas áreas “libertadas” por esses grupos militares, sejam eles jihadistas ou “moderados”.</p>\n\n<p>Esta operação, embora decidida e coordenada na Síria, não poderia ter visto a luz do dia sem o sinal verde da Turquia, que parece ter sido esmagada pela escala da ofensiva. Vamos encarar, poucos ainda acreditam que [o presidente turco Recep Tayyip] Erdoğan seja um amigo do povo sírio. A Turquia massacra populações curdas na Síria e em outros lugares, organiza deportações forçadas de refugiados sírios, tenta há anos normalizar as relações com Assad e usa combatentes sírios como mercenários para seus interesses geopolíticos, sem mencionar a repressão de toda dissidência interna.</p>\n\n<p>Quanto aos grupos islâmicos, seu poder tem sido contestado há anos pela população civil das áreas sob seu controle. Em 2024, grandes manifestações ocorreram em Idlib para exigir a saída de [Abu Mohammad] al-Joulani, o líder do Hayat Tahrir al-Cham (HTC), o grupo que governa o enclave. Sem legitimidade popular, o HTC governa pela força; ele falhou em cumprir as esperanças da revolução de 2011. Os sírios que se levantaram contra a tirania de Assad e sacrificaram tanto para poder viver em liberdade não podem viver sob grupos como o HTC a longo prazo.</p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2024/12/02/5.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Al-Joulani = al-Assad.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<p>Uma alegria amarga e ambígua, afinal. Muito permanece incerto. As consequências humanitárias provavelmente serão catastróficas. O regime e seus aliados intensificaram os ataques às áreas já controladas pelos “rebeldes”, bem como às áreas que eles acabaram de recapturar. Os hospitais em Aleppo já estão sobrecarregados pela falta de recursos e pessoal. Ainda não sabemos qual será a posição das Forças Democráticas Sírias lideradas pelos curdos. A única coisa da qual podemos ter certeza é o retorno eterno dos apoiadores do “eixo da resistência”, que, sob o disfarce de oposição a Israel e ao imperialismo ocidental, mais uma vez encobrirão os açougueiros que assassinaram e deslocaram nossas famílias e amigos.</p>\n\n<p>No meio de tudo isso, estamos amplamente despossuídos de nossa revolução e da possibilidade de autodeterminação em nosso país. Entre as potências estrangeiras que jogam seus jogos de influência com nosso sangue e as milícias islâmicas que falam apenas a linguagem das armas, por enquanto, a força bruta e os cálculos geopolíticos decidirão nosso futuro. A situação não é excelente, mas a queda do regime continua sendo o pré-requisito para qualquer mudança no país. De novo e de novo, <strong><em>o povo quer a queda do regime.</em></strong></p>\n\n<p><strong>Viva a Síria livre!</strong><br />\n<strong>Gaza viverá, a Palestina será livre!</strong><br />\n<strong>“Fora todos”, por um Líbano livre!</strong></p>\n\n<figure class=\"\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2024/12/02/6.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>A placa diz: “A garantia da nossa vitória é a saída da Turquia de nossas terras”.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<h1 id=\"a-vista-de-rojava\"><a href=\"#a-vista-de-rojava\"></a>A vista de Rojava</h1>\n\n<p class=\"darkred\"><em>Uma visão geral dos principais acontecimentos dos últimos dois dias, fornecida por anarquistas internacionalistas na Síria.</em></p>\n\n<p>A ofensiva de Hayat Tahrir al-Sham (HTS) fez um avanço nos primeiros dias em direção ao leste (Aleppo) e ao sul (Hama) e desacelerou em 1 e 2 de dezembro. As forças do regime de Assad parecem ter recapturado a cidade de Hama e interrompido o avanço do HTS em direção à cidade de Homs. As forças aéreas russas estão realizando uma extensa campanha de bombardeio, visando unidades do HTS, mas também infraestrutura civil e militar em Idlib, Aleppo e ao longo da rota do avanço do HTS. Há relatos de vítimas civis e combatentes. Jatos pertencentes ao regime de Assad também realizaram ataques aéreos, mas em menor escala. Em Aleppo, no distrito curdo de Sheikh Maqsood, os moradores se prepararam para autodefesa.</p>\n\n<p>Ao norte de Aleppo, o cantão de Şehba está sendo ocupado pelo Exército Nacional Sírio (SNA) [apoiado pela Turquia]. Milhares de pessoas que viviam em campos de refugiados desde a invasão turca de Afrin em 2018 estão sendo evacuadas. As <a href=\"https://x.com/sdf_syria\">Forças Democráticas Sírias</a> (SDF) estão organizando um corredor humanitário para permitir que as pessoas saiam de Aleppo e Şehba. Nenhum grande confronto foi relatado entre o SDF e o SNA por enquanto.</p>\n\n<p>Em algumas outras regiões da Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria (DAANES), também conhecida como <strong><a href=\"https://www.doisniveis.com/doisniveis/a-regiao-autonoma-do-rojava-uma-revolucao-feminista-no-oriente-medio/\">Rojava</a></strong>, ocorreram bombardeios de artilharia e atividades de drones, mas não mais do que o normal.</p>\n\n<p>Há relatos da milícia Hashd Ash-Shaabi apoiada pelo Irã se movendo para o território sírio na região de Deir-Ez-Zor em grandes números. Na mesma região, a SDF e o conselho militar de Deir-Ez-Zor estão fazendo movimentos para tomar algumas cidades e vilas sob controle.</p>\n\n<p>As forças do Estado Islâmico que permanecem no deserto da Síria central não foram vistas fazendo grandes movimentos, mas espera-se que elas aproveitem a situação da forma mais vantajosa possível.</p>\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2024/12/02/7.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Um mapa publicado pela <a href=\"https://www.aljazeera.com/news/2024/12/1/who-controls-what-in-syria-in-maps\">Al Jazeera </a> mostrando a distribuição atual do controle territorial na Síria.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<hr />\n\n<p>A SDF convocou uma mobilização em massa, pedindo que os jovens se juntem à SDF e estejam prontos para repelir os próximos ataques ao território liberado. É uma expectativa comum que a escalada se intensifique e que as facções apoiadas pela Turquia usem a oportunidade para atacar as regiões ocidentais de DAANES, como Minbij.</p>\n\n<p>No início, houve rumores sobre uma tentativa de golpe em Damasco; se tal tentativa aconteceu, parece ter falhado rapidamente.</p>\n\n<p>Egito, Rússia, Emirados Árabes Unidos e Irã expressaram apoio ao regime de Assad.</p>\n\n<p>A Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria está no meio de uma nova turbulência. O número de refugiados chegando aos cantões ocidentais, contados junto com o número de pessoas que chegaram do Líbano nos últimos meses, pode facilmente exceder 200.000 nas próximas semanas.</p>\n\n<hr />\n\n<p>Nos primeiros dias da ofensiva do HTS e do empurrão do SNA contra Şehba, assim como o cerco de Sheikh Maqsood, está claro que o regime de Assad está em uma situação muito difícil; parece possível que ele entre em colapso. No entanto, qualquer governo potencial do HTS não será estável e não será capaz de resolver os problemas urgentes que a ditadura de Bashar Al-Assad criou e exacerbou para a Síria. No entanto, a queda de Assad pode abrir uma janela de possibilidade para mudança na região, se os sírios — tanto aqueles que permanecem no país quanto aqueles que decidirão retornar após o exílio — conseguirem reviver as ideias originais da revolução síria.</p>\n\n<p>Grandes potências globais como Turquia, Estados Unidos e Israel se beneficiarão da ofensiva do HTS. O HTS atende a todas as suas necessidades como uma força que se opõe ao Irã, Assad e Rússia. Dada a chance de assumir a criação de estado se vencerem, seguindo o modelo do Talibã, é possível que os principais atores do HTS exerçam sua influência em um possível novo governo futuro. É até possível que os estados acima mencionados possam apoiar o HTS na tomada do poder, visto que não estão interessados ​​em que o povo sírio decida por si mesmo de forma independente.</p>\n\n<p>A queda do regime de Assad seria boa para os DAANES de várias maneiras, mas também levanta questões importantes:</p>\n\n<p>A) Existe um sério perigo de que, livre da necessidade de lutar contra a Rússia e Assad, o Estado Islâmico aproveite a oportunidade para crescer novamente, embora também esteja em conflito com o HTS.</p>\n\n<p>B) Podemos esperar que os Estados Unidos sejam cada vez mais invasivos e manipuladores se o DAANES se tornar mais dependente dos Estados Unidos para protegê-lo de uma potencial invasão turca.</p>\n\n<p>C) Encontrar um novo equilíbrio de forças na região certamente será caótico e sangrento, e não está claro como isso terminará.</p>\n\n<p>D) Isto é especialmente verdadeiro porque a Turquia expandirá a zona de seu controle direto muito mais profundamente na Síria.</p>\n\n<p>E) Finalmente, os fundamentalistas religiosos do HTS que estão tomando conta do oeste da Síria provocarão um forte conflito com o projeto revolucionário no nordeste da Síria, especialmente no que diz respeito à forma como isso mudou o status das mulheres na sociedade.</p>\n\n<p>A situação para o Líbano será muito difícil, pois o país ficará imprensado entre Israel e a parte da Síria controlada pelo HTS. Isso pode levar à escalada de conflitos internos. O Hezbollah ficará sem um corredor pelo qual receber apoio do Irã.</p>\n\n<p>No contexto regional, até certo ponto, o DAANES representa uma solução não estatal baseada em autogoverno e autonomia cultural, religiosa, de gênero e étnica. Ainda assim, ele recebe o menor apoio internacional.</p>\n\n<p>Saudações revolucionárias!</p>\n\n<hr />\n\n<figure class=\"portrait\">\n<img src=\"https://cdn.crimethinc.com/assets/articles/2024/12/02/3.jpg\" />   <figcaption>\n    <p>Aleppo, 2024.</p>\n  </figcaption>\n</figure>\n\n<h1 id=\"atualizacao-6-de-dezembro-de-2024\"><a href=\"#atualizacao-6-de-dezembro-de-2024\"></a>Atualização: 6 de dezembro de 2024</h1>\n\n<p class=\"darkred\"><em>O relatório abaixo chega até nós do mesmo grupo de anarquistas internacionalistas na Síria.</em></p>\n\n<p>Tantas coisas estão acontecendo hoje, é difícil resumir. Compartilharemos algumas atualizações relevantes, com a ressalva de que não somos um serviço de inteligência, mas apenas alguns anarquistas revolucionários acompanhando a situação do nordeste da Síria.</p>\n\n<p>A principal notícia de hoje é o colapso geral do Exército Árabe Sírio (o exército do governo da República Árabe Síria, ou SAA), com soldados se retirando de muitas frentes diferentes, até mesmo desertando publicamente em algumas áreas.</p>\n\n<h2 id=\"frente-ocidental\"><a href=\"#frente-ocidental\"></a>Frente Ocidental</h2>\n\n<p>O avanço de Hay’at Tahrir al-Sham (a principal coalizão de oposição islâmica, HTS) continua. Após tomar o controle da cidade de Hama, eles estão chegando aos arredores de Homs. Vídeos de ataques com drones Shaheen (kamikazes autoproduzidos pela HTS) em postos militares do SAA em Homs já estão se espalhando nas mídias sociais.</p>\n\n<p>À medida que a ofensiva do HTS se move para o sul, eles também estão se expandindo para o leste e oeste, não apenas lutando, mas também fazendo acordos com grupos locais. Em Mahardah, a oeste de Hama, eles negociaram a retirada dos soldados do SAA com a comunidade cristã local; em Salamiya, a leste de Hama, eles fizeram um acordo com a comunidade ismaelita.</p>\n\n<p>Seu avanço ocidental está entrando em território desértico, onde o Estado Islâmico (ISIS) tem sustentado sua insurgência. Não está claro se as células insurgentes do ISIS irão confrontar o HTS ou recebê-los.</p>\n\n<h2 id=\"frente-oriental\"><a href=\"#frente-oriental\"></a>Frente Oriental</h2>\n\n<p>Soldados do SAA estão se retirando de posições nos arredores de Raqqa, com as Forças Democráticas Sírias (a coalizão militar das forças de defesa em Rojava, SDF) se movimentando para capturar esses territórios para impedir novas atividades do ISIS.</p>\n\n<p>Um cenário semelhante está acontecendo na cidade de Deir Ezzor, onde aparentemente houve alguma coordenação para proteger a área com soldados do SAA antes que eles deixassem suas posições.</p>\n\n<p>Pelo menos uma cidade situada 50 km ao sul de Deir Ezzor, Al-quraya, parece estar sob controle das forças do ISIS que avançaram enquanto o SAA se retirava.</p>\n\n<p>As forças das SDF também assumiram o controle da passagem de fronteira com o Iraque em Albukamal, que tem sido um ponto de passagem muito importante para a coordenação e linhas de suprimento de várias forças aliadas (proxy) do Irã.</p>\n\n<p>O SNA faz uma declaração à imprensa anunciando sua operação contra as SDF em Manbij, pedindo aos civis que fiquem longe das zonas militares.</p>\n\n<h2 id=\"frentes-do-sul\"><a href=\"#frentes-do-sul\"></a>Frentes do Sul</h2>\n\n<p>Uma nova frente se abriu no sul, enquanto diferentes grupos rebeldes em Quneitra, Daraa e Sweida começaram a tomar ações militares contra o SAA em ruínas. Supostamente, eles criaram uma sala de operação comum para coordenar os ataques aos soldados do regime.</p>\n\n<p>Vários grupos têm invadido postos de controle, delegacias de polícia e quartéis militares em algumas áreas. O SAA está reagindo a esses ataques com bombardeios e confrontos intermitentes.</p>\n\n<p>Vídeos de soldados do SAA desertando publicamente e se juntando a milícias de defesa locais estão se espalhando nas redes sociais, especialmente entre a comunidade drusa de Sweida.</p>\n\n<p>Também no sul — mas no lado oriental — o batalhão de Al-Tanf também está avançando. Conhecido como Maghawir al-Thawra, esse grupo fazia parte do Exército Livre da Síria (o antigo nome que era usado como um guarda-chuva para grupos de oposição contra Assad), mas após o surgimento do ISIS, seu foco principal mudou para lutar contra o califado. Eles receberam treinamento e armas dos EUA, bem como apoio em suas operações contra o ISIS. Nos últimos anos, eles estavam bloqueando as rotas de entregas de armas do Irã e fazendo ataques visando grupos de contrabando de drogas do Captagon. Agora, pela primeira vez, eles deixaram sua área local de operações e estão entrando em confronto com as forças do SAA em Palmyra.</p>\n\n<h2 id=\"rumores\"><a href=\"#rumores\"></a>Rumores</h2>\n\n<p>Supostamente, Israel está bombardeando instalações de pesquisa química para evitar que elas caiam nas mãos dos “Rebeldes”. Supostamente, a Rússia está evacuando partes de sua força aérea estacionada na Síria.</p>\n\n<p>Há relatos sugerindo que um golpe contra o governo de Assad pode estar acontecendo em Damasco. Há também relatos supostamente do Mossad (inteligência israelense) indicando que Assad deixou a Síria, sugerindo que ele escapou para o Irã.</p>\n\n<h2 id=\"avaliacoes-preliminares\"><a href=\"#avaliacoes-preliminares\"></a>Avaliações Preliminares</h2>\n\n<p>Está claro que ninguém mais tem fé no governo de Assad. Estamos confiantes em anunciar que este é o fim do regime. Para muitos do povo sírio, hoje será um dia de celebração. Depois de quase 13 anos de guerra, miséria e exílio, seus sonhos de uma Síria sem Bashar estão se tornando realidade. Nesse sentido, é um dia de celebração para nós também.</p>\n\n<p>Mas o fim do regime provavelmente será apenas o começo de uma nova fase de conflito e instabilidade, uma muito difícil. A Síria se tornou um campo de batalha onde muitas forças militares (estatais e não estatais) usam a violência para perseguir seus objetivos sem medo das consequências. Isso inclui a brutalidade do regime sírio e os bombardeios em massa russos da população civil, os massacres horríveis do Estado Islâmico e as ocupações genocidas e imperialistas do Exército turco e seus representantes visando o povo curdo e a Revolução de Rojava.</p>\n\n<p>Mais de uma década de guerra e sofrimento infligiu feridas que não cicatrizarão com o fim da dinastia Assad, e o dia seguinte provavelmente testemunhará mais derramamento de sangue e atrocidades. As declarações da operação do SNA contra Manbij provavelmente serão o início de uma guerra brutal de ocupação, como já vimos em 2018 em Afrin e 2019 em Serekaniye e Gire Spi. O futuro em Damasco ainda não está claro, e o islamismo do HTS logo começará a revelar suas verdadeiras cores ao povo sírio. O que quer que seja mostrado na CNN, o povo de Idlib vem sofrendo e protestando contra o governo autoritário do HTS há meses.</p>\n\n<p>As potências ocidentais aceitarão tacitamente essa versão aparentemente diluída do salafismo, como já fizeram no Afeganistão. E essas grandes mudanças distrairão as pessoas dos massacres que a Turquia perpetua em Manbij, dando ao membro desonesto da OTAN no Oriente Médio uma carta branca em troca de sua lealdade em outros assuntos que são de maior prioridade para a agenda ocidental.</p>\n\n<p>A revolução em Rojava está ameaçada, como sempre. Vamos celebrar a queda do regime, mas vamos continuar construindo o novo mundo que carregamos em nossos corações.</p>\n\n<p>Saudações revolucionárias!</p>\n\n<hr />\n\n<p><em>Se você quiser apoiar os evacuados no nordeste da Síria, você pode fazê-lo <a href=\"https://heyvasor.com/en/2024/12/03/emergency-aid-for-rojava/\">aqui</a>.</em></p>\n\n"
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